Hoje, quem precisa viajar de avião saindo de Itajaí utiliza principalmente o aeroporto de Navegantes, localizado do outro lado do Rio Itajaí-Açu. Mas você sabia que, décadas atrás, a própria cidade de Itajaí possuía um aeroporto movimentado, recebia aeronaves de grandes companhias aéreas e fazia parte das rotas da aviação comercial brasileira?
Pode parecer difícil de imaginar, mas houve um tempo em que aviões da Varig, VASP, Cruzeiro do Sul e outras empresas pousavam em Itajaí. A cidade também presenciou a chegada de hidroaviões, a passagem de dirigíveis e até acidentes que marcaram a história da aviação catarinense.
O antigo Aeroporto Salgado Filho foi um importante ponto de ligação de Itajaí com outras cidades brasileiras. Sua história começou muito antes da construção do aeroporto de Navegantes e terminou oficialmente em 1970, quando as operações foram transferidas para o município vizinho.
Prepare-se para uma viagem ao passado, quando voar era uma experiência bem diferente da que conhecemos hoje!

Os primeiros passos da aviação em Itajaí
Muito antes de os aeroportos modernos se tornarem parte da rotina dos brasileiros, Itajaí já acompanhava os primeiros avanços da aviação. Nas primeiras décadas do século XX, a cidade viveu momentos que ajudaram a escrever um capítulo importante da história aeronáutica de Santa Catarina.
Naquela época, os dirigíveis despertavam a curiosidade da população, enquanto as águas do Rio Itajaí-Açu e as extensas faixas de areia da região serviam como locais de pouso para hidroaviões e pequenas aeronaves.
A ligação da cidade com a aviação também foi favorecida pela atuação de um personagem importante: Victor Konder, político itajaiense que se destacou nacionalmente e teve participação decisiva no desenvolvimento dos transportes brasileiros.
Em 1927, quando ocupava o cargo de ministro da Viação e Obras Públicas, Konder participou dos acontecimentos que marcaram a implantação de uma das primeiras ligações aéreas regulares do país, conectando o Rio de Janeiro a Florianópolis, com escala em Itajaí.
Mas a história da aviação na cidade havia começado alguns anos antes.
1921: o primeiro avião que chamou a atenção dos itajaienses
Em 30 de maio de 1921, os moradores da região tiveram a oportunidade de presenciar um acontecimento extraordinário para a época: um avião do modelo Breguet realizou um pouso forçado na faixa de areia da então Praia de Itajaí, área que corresponde à atual Praia de Navegantes.
A aeronave participava de um raid aéreo entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre, uma espécie de jornada de longa distância realizada para demonstrar as possibilidades da aviação.
O pouso, porém, não ocorreu como planejado. O avião sofreu graves avarias, e a solução encontrada foi transportá-lo de volta ao Rio de Janeiro a bordo do vapor Max.
Imagine a cena: em uma época em que os aviões ainda eram uma novidade, uma aeronave pousando de maneira inesperada em uma praia certamente despertava a atenção de quem estivesse por perto.
Esse episódio entrou para a memória local como um dos primeiros grandes acontecimentos da aviação na região.
1927: o hidroavião Atlântico chega ao Rio Itajaí-Açu
Seis anos depois, a relação de Itajaí com a aviação ganhou um novo capítulo.
Em 3 de janeiro de 1927, o hidroavião Atlântico utilizou as águas do Rio Itajaí-Açu como pista de pouso. A bordo estavam o governador de Santa Catarina, Adolfo Konder, e o ministro Victor Konder.
A chegada da aeronave foi um acontecimento importante para a cidade. O superintendente municipal Marcos Konder recebeu os visitantes, e autoridades e moradores se reuniram às margens do rio para acompanhar o momento.
Naquele período, os hidroaviões representavam uma alternativa para superar as dificuldades de transporte existentes no Brasil. Como podiam pousar e decolar na água, dispensavam a necessidade de aeroportos com pistas terrestres convencionais.
Posteriormente, foram estabelecidas operações regulares de transporte aéreo de passageiros e cargas utilizando hidroaviões, que permaneceram ativas por mais de uma década, segundo os registros históricos sobre o período.
O Rio Itajaí-Açu, tão importante para a navegação e para o desenvolvimento econômico da cidade, também se transformou em uma espécie de aeroporto natural.
O primeiro aeroporto terrestre de Itajaí
Com o avanço da aviação comercial e a utilização cada vez maior de aeronaves que precisavam de pistas terrestres, surgiu a necessidade de criar uma estrutura própria para recebê-las.
Na década de 1930, Itajaí implantou seu primeiro campo de pouso terrestre, localizado paralelamente à antiga Rua dos Atiradores, atual Rua Uruguai.
A estrutura era bastante simples quando comparada aos aeroportos de hoje. A pista era de terra batida e macadame, um tipo de pavimentação feito com pedras compactadas, e teria aproveitado uma antiga raia de corridas de cavalos pertencente ao superintendente municipal Samuel Heusi.
O campo de pouso funcionou até 1949, período em que a aviação ainda enfrentava limitações técnicas e operacionais consideráveis.
Mas por que Itajaí precisava tanto de um aeroporto?
A resposta está nas dificuldades de transporte daquela época.
Viajar por terra podia levar horas — e até mais de meio dia!
Hoje, uma viagem entre Itajaí e Florianópolis pode ser feita por rodovias pavimentadas. Nas primeiras décadas do século XX, entretanto, a realidade era completamente diferente.
A BR-101 ainda não existia, e muitas estradas da região eram de barro. Dependendo das condições climáticas e do estado dos caminhos, os veículos enfrentavam atoleiros e grandes dificuldades para prosseguir.
Uma viagem de Itajaí a Florianópolis podia levar até 12 horas, conforme os relatos históricos do período, desde que o veículo conseguisse completar o percurso.
O transporte marítimo também desempenhava um papel importante na circulação de pessoas e mercadorias.
Nesse cenário, o avião representava uma alternativa valiosa para encurtar distâncias e facilitar a comunicação entre centros urbanos. Ter um campo de pouso era, portanto, mais do que uma questão de modernidade: significava ampliar as possibilidades de deslocamento e desenvolvimento econômico.
1949: nasce o Aeroporto Ministro Salgado Filho
O crescimento econômico do Vale do Itajaí e a necessidade de uma infraestrutura aeronáutica mais adequada levaram à construção de um novo aeroporto municipal.
A iniciativa contou com a pressão de empresários e lideranças regionais, especialmente de Itajaí, Brusque e Blumenau, interessados em melhorar a ligação da região com os principais centros do país.
Inaugurado em 1949, o novo aeroporto ficava nas proximidades da Rua Blumenau, perto do Rio Itajaí-Açu.
O terminal recebeu inicialmente o nome de Aeroporto Ministro Salgado Filho, em homenagem a Joaquim Pedro Salgado Filho, senador gaúcho e ministro da Aeronáutica durante o governo de Getúlio Vargas.
Décadas depois, o mesmo nome se tornaria especialmente conhecido por identificar o aeroporto de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
O aeroporto de Itajaí contava com duas pistas cruzadas, de aproximadamente 850 e 950 metros. Inicialmente, elas eram de terra batida e macadame, recebendo posteriormente revestimento de paralelepípedos.
Em setembro de 1952, foi inaugurada a estação de passageiros, denominada Presidente Vargas. A cerimônia contou com a presença de Hercílio Deeke, então prefeito de Blumenau.
A cidade passava a contar com uma estrutura mais apropriada para acompanhar o crescimento do transporte aéreo.
Varig, VASP e outras companhias operavam voos em Itajaí
O Aeroporto Salgado Filho rapidamente assumiu importância regional.
Companhias como Varig, VASP, Cruzeiro do Sul, Real e Catarinense passaram a operar voos que ligavam Itajaí a outras cidades brasileiras.
Para os moradores e empresários do Vale do Itajaí, a presença dessas empresas representava uma oportunidade de viajar com mais rapidez, transportar cargas e estabelecer conexões comerciais com diferentes regiões do país.
É interessante lembrar que a aviação comercial daquela época funcionava de maneira muito diferente da atual.
Como era viajar de avião nos anos 1950 e 1960?
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Naquele tempo, a experiência de viajar de avião era mais simples em vários aspectos. Passageiros, visitantes e curiosos podiam circular perto das aeronaves e das pistas de maneira que hoje seria impensável em um aeroporto comercial.
Os voos também podiam envolver diversas escalas.
Uma viagem de Itajaí a Porto Alegre, por exemplo, poderia incluir paradas em Florianópolis, Tubarão e Caxias do Sul.
Assim, um percurso que hoje pode ser realizado em um voo direto ou por conexões mais eficientes transformava-se em uma verdadeira jornada pelos céus do Sul do Brasil.
Apesar das limitações, o avião oferecia uma vantagem considerável em uma época em que as estradas eram precárias e as viagens terrestres podiam ser demoradas e cansativas.
Presidentes, misses e personalidades passaram pelo aeroporto
Ao longo de sua história, o Aeroporto Salgado Filho recebeu visitantes ilustres e protagonizou momentos que ficaram registrados na memória da cidade.
Entre as personalidades que passaram pelo terminal estava o presidente Café Filho, que desembarcou em Itajaí em 1954.
Outro episódio lembrado aconteceu em 1969, quando a blumenauense Vera Fischer conquistou o título de Miss Brasil.
Na ocasião, ela foi recebida com aplausos e fogos de artifício no aeroporto, em uma demonstração da alegria e do orgulho regional pela conquista.
Essas recepções mostram que o aeroporto não era apenas um local de embarque e desembarque. Ele também funcionava como palco de acontecimentos públicos, encontros oficiais e celebrações.
Para a população, ver uma autoridade nacional, uma personalidade conhecida ou uma representante da beleza brasileira chegando de avião era um acontecimento especial.
Os acidentes que marcaram a história da aviação em Itajaí
Como ocorreu em muitos aeroportos da época, a história da aviação em Itajaí também foi marcada por acidentes e situações de emergência.
Entre os episódios registrados estão ocorrências que envolveram aeronaves de pequeno porte e aviões comerciais.
O acidente com o avião de acrobacias, em 1946
Em 24 de agosto de 1946, um avião de acrobacias caiu na região, provocando a morte do piloto Orlando da Silva Cunha e do itajaiense Fernando Vieira.
O episódio foi um dos acontecimentos trágicos ligados à aviação local e integra a memória histórica da cidade.
O pouso de emergência de um DC-3, em 1957
Em 10 de novembro de 1957, um DC-3 da Cruzeiro do Sul realizou um pouso de emergência no aeroporto.
Após tocar a pista, a aeronave ultrapassou a área prevista e acabou parando nas proximidades do Rio Itajaí-Açu.
O episódio evidenciou os riscos das operações aéreas em uma infraestrutura que possuía limitações de espaço.
O acidente de 1958
Em 19 de agosto de 1958, outro acidente grave envolveu um avião da Cruzeiro do Sul.
Durante a operação de pouso, a aeronave bateu a asa na pista e se partiu ao meio. O acidente deixou dois mortos e dez feridos, conforme os registros históricos citados sobre o episódio.
Esses acontecimentos precisam ser lembrados com respeito às vítimas e a seus familiares. Também ajudam a compreender as dificuldades enfrentadas pela aviação comercial durante uma fase em que as aeronaves, os procedimentos de segurança e a infraestrutura aeroportuária ainda estavam em desenvolvimento.
Por que o aeroporto de Itajaí precisou ser fechado?
Apesar de sua importância para a região, o Aeroporto Salgado Filho enfrentava um problema cada vez mais difícil de resolver: faltava espaço para acompanhar o crescimento da aviação.
As aeronaves evoluíam, exigindo pistas maiores e melhores condições para decolagens e pousos. Entretanto, o aeroporto estava cercado por áreas urbanizadas e possuía limitações para a ampliação de suas instalações.
Os relatos históricos mencionam situações em que aeronaves, durante a decolagem, chegavam a atingir cercas próximas às cabeceiras das pistas. O espaço disponível já não oferecia as condições desejáveis para a expansão das operações.
A solução seria construir um novo aeroporto em uma área mais adequada.
Por que Navegantes foi escolhida?
Na década de 1960, surgiu a proposta de transferir as operações aéreas para Navegantes, que naquele período ainda pertencia administrativamente a Itajaí.
A região apresentava vantagens importantes, como a disponibilidade de terrenos e menores custos de desapropriação em comparação com a área urbana do antigo aeroporto.
Outras localidades também chegaram a ser consideradas ou defenderam a instalação do aeroporto regional, entre elas Gaspar, Blumenau e Joinville.
A escolha de Navegantes representou uma mudança importante para o desenvolvimento da aviação no litoral norte catarinense.
O novo local oferecia melhores perspectivas para o crescimento futuro, enquanto a localização do aeroporto de Itajaí se tornava cada vez mais restritiva.
12 de março de 1970: o último dia do aeroporto de Itajaí
Chegamos ao capítulo final dessa história.
Em 12 de março de 1970, o Aeroporto Salgado Filho de Itajaí foi definitivamente desativado.
Naquela manhã, às 8 horas, um avião Avro da Varig decolou de Itajaí com destino a São Paulo. No retorno, às 14 horas, a aeronave já pousou no novo aeroporto de Navegantes.
A operação simbolizou a transferência definitiva dos voos comerciais para o outro lado do Rio Itajaí-Açu.
Era o encerramento de uma fase que havia começado décadas antes, quando as aeronaves ainda eram uma novidade e o próprio rio servia de pista para hidroaviões.
Curiosamente, mesmo após a mudança, o terminal de Navegantes continuou sendo conhecido como Aeroporto de Itajaí até 1978.
Isso demonstra como a antiga denominação permaneceu associada à identidade regional, mesmo depois da transferência das operações.
O que aconteceu com a área do antigo aeroporto?
Com o encerramento das atividades, a área que abrigava o Aeroporto Salgado Filho passou a ser ocupada pela CELESC, a Centrais Elétricas de Santa Catarina.
A antiga estrutura aeroportuária deixou de fazer parte da rotina da cidade, e as lembranças dos aviões, das partidas e chegadas e das personalidades recebidas no local foram ficando restritas aos registros históricos e às memórias de quem viveu aquele período.
Atualmente, Itajaí não possui aeroporto comercial próprio.
A cidade é atendida principalmente pelo Aeroporto Internacional de Navegantes – Ministro Victor Konder, localizado a poucos quilômetros do centro de Itajaí, do outro lado do rio.
Outras alternativas para quem viaja pela região incluem o Aeroporto de Joinville e o Aeroporto Internacional de Florianópolis.
Assim, embora o aeroporto tenha desaparecido da paisagem urbana de Itajaí, a aviação continua desempenhando um papel importante na mobilidade de seus moradores e visitantes.
Uma história que merece ser lembrada
A trajetória da aviação em Itajaí é muito mais rica do que muita gente imagina.
A cidade acompanhou os primeiros tempos dos aviões, recebeu hidroaviões nas águas do Rio Itajaí-Açu, improvisou campos de pouso, construiu um aeroporto municipal e integrou rotas de importantes companhias aéreas brasileiras.
Durante décadas, o Aeroporto Salgado Filho foi uma ligação estratégica entre Itajaí e outras cidades, em um período no qual viajar por terra podia ser uma tarefa demorada e difícil.
Seu fechamento, em 1970, não apagou a importância dessa história. Pelo contrário: ajuda a compreender como as transformações tecnológicas, as necessidades econômicas e o crescimento urbano modificaram a paisagem e a vida das cidades catarinenses.
Hoje, o aeroporto de Navegantes dá continuidade a essa função regional, mas conhecer o antigo terminal de Itajaí permite descobrir uma época em que a cidade também tinha seu próprio lugar no mapa da aviação comercial.
E você, sabia que Itajaí já teve um aeroporto por onde passaram aviões da Varig, da VASP e de outras companhias?
Se você viveu naquela época, conhece alguém que trabalhou no antigo aeroporto ou possui fotografias, documentos e histórias sobre suas operações, compartilhe sua lembrança nos comentários!
Ajude a preservar essa parte da história de Santa Catarina. Compartilhe este artigo com amigos e familiares que também gostam de conhecer o passado das nossas cidades.