Você consegue imaginar a paisagem do Rio de Janeiro sem a silhueta marcante do Pão de Açúcar? Para qualquer pessoa hoje, essa ideia parece absurda ou até um roteiro de ficção científica. No entanto, no final do século XIX, a eliminação desse gigante de granito foi seriamente discutida como uma solução urbanística e sanitária para a capital do Brasil.
Embora soe como uma lenda urbana, a proposta de demolição existiu e refletia a forma como a ciência e a engenharia da época encaravam a cidade.
A bizarra proposta para derrubar o Pão de Açúcar
Na década de 1880, o debate sobre o saneamento do Rio de Janeiro estava no auge. A cidade sofria com frequentes surtos de doenças graves, como a febre amarela, a varíola e a cólera. Naquela época, a medicina ainda era fortemente influenciada pela Teoria dos Miasmas, que defendia que as epidemias eram causadas e espalhadas pelo “ar parado” e pelos maus odores resultantes da matéria orgânica em decomposição.
Foi nesse cenário que um engenheiro propôs uma medida radical: demolir o Pão de Açúcar.
A justificativa sanitária era de que o maciço de granito funcionava como uma gigantesca barreira natural, impedindo a circulação dos ventos marítimos que deveriam “limpar” o ar da cidade. Para tornar o plano atraente aos cofres públicos, o projeto ainda previa uma compensação financeira: a enorme quantidade de pedras retiradas seria vendida como pedras de calçamento e material de construção para financiar a própria obra.
O projeto acabou sendo considerado inviável devido à sua dimensão astronômica e ao ridículo de sua execução, sendo abandonado antes de sair do papel. O Pão de Açúcar foi salvo, mas o conceito de “remover montanhas” em nome do progresso não parou por aí.
Do papel à realidade: O caso real do Morro do Castelo
Se a demolição do Pão de Açúcar não passou de um projeto absurdo, a destruição do Morro do Castelo provou que a engenharia da época tinha a capacidade e a determinação de apagar morros inteiros do mapa carioca.
Diferente do Pão de Açúcar, o Morro do Castelo não era apenas uma formação natural; era o berço histórico do Rio de Janeiro. Foi no seu topo que Estácio de Sá consolidou a transferência da cidade em 1567, e lá ficavam marcos como a antiga Igreja dos Jesuítas e as primeiras edificações oficiais da capital.
Mesmo assim, entre 1921 e 1922, durante a gestão do prefeito Carlos Sampaio, a montanha foi condenada. As razões alegadas eram semelhantes às usadas contra o Pão de Açúcar:
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Higiene: Dizia-se que o morro cortava a brisa do mar e abrigava cortiços considerados “insalubres”.
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Expansão Urbana: O centro do Rio precisava de espaço plano para crescer e se modernizar para a Exposição Internacional do Centenário da Independência.
O desmonte do Castelo foi uma operação avassaladora. Usando explosivos, escavadeiras e jatos d’água de alta pressão (desmonte hidráulico), a montanha foi literalmente reduzida a lama.
O impacto que dura até hoje
O material retirado do Morro do Castelo foi jogado na Baía de Guanabara, originando o aterro onde hoje se encontram a região do Castelo, a esplanada que abriga edifícios públicos e o Aeroporto Santos Dumont. A paisagem mudou para sempre, levando consigo parte inestimável da memória arquitetônica da cidade.
Uma reflexão sobre o patrimônio carioca
Olhar para essas duas histórias nos faz perceber o quanto as cidades são mutáveis e como as ideias de “progresso” de uma época podem parecer drásticas anos depois. O Pão de Açúcar escapou de virar paralelepípedo por uma margem muito pequena, enquanto o Morro do Castelo virou o chão sobre o qual aviões pousam diariamente.
Da próxima vez que você olhar para o Pão de Açúcar, lembre-se: por muito pouco, aquele cartão-postal não virou apenas mais um capítulo nos livros de história.
