Ruth Cardoso: muito além de uma primeira-dama, uma mulher que deixou sua marca no Brasil

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Por Arquivo ABr – Agência Brasil [1], CC BY 3.0 br, Hiperligação

Em 19 de setembro de 1930, nascia em Araraquara, no interior de São Paulo, Ruth Corrêa Leite Cardoso, uma mulher que décadas mais tarde ocuparia um lugar de destaque na vida pública brasileira. Antropóloga, professora, pesquisadora, intelectual e primeira-dama do Brasil, Ruth Cardoso construiu uma trajetória que ultrapassou — e muito — o papel tradicionalmente atribuído às mulheres de presidentes da República.

Hoje, na data em que completaria anos, recordar Ruth Cardoso é lembrar uma mulher cuja história esteve profundamente ligada ao conhecimento, à pesquisa, à democracia, à cidadania e às questões sociais brasileiras.

Ruth formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), onde também desenvolveu grande parte de sua carreira acadêmica e obteve o doutorado em Antropologia. Foi professora e pesquisadora, estudando temas como imigração, movimentos sociais, juventude, cidadania, violência e transformações da sociedade brasileira. Sua atuação acadêmica também a levou a instituições no Chile, França, Estados Unidos e outros centros de pesquisa.

Sua vida também esteve ligada à de Fernando Henrique Cardoso desde os tempos de universidade. Os dois se conheceram ainda na USP e se casaram em 1953. Anos depois, atravessariam juntos um período difícil da história brasileira, vivendo no exílio após o golpe militar de 1964. Mesmo longe do país, Ruth continuou sua trajetória intelectual e acadêmica.

Quando Fernando Henrique Cardoso chegou à Presidência da República, em 1995, Ruth tornou-se primeira-dama. Mas talvez o mais importante de sua passagem pelo Palácio do Planalto tenha sido justamente a maneira como ela procurou não se limitar ao papel convencional de esposa do presidente.

Ruth não era uma figura decorativa.

Intelectual de personalidade própria, fazia questão de preservar sua autonomia e sua identidade. Preferia ser reconhecida pelo seu trabalho e por suas ideias, e não simplesmente pelo título de primeira-dama.

Foi nesse período que surgiu um dos capítulos mais importantes de sua trajetória pública: o Comunidade Solidária.

Criado em 1995, o programa buscava enfrentar a pobreza e a exclusão social por meio da articulação entre governo, municípios, estados e sociedade civil. A proposta procurava estimular parcerias e fortalecer iniciativas existentes nas próprias comunidades, em vez de simplesmente concentrar as ações no Estado. Ruth presidiu o Conselho da Comunidade Solidária e teve participação importante na formulação de sua abordagem social.

Sua atuação representou uma maneira diferente de enxergar as políticas sociais: aproximar o poder público das comunidades, valorizar iniciativas da sociedade civil e buscar soluções que levassem em consideração as realidades locais.

Foi também uma mulher à frente de seu tempo no campo acadêmico. Ainda na década de 1970, Ruth Cardoso estudou e deu visibilidade a novos movimentos sociais, incluindo aqueles relacionados às questões de gênero, étnico-raciais e de orientação sexual. Seu trabalho ajudou a ampliar a compreensão sobre as transformações que aconteciam na sociedade brasileira.

Por isso, reduzir sua história à expressão “ex-primeira-dama” seria contar apenas uma pequena parte de sua vida.

Antes de estar ao lado de um presidente, Ruth já era uma intelectual respeitada. Durante os anos em que esteve no Palácio do Planalto, continuou sendo uma mulher de pensamento próprio. E, depois de deixar Brasília, permaneceu envolvida com projetos e iniciativas voltados para o desenvolvimento social e para o fortalecimento da sociedade civil. Para dar continuidade a iniciativas do Comunidade Solidária, participou da criação da Comunitas, organização com a qual permaneceu ligada até o fim da vida.

Ruth Cardoso faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 2008, aos 77 anos. Sua morte encerrou uma trajetória de intensa atuação acadêmica e social, mas não apagou o legado construído ao longo de décadas. A própria USP, instituição à qual dedicou grande parte de sua vida acadêmica, destacou sua contribuição para o estudo da sociedade brasileira e para a compreensão dos novos movimentos sociais.

Passados tantos anos, sua história continua sendo lembrada.

Ruth Cardoso mostrou que ocupar uma posição pública não significa necessariamente abrir mão da própria identidade. Mostrou que uma primeira-dama poderia ser, antes de tudo, uma pesquisadora, uma intelectual e uma cidadã com ideias próprias. E mostrou também que o conhecimento acadêmico pode sair das universidades e contribuir para a construção de iniciativas voltadas aos problemas concretos da sociedade.

Neste 19 de setembro, quando lembramos o dia de seu nascimento, fica a memória de uma mulher que foi muito além do título que recebeu.

Ruth Cardoso foi uma mulher da ciência, da universidade, da cultura, da cidadania e da ação social.

Uma mulher que fez da própria trajetória uma ponte entre o conhecimento e a sociedade.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores marcas de seu legado: ter demonstrado que uma vida pública pode ser construída não apenas pela posição que se ocupa, mas principalmente pelas ideias que se defende, pelo trabalho que se realiza e pelas pessoas que se procura alcançar.

Ruth Cardoso nasceu em 19 de setembro de 1930.

Hoje, mais do que lembrar uma primeira-dama, é dia de lembrar Ruth Cardoso, a mulher, a antropóloga, a professora, a pesquisadora e a cidadã que deixou sua marca na história do Brasil.

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