Café: uma bebida que atravessa histórias, culturas e gerações

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Poucas bebidas fazem parte da vida do brasileiro de maneira tão intensa quanto o café. Ele está presente logo pela manhã, depois do almoço, durante uma pausa no trabalho, numa conversa com amigos ou simplesmente naquele momento em que bate a vontade de tomar “só um cafezinho”.

E não importa muito a estação do ano. Pode estar fazendo um calor de 40 graus ou aquele friozinho típico de uma manhã de inverno: quase sempre haverá alguém dizendo que “um café vai bem agora”.

No Brasil, o café deixou de ser apenas uma bebida. Tornou-se hábito, ritual, companhia e até uma forma de receber as pessoas. Afinal, uma das primeiras coisas que costumamos oferecer a uma visita é justamente um café.

Da África para o mundo

A história do café começa muito longe do Brasil.

A planta é originária da região da África Oriental, especialmente da atual Etiópia. Uma antiga lenda conta que um pastor de cabras chamado Kaldi teria percebido que seus animais ficavam mais agitados depois de comer os frutos vermelhos de determinada planta. Curioso, teria levado os frutos a monges, que perceberam seus efeitos estimulantes.

A história de Kaldi provavelmente pertence mais ao território das lendas do que dos fatos comprovados, mas ajuda a explicar como nasceu uma das narrativas mais conhecidas sobre a origem do café.

O cultivo e o consumo da bebida ganharam importância no mundo árabe a partir do século XV, especialmente no Iêmen. De lá, o café começou a se espalhar pelo Oriente Médio e posteriormente chegou à Europa.

No século XVII, a bebida já começava a conquistar os europeus. Cafeterias surgiram em cidades como Londres, Paris e Viena, transformando-se em pontos de encontro onde as pessoas conversavam, negociavam, discutiam política e literatura e simplesmente passavam o tempo.

Assim, o café ganhou uma característica que mantém até hoje: a capacidade de aproximar pessoas.

E quando o café chegou ao Brasil?

O café chegou ao Brasil no século XVIII. A versão tradicional da história aponta o ano de 1727, quando o sargento-mor Francisco de Melo Palheta teria trazido sementes da Guiana Francesa para o Pará.

A partir daí, a cultura cafeeira começou a se espalhar pelo território brasileiro. As condições de clima, solo e relevo favoreceram enormemente a expansão das plantações.

No século XIX, o café encontrou terreno especialmente favorável no Sudeste, principalmente no Vale do Paraíba, entre Rio de Janeiro e São Paulo. Posteriormente, a produção ganhou enorme importância em São Paulo e Minas Gerais.

O café transformou a economia brasileira.

Estradas e ferrovias foram abertas para transportar a produção, portos ganharam importância, cidades cresceram e grandes fortunas foram construídas a partir dos cafezais. O porto de Santos tornou-se uma das principais portas de saída do café brasileiro para o mundo.

Em meados do século XIX, o Brasil já havia se tornado o maior produtor mundial, posição que mantém até os dias atuais.

A própria história de São Paulo está profundamente ligada ao café. A riqueza gerada pela atividade ajudou a financiar bancos, ferrovias, comércio e posteriormente a industrialização.

Ou seja, quando tomamos uma xícara de café no Brasil, estamos também saboreando um pouco da história econômica do país.

O Brasil e a paixão pelo café

Hoje, o Brasil continua sendo o maior produtor e exportador de café do mundo e também está entre os maiores mercados consumidores da bebida. A produção brasileira envolve principalmente as espécies Coffea arabica, conhecida como café arábica, e Coffea canephora, que inclui as variedades conhecidas como conilon e robusta.

E o interessante é que não existe apenas “um café brasileiro”.

As diferentes regiões produtoras apresentam condições de altitude, clima, solo e métodos de cultivo diferentes, produzindo cafés com características distintas de aroma, acidez, corpo e sabor. O país possui inclusive diversas regiões com indicações geográficas relacionadas ao café.

A produção também continua enorme. Para a safra de 2026, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou inicialmente uma produção de aproximadamente 66,2 milhões de sacas de café beneficiado.

Coado, expresso, curto, longo… afinal, que café você quer?

Talvez uma das coisas mais interessantes sobre o café seja a quantidade de maneiras de prepará-lo.

No Brasil, o tradicional café coado continua sendo um dos métodos mais populares. Pode ser preparado no filtro de papel, no tradicional coador de pano ou em equipamentos mais modernos.

Já o café expresso é preparado pela passagem de água quente sob pressão pelo café moído. Ele costuma ser servido em pequena quantidade e concentra bastante aroma e sabor.

E aqui começa uma verdadeira coleção de nomes.

Há o café curto, o café longo, o carioca, o pingado, o café com leite, o cappuccino e tantas outras variações. Dependendo da região, um mesmo nome pode significar coisas ligeiramente diferentes.

Também existe a liberdade de personalizar a bebida.

Tem quem prefira café puro. Outros não abrem mão do açúcar. Há quem use adoçante, leite, canela, creme ou até manteiga. E existem aqueles que defendem que qualquer coisa adicionada ao café “estraga a bebida”.

No fim das contas, cada um tem seu jeito.

O café também muda de país para país

Viajar pelo mundo também significa descobrir que nem todo mundo toma café da mesma maneira.

Em alguns lugares, o café é consumido principalmente quente e em pequenas quantidades. Em outros, bebidas geladas à base de café fazem parte da cultura cotidiana.

Na Itália, o espresso ocupa um lugar especial e é normalmente consumido em pequenas doses. Em Portugal, pedir simplesmente “um café” geralmente significa receber uma pequena xícara de café espresso.

E aí aparece uma palavra curiosa: bica.

Em Lisboa e outras regiões de Portugal, “bica” é uma maneira tradicional de chamar o café espresso. Existe uma famosa história segundo a qual a palavra seria formada pelas iniciais de “Beba Isto Com Açúcar”, supostamente usada como slogan para incentivar o consumo do café espresso.

Histórica A Brazileira, inaugurada em 1905 no Chiado, Lisboa

Mas há um detalhe interessante: essa explicação não é considerada uma origem comprovada. Outra hipótese é simplesmente que “bica” venha da própria saída da máquina por onde o café é servido. Fontes linguísticas portuguesas consideram a origem da palavra obscura ou discutida.

No Porto, há ainda o curioso termo cimbalino, associado às máquinas da marca italiana La Cimbali.

Ou seja, até mesmo pedir um café pode revelar um pouco da história e da cultura de um lugar.

Café também pode ser sobremesa

O café não precisa necessariamente ser servido sozinho.

Em diferentes partes do mundo encontramos combinações que transformaram a bebida em verdadeiras sobremesas.

Há cafés com leite, chocolate, chantilly, sorvete, especiarias e diferentes tipos de cremes. O café gelado também ganhou inúmeras versões, desde uma simples bebida com gelo até preparações mais elaboradas.

No Brasil, o tradicional café com leite do café da manhã é praticamente uma instituição.

E existe ainda o famoso “cafezinho depois do almoço”, que muitas vezes não passa de alguns goles, mas que parece completar a refeição.

Afinal, café é tudo igual?

Definitivamente não.

Existem diferentes espécies, variedades, regiões produtoras, altitudes, métodos de colheita, processos de secagem e torra.

O processo de torra também modifica profundamente o resultado final. Cafés com diferentes graus de torra podem apresentar características bastante distintas.

Além disso, o café que chamamos de “grão” não é exatamente um grão no sentido botânico. Ele é a semente do fruto do cafeeiro, conhecido como cereja do café.

Cada fruto normalmente contém duas sementes. Depois da colheita, elas passam por processos de beneficiamento, secagem e torra até finalmente chegarem à nossa xícara.

É uma longa viagem para aquilo que, no balcão da padaria, parece simplesmente um pequeno cafezinho.

Do cafezinho barato ao café de luxo

O preço de um café pode variar enormemente.

Existem cafés produzidos em grande escala e vendidos por preços bastante acessíveis, enquanto determinados cafés especiais podem alcançar valores muito elevados.

Um dos exemplos mais famosos é o Kopi Luwak, produzido principalmente na Indonésia.

Seu processo é bastante incomum: a civeta, um pequeno mamífero asiático, ingere os frutos do café e as sementes são posteriormente recolhidas de suas fezes, higienizadas e processadas.

A passagem pelo sistema digestivo do animal modifica algumas características dos grãos, produzindo um café considerado raro e exótico.

Mas existe um lado menos glamoroso nessa história.

Kopi Luwak e a Civeta

A popularização do Kopi Luwak levou à criação de civetas em cativeiro para aumentar a produção. Pesquisas e reportagens documentaram problemas sérios de bem-estar animal em algumas dessas instalações, incluindo gaiolas pequenas, alimentação inadequada e condições insalubres. Por isso, a procedência do produto é uma questão importante para quem pretende experimentar esse tipo de café.

Assim, nem sempre o café mais caro é necessariamente o melhor — e certamente preço e qualidade não são a mesma coisa.

Uma pausa para o café

Talvez seja justamente essa capacidade de se adaptar que explique a permanência do café entre nós.

Ele pode ser simples ou sofisticado. Quente ou gelado. Forte ou suave. Puro ou acompanhado de leite, açúcar, chocolate ou especiarias.

Pode ser tomado rapidamente no balcão de uma padaria ou lentamente numa cafeteria. Pode acompanhar uma reunião de negócios, uma conversa entre amigos ou alguns minutos de silêncio pela manhã.

No Brasil, ele está tão incorporado ao cotidiano que até ganhou um espaço próprio na nossa linguagem: café da manhã.

E talvez essa seja uma das maiores curiosidades sobre o café.

A planta nasceu na África, ganhou força no mundo árabe, conquistou a Europa, atravessou oceanos e encontrou no Brasil um dos seus maiores territórios de produção.

Depois de toda essa viagem, acabou chegando à nossa mesa.

E, convenhamos, existe coisa melhor do que começar o dia sentindo aquele aroma de café recém-passado tomando conta da casa?

Pode ser uma xícara pequena, um copo grande, um expresso, um coado ou simplesmente aquele velho e conhecido “cafezinho”.

Café é assim: pequeno na xícara, mas enorme na história.

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