Você já reparou naquela pequena garrafinha escura, envolvida em um papel cor de palha, que costuma aparecer depois de uma refeição em restaurantes alemães e estabelecimentos especializados em bebidas?
Seu nome é Underberg, um bitter de origem alemã que atravessou gerações sem abandonar sua apresentação característica. Com apenas 20 ml, sabor intensamente amargo e uma receita mantida em segredo, ele conquistou admiradores em diferentes partes do mundo.
Mas o que existe por trás dessa embalagem tão peculiar? Como uma bebida criada em 1846 conseguiu transformar uma dose minúscula em uma marca reconhecida internacionalmente?
A resposta envolve tradição familiar, ervas aromáticas, estratégias comerciais e uma história que também tem um capítulo brasileiro.
A origem do Underberg: tudo começou em 1846
A história começa em Rheinberg, na Alemanha, onde Hubert Underberg fundou sua empresa em 17 de junho de 1846. Na mesma data, ele se casou com Catharina Albrecht, com quem iniciou uma trajetória empresarial que atravessaria séculos.
Seu objetivo era produzir um bitter herbal de qualidade constante, inspirado na tradição europeia de bebidas amargas elaboradas com plantas aromáticas.
A bebida recebeu o nome de Underberg, em referência à família responsável por sua criação. O produto original ficou conhecido como Underberg-Boonekamp of Maagbitter, denominação ligada à tradição dos bitters digestivos.
O crescimento da marca não demorou a acontecer. Durante a segunda metade do século XIX, a empresa participou de exposições industriais e internacionais, recebendo distinções que ajudaram a divulgar sua criação.
Mais do que vender uma bebida, a família Underberg construiu uma identidade associada à qualidade, à tradição e à continuidade de seu método de fabricação.
O significado de Semper Idem
A expressão latina Semper Idem significa “sempre o mesmo”.
Esse lema traduz a proposta central da marca: preservar características e padrões de produção ao longo do tempo, mesmo diante das mudanças de mercado, das gerações e dos hábitos de consumo.
A fórmula e os métodos de fabricação são mantidos em segredo pela família, que continua ligada à empresa. O processo envolve a extração de componentes aromáticos de plantas e uma etapa de maturação em barris de carvalho esloveno.
É justamente essa combinação de tradição e segredo que ajuda a explicar por que o Underberg desperta tanta curiosidade.
Por que o Underberg vem em uma garrafinha de apenas 20 ml?
Essa é, provavelmente, a característica mais reconhecível da bebida.
Enquanto muitos destilados são comercializados em garrafas de centenas de mililitros, o Underberg é conhecido por sua apresentação individual de apenas 20 ml.
O formato permite servir uma dose pequena e padronizada, sem precisar abrir uma garrafa maior e armazenar o restante.
A embalagem também reforça a identidade visual da marca. A garrafinha escura, o rótulo verde e o papel cor de palha formam um conjunto imediatamente reconhecível para quem já conhece a bebida.
O papel que envolve o frasco é conhecido internacionalmente como straw paper. Além de contribuir para a apresentação característica, ele faz parte da proteção e do acondicionamento do produto.
A pequena embalagem tornou-se tão associada ao Underberg que, para muitos consumidores, ela é tão marcante quanto o próprio sabor.
Uma curiosidade de marketing: a empresa conseguiu transformar uma característica funcional — a dose individual — em um dos elementos mais fortes de sua identidade comercial.
Em vez de esconder o tamanho reduzido, fez dele uma marca registrada.
O que existe dentro dessa pequena garrafa?
Apesar da aparência discreta, o Underberg possui um perfil bastante intenso.
A bebida apresenta 44% de teor alcoólico e é produzida com extratos de ervas aromáticas provenientes de 43 países, segundo informações divulgadas pela própria marca.
A receita completa permanece confidencial. Portanto, não é possível apresentar uma lista pública e definitiva de todos os ingredientes botânicos utilizados.
O processo de produção, conhecido como Semper Idem, busca preservar as características aromáticas da mistura. Depois da extração, a bebida passa por um período de maturação em barris de carvalho esloveno, contribuindo para o desenvolvimento de seu perfil sensorial.
Outro detalhe interessante é que o produto não recebe adição de açúcar, de acordo com a descrição oficial da empresa. Isso o diferencia de muitos licores de ervas mais doces.
O resultado é uma bebida de sabor marcante, com notas herbais e amargor pronunciado.
Afinal, o que é um bitter?
A palavra bitter é utilizada para designar bebidas caracterizadas pelo amargor, frequentemente obtido por meio de extratos vegetais e ervas aromáticas.
Existem diferentes estilos de bitters no mundo. Alguns são empregados principalmente na preparação de coquetéis; outros, como o Underberg, são tradicionalmente apresentados como digestivos, consumidos em pequenas doses após as refeições.
Embora compartilhem características, essas bebidas não são todas iguais. Podem variar bastante na composição, na concentração alcoólica, na doçura e na maneira de consumo.
O Underberg realmente ajuda na digestão?
É aqui que a tradição encontra uma questão importante: o que se acredita sobre a bebida não deve ser confundido com o que está cientificamente comprovado.
O Underberg é tradicionalmente consumido depois de refeições fartas, especialmente em contextos gastronômicos europeus. Essa prática está relacionada à longa história dos bitters herbais, utilizados popularmente como digestivos.
O sabor amargo de determinadas plantas pode estimular respostas fisiológicas relacionadas à salivação e às secreções digestivas. Entretanto, isso não significa que toda bebida amarga produza necessariamente alívio da sensação de estômago cheio.
Não há evidência clínica robusta específica que permita afirmar que o Underberg trata problemas digestivos ou acelera o metabolismo. Seu uso tradicional não substitui a avaliação médica nem transforma a bebida em medicamento.
Também é importante lembrar que os 44% de álcool não são um detalhe insignificante. O consumo de bebidas alcoólicas pode irritar o trato digestivo e agravar sintomas em algumas pessoas.
Por isso, o Underberg deve ser compreendido principalmente como uma bebida alcoólica de tradição herbal, e não como um remédio para desconfortos estomacais.
O Underberg também tem uma história brasileira
Aqui está uma curiosidade especialmente interessante para os leitores brasileiros: a trajetória da família Underberg também se cruzou com a história do Brasil.
Segundo o histórico divulgado pela operação brasileira da marca, Paul Underberg, neto do fundador, chegou ao Rio de Janeiro em 1932, depois de viajar pelo mundo a bordo do dirigível Graf Zeppelin.
Paul acabou permanecendo no Brasil e iniciou uma nova etapa da história empresarial da família.
Durante a Segunda Guerra Mundial, as dificuldades de abastecimento de ingredientes provenientes da Alemanha levaram a adaptações na produção brasileira. A empresa passou a utilizar ervas aromáticas locais, incluindo ingredientes da Amazônia, dando origem a uma bebida que posteriormente ficou conhecida como Brasilberg.
Diferentemente do Underberg alemão tradicional, comercializado na conhecida garrafinha individual, o Brasilberg foi desenvolvido como um bitter brasileiro, com identidade própria.
Essa história mostra como uma tradição empresarial europeia encontrou espaço para se adaptar às condições e aos ingredientes de outro país.
E há um detalhe que merece atenção: o Rio de Janeiro não aparece nessa narrativa apenas como destino turístico. A cidade fez parte de uma etapa importante da expansão e da transformação da história da marca.
Da tradição à coquetelaria moderna
Embora o Underberg seja tradicionalmente associado ao consumo após as refeições, seu sabor intenso também desperta o interesse de bartenders.
Em pequenas quantidades, bitters podem acrescentar profundidade aromática e complexidade a determinadas receitas de coquetéis.
O amargor e as notas herbais do Underberg permitem explorar combinações com ingredientes cítricos, bebidas gaseificadas e outros componentes utilizados na coquetelaria.
Nesse contexto, a bebida deixa de ser apenas uma dose servida ao final da refeição e passa a funcionar como um ingrediente de personalidade marcante.
Naturalmente, sua concentração alcoólica exige cuidado na elaboração das receitas. O objetivo é equilibrar os sabores, sem deixar que o amargor domine todos os outros elementos.
Uma tradição que atravessa gerações
Quase dois séculos depois de sua criação, o Underberg continua associado a uma combinação singular: receita secreta, identidade visual reconhecível e uma embalagem que foge do padrão das bebidas convencionais.
A história começou em Rheinberg, em 1846, mas ganhou dimensões internacionais e chegou também ao Brasil, onde a trajetória da família inspirou novos produtos e adaptações.
Talvez o aspecto mais curioso seja justamente este: uma garrafinha de apenas 20 ml conseguiu carregar quase dois séculos de história, tradição familiar e estratégia de marca.
No universo das bebidas, nem sempre o tamanho determina a importância. Às vezes, são os detalhes — uma embalagem, um sabor ou uma história bem preservada — que fazem um produto permanecer na memória.
Fontes e links adicionais
-
História oficial da marca: Underberg America — History. Apresenta a trajetória da empresa e sua tradição familiar.
-
A história brasileira do Underberg: Underberg do Brasil — Um pouco de nossa história. É especialmente interessante para explorar a chegada de Paul Underberg ao Rio de Janeiro e o desenvolvimento do Brasilberg.
-
O que a ciência diz sobre bitters digestivos: Cleveland Clinic — What to Know Before You Try Digestive Bitters. Ajuda a contextualizar os possíveis efeitos dos bitters e suas limitações, sem confundir tradição com comprovação médica.
E você, já conhecia o Underberg? Já experimentou essa bebida alemã ou conhecia a história do Brasilberg, desenvolvido no Brasil?
Deixe seu comentário e compartilhe esta matéria com quem gosta de curiosidades históricas, gastronomia e tradições alemãs. Afinal, sempre existe uma história interessante por trás dos objetos e produtos que encontramos no cotidiano!
