O partido que nunca existiu, mas tinha candidatos, campanha e até camisetas

PGN - Partido da Genitália Nacional

Quem acompanha histórias curiosas da política brasileira provavelmente já ouviu falar de candidatos inusitados que, mesmo sem qualquer possibilidade real de chegar ao poder, acabaram entrando para a história. Um exemplo famoso no Rio de Janeiro foi Macaco Tião, o chimpanzé do zoológico carioca que, em 1988, tornou-se símbolo de um protesto bem-humorado contra os candidatos tradicionais.

Mas a criatividade brasileira não parou por aí. Anos depois, surgiu uma legenda que provavelmente teria sérias dificuldades para ser registrada pela Justiça Eleitoral — e justamente por isso fez tanto sucesso entre os amantes do humor: o PGN – Partido da Genitália Nacional.

O partido, obviamente, nunca existiu oficialmente. Foi uma criação humorística do jornalista e colunista José Simão, que transformou a política brasileira em matéria-prima para suas famosas sátiras. A brincadeira ganhou ainda mais repercussão durante sua participação na BandNews FM, onde dividia momentos de humor com o jornalista Ricardo Boechat.

E o curioso é que, dentro da brincadeira, o PGN ganhou praticamente tudo aquilo que um partido de verdade teria: presidente, candidatos, propostas, slogans, campanhas eleitorais e até… camisetas!

Um partido criado para “concorrer” nas eleições

José Simão assumiu o papel de presidente do fictício Partido da Genitália Nacional, enquanto Ricardo Boechat aparecia como uma espécie de vice-presidente da legenda. A dupla aproveitava o noticiário político e eleitoral para inventar candidatos, nomes, propostas e situações absurdas.

Durante o período eleitoral, o PGN passou a fazer parte recorrente das piadas de Simão. Em 2010, por exemplo, ele chegou a se apresentar, em tom de brincadeira, como candidato à Presidência da República pelo partido. Entre as suas “propostas” estavam medidas completamente absurdas, seguindo o estilo irreverente característico de suas colunas.

A ideia era justamente brincar com a linguagem e os costumes das campanhas eleitorais. Em vez de um programa de governo sério, o PGN tinha como combustível a irreverência, os trocadilhos e a observação bem-humorada dos acontecimentos políticos.

E o partido começou a ganhar “eleitores”

O mais curioso é que a brincadeira ultrapassou os microfones da rádio e as páginas dos jornais.

O PGN ganhou tamanha popularidade entre os ouvintes que passou a ter até camisetas próprias, transformando a legenda fictícia em uma espécie de símbolo da brincadeira.

Segundo o relato sobre a parceria entre Boechat e Simão publicado posteriormente, às vésperas das eleições de 2014, Boechat mandou confeccionar centenas de camisetas com a inscrição PGN e seu logotipo. As peças fizeram sucesso entre os ouvintes, que queriam conseguir uma.

A história ficou ainda mais curiosa quando, no sábado anterior à eleição, Boechat resolveu sair pessoalmente para distribuir as camisetas que haviam restado. Ele foi até o Parque Ibirapuera, em São Paulo, onde entregou as últimas peças aos interessados. Na brincadeira, naturalmente, aqueles que recebiam a camiseta passavam a integrar o “eleitorado” do PGN.

O resultado não mudou o resultado das eleições — afinal, o partido sequer existia —, mas certamente conseguiu conquistar alguns “eleitores” muito mais interessados em humor do que em propaganda eleitoral.

Candidatos para todos os gostos

Como toda boa legenda satírica, o PGN também precisava de candidatos.

E foi justamente aí que José Simão encontrou uma fonte praticamente inesgotável de material para suas piadas: os nomes curiosos e inusitados encontrados entre candidatos reais espalhados pelo Brasil.

Em 2008, por exemplo, o UOL registrou a brincadeira com a chamada “bancada do PGN”, relacionando personagens e candidatos de nomes ou características curiosas à fictícia legenda de Simão.

Nas colunas de Simão, candidatos reais acabavam sendo incorporados à “estrutura” imaginária do partido, sempre acompanhados de trocadilhos e comentários irreverentes.

O PGN também ganhou supostas sedes. Em junho de 2008, o jornal Bem Paraná chegou a publicar uma nota, evidentemente dentro do espírito da brincadeira, informando que o partido teria ganhado uma “sede” em Curitiba, anunciada por Ricardo Boechat durante sua participação na BandNews.

Um partido que tinha até PEC

A criatividade da dupla não conhecia limites.

Em outra ocasião, o PGN ganhou até uma “PEC”, a famosa PEC 69, apresentada por José Simão dentro de uma de suas brincadeiras com a política nacional.

Assim, o partido fictício ia incorporando elementos do universo político brasileiro: candidatos, eleições, slogans, propostas, campanha, camisetas, sede e até projetos de emenda constitucional.

Tudo, evidentemente, fazia parte da sátira.

O PGN e Ricardo Boechat

A participação de Ricardo Boechat ajudou a dar uma dimensão especial à brincadeira.

A parceria entre Boechat e José Simão na rádio ficou conhecida pelo improviso, pelos trocadilhos e pela capacidade dos dois de transformar acontecimentos do cotidiano em momentos de humor.

O PGN acabou se tornando um dos quadros mais lembrados dessa parceria, especialmente em períodos eleitorais. Uma homenagem publicada após a morte de Boechat relata que o jornalista se divertia com a brincadeira e chegou a usar a camiseta do PGN na redação.

A mesma lembrança mostra como o partido fictício acabou ultrapassando os limites de uma simples piada de rádio. Para quem acompanhava a dupla, o PGN tornou-se uma espécie de “legenda oficial da esculhambação”, sempre pronta para receber novos candidatos e novas propostas absurdas.

Um partido que nunca pediu voto de verdade

O curioso na história do Partido da Genitália Nacional é justamente o fato de que ele conseguiu reunir muitos dos elementos de uma campanha política sem jamais ter sido um partido político de verdade.

Não havia urna, número eleitoral oficial, programa partidário registrado ou candidatos disputando eleições pelo PGN.

Havia, porém, muita criatividade, trocadilhos, sátira e, para surpresa de todos, até uma considerável coleção de camisetas.

Em 2013, quando o UOL apresentou o blog de José Simão, ele próprio era apresentado como o “presidente do Partido da Genitália Nacional”, mostrando como a brincadeira já havia se incorporado à identidade humorística do colunista.

E talvez essa seja a parte mais curiosa da história: um partido que nunca existiu oficialmente acabou ficando conhecido por muita gente justamente por aquilo que os partidos reais mais desejam conquistar — simpatizantes.

Da mesma família do Macaco Tião

Assim como aconteceu com o Macaco Tião, o PGN pertence àquela curiosa tradição brasileira em que o humor se mistura à política para produzir personagens e situações que acabam se tornando parte da memória popular.

Mas existe uma diferença interessante.

Macaco Tião foi um personagem real — um chimpanzé que acabou transformado em símbolo de uma brincadeira eleitoral. Já o PGN nasceu diretamente da imaginação de um humorista e ganhou vida através do rádio, dos jornais e da interação com o público.

Um era um macaco colocado, simbolicamente, no meio de uma eleição. O outro era um partido que nunca poderia aparecer na urna.

Ambos, porém, deixaram uma lembrança curiosa de uma época em que o humor político brasileiro encontrava maneiras bastante criativas de satirizar o universo eleitoral.

E se alguém ainda guardar uma daquelas antigas camisetas do PGN – Partido da Genitália Nacional, talvez tenha em mãos uma pequena lembrança material de uma das brincadeiras mais irreverentes produzidas pela parceria entre José Simão e Ricardo Boechat.

Afinal, partido político pode até acabar. Mas, nesse caso, a camiseta ficou.

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