Quem viveu no Rio de Janeiro nos anos 1980 com certeza se lembra de uma das figuras mais ilustres, irreverentes e, por que não, “politizadas” da cidade: o Macaco Tião.

Longe de ser apenas mais um animal no Zoológico do Rio (atual BioParque), Tião se tornou um verdadeiro ícone da cultura carioca, misturando o puro suco do deboche carioca com uma das maiores sátiras políticas da história do Brasil.
O Morador Ilustre da Quinta da Boa Vista
Nascido em 1963, o chimpanzé Tião era conhecido por sua personalidade fortíssima. Com mais de 1,50 metros de altura e pesando cerca de 70 quilos, ele não era exatamente o tipo de macaco que ficava fazendo gracinhas para agradar a multidão. Pelo contrário: Tião tinha um temperamento “ranzinza” que o público adorava provocar.
Seu comportamento no zoológico era lendário. Ele era famoso por sua mira impecável ao arremessar contra os visitantes — e contra autoridades que tentavam posar para fotos perto de sua jaula — tudo o que estivesse ao seu alcance: lama, pedaços de grama, frutas amassadas e, sim, seus próprios dejetos. Quanto mais importantes eram as pessoas na comitiva, mais Tião parecia se esforçar no arremesso. Esse jeito rebelde e “anti-sistema” acabou criando uma identificação imediata com a população.
Tião para Prefeito: O Auge do Deboche Carioca
O ápice da fama de Tião aconteceu em 1988. O Brasil vivia os primeiros anos da Redemocratização, e o cenário político para a prefeitura do Rio de Janeiro estava repleto de candidatos que não inspiravam a menor confiança na população.
Percebendo o descontentamento geral, a equipe da famosa revista de humor Casseta Popular (que mais tarde daria origem ao grupo Casseta & Planeta) lançou uma campanha satírica genial: Macaco Tião para Prefeito.
Com o slogan “Vote em Tião, para não votar em nenhum ladrão”, a brincadeira viralizou de uma forma sem precedentes. Como na época o voto ainda era impresso e em cédula de papel, os eleitores precisavam escrever o nome do seu candidato de próprio punho.
O Resultado Histórico: O Macaco Tião recebeu cerca de 400 mil votos, alcançando a impressionante marca de 3º candidato mais votado naquela eleição.
Obviamente, os votos foram considerados nulos pelo Tribunal Regional Eleitoral, mas o recado da população foi dado. Tião entrou para o Guinness Book (Livro dos Recordes) como o chimpanzé a receber mais votos no mundo.
O Legado de um Ícone
Apesar da fama de “protestador”, Tião era muito bem cuidado e amado pelos funcionários do zoológico. Ele adorava tomar refrigerante direto da garrafa e tinha uma rotina que, tirando os dias de fúria contra os vidros de sua jaula, era bastante tranquila.
O macaco Tião faleceu em 23 de dezembro de 1996, aos 33 anos, devido a complicações de diabetes. A cidade do Rio de Janeiro decretou luto oficial de três dias e as bandeiras do zoológico foram hasteadas a meio mastro — uma honraria raramente concedida a um animal, mas totalmente justa para o maior símbolo do espírito irreverente carioca.
Hoje, uma estátua de bronze em tamanho real de Tião decora o zoológico do Rio, garantindo que as futuras gerações conheçam a história do chimpanzé que, sem dizer uma única palavra, conseguiu protestar melhor do que qualquer ser humano.