Passeio Público: o jardim que guarda mais de dois séculos da história do Rio de Janeiro

Em meio ao movimento do centro do Rio de Janeiro, entre a Lapa, a Cinelândia e a Glória, existe um lugar que muitas vezes passa despercebido por quem atravessa a região. Cercado pela paisagem urbana e pela movimentação da cidade, o Passeio Público guarda, porém, uma história que se confunde com a própria transformação do Rio de Janeiro.

Hoje, para muitos cariocas e visitantes, pode parecer apenas um jardim antigo no centro da cidade. Mas basta conhecer um pouco de sua história para perceber que estamos diante de um dos espaços mais importantes da história urbana brasileira.

Inaugurado em 1783, o Passeio Público é considerado o primeiro parque ajardinado do Brasil e o primeiro parque público das Américas. Sua criação aconteceu durante o vice-reinado de Luís de Vasconcelos e Sousa, que determinou a urbanização da área conhecida como Boqueirão da Ajuda, onde existia uma lagoa próxima ao mar. O projeto foi confiado a Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim, um dos grandes artistas do período colonial brasileiro.

O portão principal do Passeio Público, com a efígie de D. Maria I e D. Pedro III, reis de Portugal.
O portão principal do Passeio Público, com a efígie de D. Maria I e D. Pedro III, reis de Portugal. Por Halley Pacheco de Oliveira – Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, Hiperligação

Do manguezal e da lagoa a um jardim público

Antes de se transformar em jardim, a região era bastante diferente da paisagem que conhecemos atualmente. O Passeio Público foi criado sobre o aterro da antiga lagoa do Boqueirão da Ajuda.

Vista Aérea do Passeio Público – Rio de Janeiro. Data da imagem: 19/12/1939. Foto do acervo de Brasiliana Fotográfica

A intenção não era simplesmente criar um espaço verde. O jardim fazia parte de uma transformação urbana que pretendia embelezar aquela área da cidade e proporcionar à população um lugar destinado ao passeio e à contemplação.

O projeto de Mestre Valentim seguia princípios do paisagismo de sua época, com caminhos cuidadosamente planejados, elementos ornamentais, fontes e uma perspectiva que, originalmente, se estendia até a Baía de Guanabara.

O visitante que entrava pelo portão principal encontrava um percurso marcado por dois grandes obeliscos de granito. O caminho conduzia até a Fonte dos Amores, um dos elementos mais famosos do projeto original, onde dois jacarés de bronze faziam parte da composição ornamental.

Mestre Valentim e as obras que ainda podem ser vistas

Mesmo depois de inúmeras transformações, o Passeio Público ainda conserva importantes elementos associados ao projeto de Mestre Valentim.

Entre eles estão o famoso Chafariz do Menino, os dois obeliscos e o conjunto da Fonte dos Amores, incluindo os célebres jacarés de bronze.

Chafariz dos Jacarés (Fonte dos Amores), no Passeio Público. Por Karollingstone – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, Hiperligação

O portão monumental também é uma das peças históricas mais importantes do conjunto.

Esses elementos são particularmente interessantes porque permitem ao visitante encontrar, no meio da paisagem atual, vestígios concretos de um Rio de Janeiro que existia há mais de dois séculos. O conjunto formado pelo chafariz dos jacarés, obeliscos e portão de Mestre Valentim foi tombado pelo IPHAN em 30 de junho de 1938.

O Passeio Público que existiu no passado

Uma das coisas mais interessantes ao pesquisar fotografias antigas do Passeio Público é perceber que o jardim de hoje não é exatamente aquele que os cariocas conheceram em seus primeiros tempos.

Passeio Público. Foto de Marc Ferrez do ano de 1890 (aproximadamente). Coleção Gilberto Ferrez. Foto do acervo de Brasiliana Fotográfica e Instituto Moreira Salles.

Ao longo do século XIX, o parque passou por mudanças importantes. A mais significativa aconteceu a partir de 1861, quando o paisagista francês Auguste François Marie Glaziou, por determinação de D. Pedro II, recebeu a missão de reformar o jardim.

Glaziou modificou profundamente o traçado original de Mestre Valentim, adotando uma concepção paisagística de inspiração romântica, com caminhos sinuosos, áreas ajardinadas e uma aparência mais próxima dos jardins europeus do século XIX. A reforma foi inaugurada em 7 de setembro de 1862, durante as comemorações do aniversário da Independência do Brasil.

É por isso que fotografias antigas do Passeio Público podem causar certa surpresa. Dependendo da época retratada, o mesmo lugar pode apresentar uma aparência bastante diferente.

Um jardim com vista para o mar

É difícil imaginar hoje, cercado por ruas, edifícios e pelo intenso movimento do centro, mas o Passeio Público já esteve diretamente relacionado à paisagem da Baía de Guanabara.

Na concepção original, o jardim chegava até a beira-mar. A Fonte dos Amores encontrava-se em uma área elevada, de onde se podia contemplar a baía.

O contraste é enorme quando comparamos mapas, gravuras e fotografias antigas com a paisagem atual. A cidade cresceu, a linha costeira foi modificada e o espaço urbano ao redor sofreu profundas transformações.

O Passeio Público, entretanto, permaneceu como uma espécie de testemunha silenciosa dessas mudanças.

O aquário que chamou a atenção dos cariocas

Outra curiosidade pouco conhecida é que o Passeio Público já abrigou um aquário de água salgada, inaugurado em 18 de setembro de 1904, durante as reformas e melhoramentos realizados na administração do prefeito Francisco Pereira Passos.

Aquário do Passeio Público. Foto de Augusto Malta aproximadamente do ano de 1908. Coleção Gilberto Ferrez. Foto do acervo de Brasiliana Fotográfica e Instituto Moreira Salles

Segundo registros históricos reunidos pela Brasiliana Fotográfica, tratava-se do primeiro aquário de água salgada da América do Sul.

Imagine o impacto que uma atração desse tipo poderia causar no Rio de Janeiro do início do século XX. Em uma época muito anterior aos modernos aquários e centros de entretenimento que conhecemos hoje, observar animais marinhos em um espaço público certamente era uma experiência especial para os visitantes.

Trecho do jardim do Passeio Público, à esquerda, o Aquário de água salgada. Foto de Augusto Malta de 25/09/1906. Coleção Pedro Corrêa do Lago. Foto do acervo de Brasiliana Fotográfica e Instituto Moreira Salles

Um lugar de encontros, passeios e memórias

Durante muito tempo, o Passeio Público foi um importante espaço de convivência da população carioca.

Pessoas caminhavam pelos jardins, encontravam amigos, apreciavam a paisagem e utilizavam o local como uma espécie de refúgio em meio à cidade.

A própria ideia de um jardim público era relativamente inovadora quando o Passeio foi criado. Não se tratava de uma área exclusiva de uma residência real ou de uma propriedade particular: era um espaço pensado para ser utilizado pela população.

Com o passar das décadas, entretanto, a cidade mudou. Novos parques, praças e áreas de lazer surgiram, enquanto o centro do Rio também passou por profundas transformações.

Hoje, embora continue sendo um patrimônio histórico e cultural de enorme importância, o Passeio Público talvez não ocupe no imaginário cotidiano dos cariocas o mesmo lugar que ocupou em outras épocas.

E é justamente aí que suas fotografias antigas se tornam tão interessantes.

Um passeio pelas fotografias do passado

Observar fotografias antigas do Passeio Público é como abrir uma janela para diferentes momentos da história do Rio.

Podemos encontrar imagens de jardins cuidadosamente tratados, caminhos movimentados, visitantes elegantemente vestidos, monumentos, fontes e paisagens que parecem pertencer a uma cidade completamente diferente.

Mas os detalhes revelam que é o mesmo lugar.

Uma árvore, um portão, um obelisco ou uma fonte podem funcionar como pontos de ligação entre diferentes gerações de cariocas.

As fotografias também ajudam a compreender algo que os livros de história nem sempre conseguem transmitir: a cidade é uma construção permanente.

O que hoje parece antigo um dia foi moderno. O que hoje está cercado por prédios já teve a Baía de Guanabara como horizonte. E lugares que atualmente podem parecer esquecidos já foram importantes pontos de encontro e passeio.

Um patrimônio que merece ser lembrado

O Passeio Público é também um daqueles lugares que mostram como a história do Rio de Janeiro não está apenas nos grandes monumentos ou nos cartões-postais mais conhecidos.

Ela também está nos jardins, nas fontes, nos caminhos e nos pequenos detalhes que sobreviveram às transformações urbanas.

O próprio IPHAN reconhece a importância histórica do local, que integra seu patrimônio tombado desde 1938. Além disso, pesquisas arqueológicas realizadas no Rio de Janeiro também já contemplaram a área do Passeio Público.

Talvez seja justamente essa a maior riqueza do Passeio Público: ele não conta apenas uma história. Ele conta várias histórias ao mesmo tempo.

A história de Mestre Valentim.
A história do vice-reinado.
A história do paisagismo brasileiro.
A história do Império.
A história das reformas urbanas do Rio.
A história dos antigos passeios e encontros dos cariocas.
E também a história das próprias transformações da cidade.

Um pedaço do Rio que merece ser redescoberto

Quem passa pela região da Lapa talvez esteja acostumado a olhar para os Arcos, para a Cinelândia, para os bares e para a movimentação das ruas. No entanto, a poucos passos desse cenário existe um jardim que nasceu há mais de 240 anos.

Talvez o Passeio Público não tenha hoje a mesma popularidade de outros pontos turísticos do Rio. Mas isso torna ainda mais interessante redescobri-lo.

Porque alguns lugares não precisam ser grandiosos ou movimentados para serem importantes.

Às vezes, basta parar por alguns minutos, observar um antigo chafariz, os obeliscos, o portão histórico e imaginar quantas gerações passaram por aqueles caminhos.

O Passeio Público é, nesse sentido, muito mais do que um jardim.

É uma página viva da história do Rio de Janeiro — uma página que continua ali, esperando para ser lida por quem tiver curiosidade de olhar com mais atenção.

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