Guia Rex: o “GPS analógico” que ajudava a desvendar o Rio de Janeiro

Guia Rex
Guia Rex

Hoje, encontrar um endereço em uma cidade desconhecida parece uma tarefa quase trivial. Basta digitar o nome de uma rua no celular e, em poucos segundos, aparecem o caminho, a distância, o tempo estimado e até as opções de transporte público.

Mas nem sempre foi assim.

Houve um tempo em que conhecer uma cidade exigia um pouco mais de atenção, memória e, principalmente, um bom mapa. No Rio de Janeiro, durante décadas, um dos companheiros mais importantes de quem precisava se deslocar pela cidade foi o Guia Rex.

Para muita gente, ele era simplesmente um guia de ruas. Para quem dependia dele diariamente, porém, era muito mais do que isso. Era endereço, mapa, referência, transporte e orientação reunidos em um único volume.

E, antes do GPS, talvez seja justo chamá-lo de um verdadeiro “GPS analógico”.

Um guia que nasceu para conhecer a cidade

O Guia Rex surgiu no Rio de Janeiro e tornou-se uma publicação especializada em representar a cidade por meio de mapas, ruas, bairros e informações úteis para a localização.

Uma fonte publicada na década de 1970 atribui a criação do Guia Rex a Ari Carlos dos Reis e Souza, que teria desenvolvido a ideia e envolvido sua própria família na produção da publicação. A mesma fonte menciona Augusto Elísio de Souza como uma espécie de patrono do Guia Rex e registra a participação de diversos integrantes da família na sua produção e administração.

A publicação ganhou tamanha importância que deixou de ser apenas um produto para motoristas. Seus mapas passaram a registrar a própria transformação urbana do Rio.

Um exemplo interessante aparece em um estudo sobre o bairro do Grajaú, que utiliza uma edição carioca do Guia Rex de 1985 como fonte cartográfica para analisar a formação e os limites das áreas do bairro.

Isso mostra uma característica que hoje talvez passe despercebida: o Guia Rex acabou se tornando também um registro histórico da cidade.

Muito mais que um livro de mapas

Quem nunca utilizou um Guia Rex pode ter dificuldade para imaginar sua importância.

O funcionamento era relativamente simples. Procurava-se o nome da rua no índice, encontrava-se a página ou folha correspondente e, então, era necessário localizar o endereço no mapa.

Só que havia uma diferença fundamental em relação aos mapas digitais de hoje: era preciso aprender a ler a cidade.

Não havia uma voz dizendo:

“Vire à direita em 200 metros.”

Não existia uma linha azul mostrando o caminho mais rápido.

Era o próprio usuário quem precisava entender a relação entre as ruas, avenidas, bairros, viadutos, praças e referências existentes no mapa.

E isso fazia com que, depois de algum tempo utilizando o guia, a pessoa começasse realmente a conhecer a cidade.

Há relatos que mostram como o Guia Rex era utilizado inclusive para compreender o transporte coletivo. Uma memória registrada pelo Museu da Pessoa descreve o guia como uma ferramenta que apresentava nomes de ruas, bairros, mapas e linhas de ônibus, permitindo ao usuário descobrir como chegar aos mais diferentes pontos do Rio.

Uma publicação acadêmica sobre cartografia urbana também registra que os antigos guias de ruas eram importantes instrumentos de orientação antes da popularização dos sistemas digitais de geolocalização, citando o Guia Rex entre os principais guias utilizados no Rio de Janeiro.

O meu Guia Rex de 1995

Foi justamente nesse universo que entrei quando cheguei ao Rio de Janeiro.

Em 10 de setembro de 1995, deixei Pomerode, em Santa Catarina, e vim morar no Rio. Aos 19 anos, a mudança significava muito mais do que simplesmente trocar uma cidade por outra.

Era entrar em um mundo completamente diferente.

Eu vinha de uma cidade pequena e estava chegando a uma metrópole gigantesca, com bairros espalhados por uma extensa área, inúmeras ruas, avenidas, linhas de ônibus e uma lógica urbana que eu ainda precisava aprender.

E foi aí que o Guia Rex 1995 ganhou importância.

Naquela época, ele era praticamente uma ferramenta de trabalho.

Quando precisava chegar a algum lugar, o procedimento era quase um pequeno ritual: procurar o endereço, localizar a rua no mapa, entender por onde passar e descobrir quais linhas de ônibus poderiam servir para chegar ao destino.

Não era raro sair de casa já com o trajeto mentalmente planejado.

E, quando surgia alguma dúvida no caminho, o Guia Rex estava ali.

Era pesado, volumoso, cheio de páginas e mapas, mas cabia na bolsa, na mochila ou no porta-luvas do carro. Com o tempo, provavelmente começava a apresentar sinais de uso: páginas marcadas, cantos dobrados, anotações e endereços destacados.

Era um objeto para ser usado de verdade.

O Rio de Janeiro visto em papel

Talvez uma das coisas mais interessantes de um Guia Rex antigo seja perceber que ele não mostra apenas onde ficavam as ruas.

Ele mostra como a cidade era naquele momento.

Uma rua que hoje mudou de nome, um trecho que foi alterado, uma via que posteriormente recebeu prolongamento, um bairro cuja configuração se transformou ou até mesmo uma linha de ônibus que deixou de existir podem ser encontrados nessas antigas páginas.

Um exemplo bastante curioso aparece em pesquisas sobre a antiga estação de Maria da Graça. Um mapa de 1995 do Guia Rex é utilizado como referência para mostrar a configuração do bairro naquele período.

Outro estudo sobre as linhas de ônibus da Zona Oeste utilizou especificamente os Guias Rex de 1995 para identificar itinerários existentes naquela época.

Isso transforma o velho guia em algo muito maior do que um simples instrumento de localização.

Ele é, de certa forma, uma fotografia cartográfica do Rio de Janeiro.

O Guia Rex e a memória da cidade

Existem outras pistas de sua importância histórica.

A Biblioteca Nacional, por exemplo, preserva material publicitário de uma edição do Guia Rex da década de 1960 que anunciava uma “Planta Portátil do Estado da Guanabara”. A publicação informava nada menos que 404 páginas, 336 folhas de plantas e índices alfabéticos de 142 bairros e localidades e de logradouros públicos.

Décadas depois, pesquisadores ainda utilizavam exemplares antigos para localizar ruas e compreender a configuração urbana de diferentes períodos.

Até mesmo o trabalho de delimitação dos bairros utilizava informações relacionadas ao Guia Rex. Um estudo sobre o conceito de bairro registra que seus elaboradores recorriam ao conhecimento da cidade e, quando necessário, realizavam trabalho de campo para identificar a qual bairro determinada rua pertencia. O texto também registra que os Correios utilizavam o Guia Rex como uma das referências em seu trabalho de localização.

Ou seja, o guia não era apenas um produto comercial. Havia por trás dele um enorme trabalho de levantamento e atualização das informações da cidade.

Edições que hoje são documentos históricos

O passar dos anos transformou esses guias em peças interessantes para pesquisadores, colecionadores e apaixonados pela história urbana.

Existem referências a diferentes edições ao longo das décadas, como a Edição Carioca de 1980, citada inclusive em trabalhos acadêmicos, e exemplares de 1992, 1993, 1995 e 1997 encontrados em pesquisas sobre a cidade e sua rede de transportes.

Há, entretanto, uma pequena curiosidade bibliográfica envolvendo as datas. A Brasiliana Fotográfica menciona uma edição de 1993 como um dos últimos guias de ruas do Rio impressos em papel, enquanto outras fontes e trabalhos acadêmicos fazem referência expressamente ao Guia Rex 1995 e até ao Guia Rex 1997.

Isso sugere que a história editorial do Guia Rex merece uma pesquisa própria, especialmente para identificar exatamente quais foram suas últimas edições, suas diferentes versões e as eventuais diferenças entre elas.

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