Quando caminhamos pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, encontramos inúmeras fontes, esculturas, igrejas e monumentos que parecem fazer parte da paisagem desde sempre. Muitos deles, porém, têm histórias que remontam ao período colonial e estão ligados ao trabalho de artistas que ajudaram a transformar a antiga cidade em uma das mais importantes do Brasil.
Entre esses nomes está Mestre Valentim, um dos mais importantes artistas que atuaram no Rio de Janeiro durante o século XVIII.
Escultor, entalhador, desenhista e também responsável por importantes obras de caráter urbanístico, Valentim deixou sua marca em diferentes pontos da cidade. Algumas de suas obras desapareceram com o passar do tempo; outras foram transferidas de lugar; e algumas continuam entre nós, permitindo que ainda hoje possamos contemplar um pouco da arte produzida no Rio de Janeiro de mais de dois séculos atrás.
Quem foi Mestre Valentim?
Valentim da Fonseca e Silva, conhecido como Mestre Valentim, nasceu em Minas Gerais, provavelmente por volta de 1744, na região do Serro do Frio.
Era filho de Manuel da Fonseca e Silva, português, e de Amatilde da Fonseca, mulher escravizada. Sua origem e sua trajetória são particularmente interessantes porque Mestre Valentim conseguiu alcançar uma posição de destaque em uma sociedade colonial profundamente marcada pela escravidão e pelas hierarquias sociais.
Segundo registros da Biblioteca Nacional, Valentim chegou ao Rio de Janeiro entre 1765 e 1766, estabelecendo posteriormente sua própria oficina. Sua formação artística não é completamente esclarecida: há referências antigas a uma possível passagem por Portugal, mas essa hipótese não é considerada plenamente comprovada. Há também evidências que apontam para sua formação no ambiente artístico de Minas Gerais e posteriormente no Rio de Janeiro.
No Rio, sua carreira ganhou força justamente em um momento de grandes transformações urbanas.
A cidade havia se tornado capital do Vice-Reino do Brasil em 1763 e passava por um processo de crescimento e modernização. Era nesse cenário que Mestre Valentim encontraria espaço para desenvolver uma produção artística que unia escultura, talha, trabalhos em metal e projetos para espaços públicos.
Um artista além das igrejas
Quando se fala em arte colonial brasileira, muitas vezes pensamos imediatamente nas igrejas e nos trabalhos de talha dourada.
Mestre Valentim também atuou nesse universo.
Produziu esculturas e trabalhos de talha para diferentes igrejas do Rio de Janeiro, deixando exemplos importantes de sua arte religiosa.
Mas sua atuação foi além dos templos.
Ele também participou da criação de fontes, chafarizes e espaços públicos, contribuindo para a própria organização urbana da cidade.
Foi durante o governo do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, entre 1779 e 1790, que Mestre Valentim recebeu algumas de suas encomendas mais importantes. A Biblioteca Nacional destaca justamente sua participação em obras urbanísticas desse período.
E é aqui que sua história começa a se encontrar diretamente com a do Passeio Público.
Mestre Valentim e o Passeio Público
Quando o vice-rei Luís de Vasconcelos decidiu transformar a área do antigo Boqueirão da Ajuda em um jardim público, o trabalho foi confiado a Mestre Valentim.
Nascia o Passeio Público, inaugurado em 1783.
O projeto de Valentim criou um espaço que estava muito além de um simples jardim. Havia uma concepção artística e paisagística cuidadosamente elaborada, com caminhos, fontes, esculturas e elementos arquitetônicos.
O jardim possuía uma relação muito mais próxima com a Baía de Guanabara do que podemos imaginar atualmente.
Um dos caminhos conduzia aos famosos obeliscos e terminava na chamada Fonte dos Amores, onde estavam os conhecidos jacarés de bronze. Dali, por meio de uma escadaria, chegava-se a um terraço que se projetava sobre as águas da baía.
O conjunto do Passeio Público, especialmente seus jacarés, obeliscos e portão, seria posteriormente reconhecido como patrimônio histórico e artístico nacional. O tombamento pelo IPHAN ocorreu em 1938.
É difícil olhar atualmente para o Passeio Público e imaginar essa paisagem.
Mas, há mais de dois séculos, quem percorresse aqueles jardins poderia terminar o passeio diante da Baía de Guanabara.
O famoso Chafariz do Mestre Valentim
Outra obra que ajudou a marcar a presença de Valentim na paisagem carioca é o Chafariz da Praça XV, conhecido popularmente como Chafariz do Mestre Valentim ou Chafariz da Pirâmide.

Localizado atualmente na Praça XV de Novembro, o chafariz foi executado no final do século XVIII e tornou-se um dos símbolos da antiga cidade colonial.
Sua aparência é bastante característica: uma estrutura monumental em pedra, encimada por uma pirâmide, que se destaca em meio à paisagem urbana.
A obra está relacionada às transformações realizadas na região do antigo Largo do Carmo e à necessidade de abastecimento de água da cidade.
O chafariz foi posteriormente incorporado ao patrimônio histórico nacional. O IPHAN registra seu tombamento em 30 de junho de 1938.
Hoje, quando alguém fotografa aquela estrutura na Praça XV, talvez não imagine que está diante de uma obra ligada diretamente à história do abastecimento de água e da urbanização do Rio colonial.
E muito menos que ela tem mais de dois séculos de existência.
O Chafariz das Marrecas
Mestre Valentim também foi responsável pelo Chafariz das Marrecas, localizado próximo ao Passeio Público.
O chafariz possuía um conjunto escultórico elaborado, com as figuras de Narciso e da ninfa Eco, além das marrecas que deram nome à obra.
O caminho que ligava o chafariz ao Passeio Público era conhecido como Rua das Belas Noites, nome que fazia referência à experiência agradável proporcionada pelo local ao cair da noite.
O Chafariz das Marrecas, infelizmente, não chegou aos nossos dias. Foi demolido no final do século XIX, quando a região passou por novas transformações urbanas.
As esculturas de Narciso e Eco, entretanto, sobreviveram e atualmente fazem parte do acervo do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
É um belo exemplo de como uma obra pode desaparecer de seu lugar original e, ainda assim, deixar fragmentos de sua história espalhados pela cidade.
O Chafariz das Saracuras
Outra obra importante de Mestre Valentim que ainda pode ser vista no Rio é o Chafariz das Saracuras.

A peça foi realizada em 1795 para o antigo Convento de Nossa Senhora da Conceição da Ajuda, localizado na região onde atualmente está a Cinelândia.
Seu projeto apresenta uma composição bastante original, com elementos escultóricos de bronze, incluindo as famosas saracuras e tartarugas.
Quando o convento foi demolido, no início do século XX, o chafariz foi retirado do local. Posteriormente, foi instalado na Praça General Osório, em Ipanema, onde permanece.
A Prefeitura do Rio registra que a transferência para a praça ocorreu em 1917 e que a obra é tombada pelo IPHAN desde 1938.
Assim como acontece com outras obras de Valentim, sua localização atual é diferente daquela para a qual foi originalmente criada.
Um artista que trabalhava com diferentes materiais
Uma das características mais interessantes de Mestre Valentim é a diversidade de sua produção.
Ele trabalhou com madeira, pedra e bronze, entre outros materiais, criando desde trabalhos de talha para igrejas até esculturas e estruturas destinadas aos espaços públicos.
As obras em bronze são especialmente importantes porque representam uma produção artística de grande complexidade para o período.
No Passeio Público, por exemplo, os jacarés da Fonte dos Amores são parte fundamental da identidade do projeto original.
Já os elementos escultóricos do Chafariz das Saracuras mostram sua habilidade na criação de peças que combinavam função prática, ornamentação e expressão artística.
Mestre Valentim e uma cidade em transformação
Talvez uma das melhores maneiras de compreender a importância de Mestre Valentim seja perceber que ele não trabalhou simplesmente para uma cidade pronta.
Ele participou de um período em que o Rio de Janeiro estava se transformando.
Fontes e chafarizes eram necessários para o abastecimento de água. Espaços públicos eram remodelados. Igrejas recebiam novos elementos decorativos. A cidade crescia e ganhava importância política e econômica.
Nesse cenário, Mestre Valentim participou da construção visual e artística desse novo Rio.
Ele ajudou a criar aquilo que hoje chamamos de patrimônio histórico.
O fim da vida e seu legado
Mestre Valentim morreu em 1º de março de 1813.
Foi sepultado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, no centro do Rio de Janeiro. O próprio IPHAN registra que seus restos mortais permanecem associados àquele templo.
Curiosamente, apesar da importância que alcançou em vida, seu patrimônio pessoal não parece ter sido grande. Segundo a documentação reunida pela Biblioteca Nacional, seu inventário registrava uma casa, instrumentos de trabalho, móveis, livros, medalhas e outros objetos, além de um escravizado idoso que havia sido alforriado.
Seu maior patrimônio, contudo, não estava em seus bens materiais.
Estava espalhado pela cidade.
O Mestre Valentim que ainda vive no Rio
Mais de duzentos anos depois de sua morte, ainda podemos encontrar Mestre Valentim caminhando simbolicamente pelas ruas do Rio de Janeiro.
Ele está na Praça XV.
Está no Passeio Público.
Está nas fontes e chafarizes.
Está nas esculturas preservadas em instituições e jardins.
Está nas igrejas onde deixou trabalhos de talha e imagens.
E está, principalmente, na própria memória da cidade.
Talvez essa seja uma das coisas mais fascinantes da história: uma pessoa pode desaparecer, mas aquilo que ela criou pode continuar falando por ela durante séculos.
Quando observamos hoje o Chafariz do Mestre Valentim na Praça XV, não estamos apenas diante de uma antiga fonte.
Estamos diante de um fragmento do Rio de Janeiro do século XVIII.
E quando caminhamos pelo Passeio Público e encontramos os elementos que sobreviveram do projeto original, estamos diante de outra parte desse mesmo legado.
Por isso, conhecer Mestre Valentim é também aprender a olhar o Rio de Janeiro de outra maneira.
Por trás de uma fonte antiga, de uma escultura, de um portão ou de um jardim histórico, existe uma história.
E, no caso de Mestre Valentim, essa história ajudou a moldar a própria paisagem da cidade.

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