
O Guaraná Jesus é muito mais do que um refrigerante. Para muitos maranhenses, ele é patrimônio histórico, cultural e afetivo do Maranhão. Com sua inconfundível cor rosa, sabor marcante e adocicado e uma embalagem que preserva elementos de sua identidade histórica, a bebida se tornou um dos símbolos mais conhecidos de São Luís e do estado.
Mas a história por trás desse refrigerante é tão curiosa quanto o seu nome.
Quem visita o Maranhão dificilmente passa despercebido por uma garrafa ou lata de Guaraná Jesus. E basta conhecer a origem da bebida para descobrir que seu nome guarda uma história bastante diferente daquela que muita gente imagina.
O Guaraná Jesus nasceu em uma farmácia
A história começa com o farmacêutico Jesus Norberto Gomes, nascido em Vitória do Mearim, no Maranhão, em 1891. Ainda adolescente, mudou-se para São Luís, onde começou a trabalhar em uma farmácia e aprendeu o ofício de manipular medicamentos.
Aos 20 anos, já havia adquirido sua própria farmácia e passou a desenvolver diferentes produtos, entre medicamentos, xaropes e bebidas. Foi nesse ambiente que surgiram também suas experiências com águas gasosas e refrigerantes.
Em 1927, Jesus Norberto Gomes chegou à fórmula que daria origem ao famoso Kola Guaraná Jesus. A primeira versão, porém, não agradou ao público: tinha um sabor levemente amargo.
O farmacêutico não desistiu. Continuou fazendo experiências e aperfeiçoando a receita até chegar a uma fórmula que conquistou primeiro seus próprios familiares e, posteriormente, os consumidores maranhenses. A bebida ganhou fama e passou a fazer parte da cultura local.
E por que o nome “Jesus”?
É justamente aqui que começa uma das maiores curiosidades da história.
Apesar de o nome imediatamente remeter a Jesus Cristo, o refrigerante não recebeu esse nome por causa da religião. Jesus era o primeiro nome de seu próprio criador: Jesus Norberto Gomes.
Aliás, o farmacêutico tinha o hábito de utilizar seu nome em outros produtos que desenvolvia. Entre eles estavam o Antigripal Jesus, o Xarope Peitoral Jesus e a Jesulina, uma pasta dentifrícia.
Por isso, o nome do refrigerante é, na verdade, uma homenagem ao próprio inventor.
O criador era ateu?
Essa é outra característica que ajudou a transformar a história do Guaraná Jesus em uma coleção de curiosidades.
Jesus Norberto Gomes é descrito em diversas fontes como ateu e também associado a posições políticas de esquerda. Essa característica, somada ao fato de ter colocado o próprio nome em um refrigerante, acabou alimentando histórias e lendas em torno de sua figura.
Existe, inclusive, a famosa história de que ele teria sido excomungado pela Igreja Católica após um conflito com um padre.
Entretanto, essa parte da história deve ser vista com cautela. O episódio aparece em relatos e na tradição oral relacionada ao personagem, mas a associação direta entre uma eventual excomunhão e a criação do refrigerante não está solidamente documentada. Assim, acabou se incorporando ao folclore que envolve a história do Guaraná Jesus.
E talvez seja justamente essa mistura de fatos, relatos e lendas que torna a trajetória de seu criador ainda mais curiosa.
Por que o Guaraná Jesus é rosa?
A cor é provavelmente a característica mais marcante da bebida.
Diferentemente dos tradicionais refrigerantes de guaraná, geralmente de tonalidade escura, o Guaraná Jesus chama atenção pelo seu rosa vibrante.
A cor se tornou tão associada à marca que passou a fazer parte de sua própria identidade visual. O sabor também é bastante particular, com notas que remetem a especiarias como cravo e canela.
O resultado é uma bebida difícil de confundir com qualquer outra.
Uma assinatura que virou logotipo
Outro detalhe interessante está no próprio nome estampado nas embalagens.
O logotipo “Jesus” reproduz a assinatura de Jesus Norberto Gomes, transformando uma característica pessoal do farmacêutico em um dos elementos mais reconhecíveis da marca.
É um daqueles detalhes que podem passar despercebidos para quem não conhece a história, mas que ganham outro significado quando se descobre sua origem.
Da fábrica da família à Coca-Cola
Durante décadas, o Guaraná Jesus permaneceu ligado à família de seu criador.
A família manteve uma fábrica própria até o início da década de 1960. Posteriormente, a marca passou por outras mãos até chegar à Companhia Maranhense de Refrigerantes, em 1980.
Em 2001, veio uma nova e importante mudança: o Guaraná Jesus foi adquirido pela Coca-Cola Brasil e passou a fazer parte de seu portfólio.
Apesar da mudança de proprietário, a identidade tradicional da bebida foi preservada. A fórmula, o sabor característico, a cor e diversos elementos visuais continuaram associados à história construída no Maranhão.
A embalagem escolhida pelos consumidores
Uma das mudanças mais interessantes aconteceu em 2008, quando foram apresentadas três propostas para a nova identidade visual das embalagens.
A escolha foi submetida a uma votação popular, permitindo que os próprios consumidores participassem da definição do novo visual.
O modelo vencedor trouxe referências aos tradicionais azulejos coloniais portugueses de São Luís, combinando tons de rosa e azul que passaram a marcar ainda mais a identidade da bebida.
A nova embalagem acabou recebendo reconhecimento no Prêmio Internacional de Excelência em Design (IDEA), com medalha de ouro na categoria de Melhor Estratégia de Marketing.
Um refrigerante que virou símbolo do Maranhão
Com o passar das décadas, o Guaraná Jesus deixou de ser apenas uma bebida produzida em São Luís.
Sua cor, seu sabor, seu nome inusitado e a história de seu criador fizeram com que ele se transformasse em um verdadeiro símbolo da identidade maranhense. A própria Coca-Cola atualmente o apresenta como patrimônio histórico e cultural do Maranhão.
Hoje, o refrigerante pode ser encontrado também fora do Maranhão, mas é no estado onde nasceu que sua relação afetiva permanece mais forte.
Para quem é de lá, pode trazer lembranças de infância, festas, reuniões familiares e celebrações. Para quem visita o Maranhão, experimentar o Guaraná Jesus acaba sendo quase um pequeno ritual de viagem.
No fim das contas, a história dessa bebida é tão curiosa quanto seu nome: um refrigerante criado por um farmacêutico chamado Jesus Norberto Gomes, conhecido por suas posições ateias, que começou como uma experiência em uma farmácia e acabou se transformando em um dos maiores símbolos culturais do Maranhão.
Quase um século depois, o nome de Jesus continua estampado nas embalagens — não por causa de uma figura religiosa, mas por causa do homem que colocou seu próprio nome em uma fórmula que conquistaria gerações de maranhenses.