
Quem cresceu na cidade do Rio de Janeiro provavelmente guarda na memória algumas cenas muito particulares do dia 27 de setembro: o som das solas dos chinelos batendo no asfalto, a correria pelas ruas, os gritos entusiasmados ao avistar um portão se abrindo e, principalmente, a contagem cuidadosa dos saquinhos de doces acumulados ao longo do dia.
Para muita gente, o dia 27 de setembro não é apenas uma data no calendário. É uma lembrança de infância, de vizinhança, de fé e de convivência. Uma tradição que, durante décadas, mobilizou bairros inteiros e fez crianças saírem de casa em busca dos famosos saquinhos de Cosme e Damião.
Mas de onde vem essa tradição? E por que a distribuição de doces se tornou uma manifestação tão marcante da cultura popular carioca?
Origem e sincretismo religioso: o encontro de tradições
A devoção a São Cosme e São Damião no Brasil reúne diferentes tradições religiosas e culturais. A celebração católica dos santos encontrou, ao longo da história brasileira, manifestações de religiões de matriz africana, especialmente em torno dos Ibejis, criando formas de devoção popular que fazem parte da diversidade religiosa e cultural do país.
É importante, porém, lembrar que não se trata simplesmente de considerar Ibejis e São Cosme e São Damião como a mesma figura religiosa. São tradições distintas, que, no contexto brasileiro, estabeleceram relações de aproximação e associação.
Quem foram Cosme e Damião?
Segundo a tradição cristã, Cosme e Damião eram irmãos gêmeos e médicos que viveram por volta do século III. Ficaram conhecidos por exercer a medicina sem cobrar pelos atendimentos, razão pela qual são associados à ideia de caridade e são tradicionalmente venerados como padroeiros de médicos e farmacêuticos.
Cristãos, acabaram perseguidos e martirizados por sua fé. Ao longo dos séculos, sua devoção se espalhou por diferentes regiões e chegou também ao Brasil, onde ganhou características próprias.
Ibejis, Erês e a tradição dos doces
Nas religiões de matriz africana, os Ibejis são orixás gêmeos associados à infância, à alegria e à vitalidade. Já os Erês possuem significado próprio dentro dessas tradições e estão relacionados às manifestações infantis no contexto religioso.
Durante o período colonial e posteriormente, diferentes tradições religiosas passaram a conviver e se relacionar no Brasil. Nesse contexto surgiu o chamado sincretismo religioso, com associações entre santos católicos e divindades ou entidades cultuadas nas religiões de matriz africana.
A relação entre Cosme e Damião e os Ibejis ajudou a consolidar uma festa profundamente ligada à infância, às guloseimas e à distribuição de presentes. Os doces passaram, assim, a fazer parte de uma tradição que também envolve agradecimentos, promessas e manifestações de fé.
O jeito carioca de celebrar
Embora a tradição exista em diferentes partes do Brasil, o Rio de Janeiro desenvolveu uma maneira muito característica de vivenciá-la.
E essa tradição não é recente. Registros publicados na imprensa carioca mostram que, já no início do século XX, o dia 27 de setembro era marcado na cidade pela distribuição de doces e brinquedos às crianças. Havia casas que preparavam pratos com guloseimas para os pequenos, além de promessas e agradecimentos por graças alcançadas.
Com o passar das décadas, a festa ganhou uma dimensão popular que ultrapassou os limites dos templos e das casas religiosas.
A preparação
Dias antes, começava a movimentação. Famílias que mantinham a tradição ou pretendiam pagar uma promessa saíam em busca dos doces que iriam compor os saquinhos.
Balas, pirulitos, paçocas, suspiros, maria-mole, doces de abóbora, pipocas doces e tantos outros produtos acabavam comprados em grande quantidade.
Era época de sacos, caixas e fardos de guloseimas. Para quem era criança, porém, aquela movimentação tinha um objetivo muito mais simples: conseguir o maior número possível de saquinhos.
A corrida pelos doces
Logo pela manhã do dia 27, crianças começavam a circular pelas ruas acompanhadas de irmãos, amigos, pais ou outros familiares.
Sacolas plásticas, mochilas e até pequenas bolsas serviam para carregar o tesouro do dia.
Bastava alguém anunciar que havia distribuição de doces em determinada casa para começar a correria.
Em alguns bairros, a movimentação era intensa. Crianças passavam de uma rua para outra, procurando os lugares onde sabiam que haveria distribuição.
E quando o portão se abria, começava a festa.
Promessas e agradecimentos
Por trás da brincadeira e da alegria das crianças existe também um aspecto profundamente religioso.
Muitas famílias distribuem doces em cumprimento a promessas ou como forma de agradecimento por uma graça alcançada. A tradição pode envolver pedidos relacionados à saúde, à proteção dos filhos ou simplesmente uma demonstração de fé e gratidão.
Não é, portanto, apenas uma questão de distribuir guloseimas. Para muitas pessoas, aquele saquinho representa uma promessa cumprida e uma tradição familiar transmitida de geração em geração.
Há registros de manifestações semelhantes em outras partes do Brasil, mostrando que a distribuição de doces pode assumir diferentes formas de acordo com a região e a tradição religiosa local.
Anatomia do saquinho perfeito
Para quem viveu essa tradição na infância, o saquinho de Cosme e Damião praticamente tinha uma personalidade própria.
Não existia uma receita universal, mas alguns itens apareciam com frequência e eram imediatamente reconhecidos pelas crianças.
Os clássicos
Balas e pirulitos — Os itens básicos de qualquer saquinho. Quanto mais coloridos, melhor.
Paçoca — Um dos doces tradicionais que não poderia faltar.
Suspiro e maria-mole — Leves, volumosos e facilmente reconhecíveis.
Doce de abóbora e outros doces tradicionais — Dependendo da família e da região, apareciam em diferentes formatos e sabores.
Pipoca doce — Outro clássico, especialmente quando vinha em pequenos saquinhos individuais.
Guaraná em garrafinha — Para algumas crianças, encontrar uma bebida junto com os doces era quase como ganhar um prêmio extra.
E havia ainda aqueles pequenos brindes que transformavam o saquinho em algo muito mais interessante: ioiôs, apitos, anéis de plástico e outros brinquedos simples que faziam a alegria da criançada.
No fim das contas, cada saquinho tinha sua própria “hierarquia”. Havia os mais simples e os mais caprichados. E, naturalmente, sempre existia aquela comparação entre amigos:
“Quantos saquinhos você conseguiu?”
27 ou 26 de setembro?
Aqui existe uma curiosidade que costuma causar confusão.
Atualmente, a celebração litúrgica católica de São Cosme e São Damião ocorre em 26 de setembro. A mudança aconteceu na reforma do calendário litúrgico realizada em 1969.
No entanto, a tradição popular brasileira, especialmente aquela ligada às religiões de matriz africana e às manifestações culturais associadas aos santos gêmeos, permanece fortemente vinculada ao 27 de setembro.
No Rio de Janeiro, essa data se tornou tão arraigada na cultura popular que continua sendo reconhecida por gerações como o verdadeiro “Dia de Cosme e Damião” — o dia dos doces, das crianças, das promessas e da correria pelas ruas.
Inclusive, a própria legislação cultural do Estado do Rio de Janeiro reconhece o dia 27 de setembro como data de celebração de Cosme e Damião.
Uma tradição que virou memória afetiva
Hoje, em um mundo cada vez mais digital, muitas crianças passam boa parte do tempo diante de telas. As brincadeiras de rua já não fazem parte do cotidiano de muitas delas como acontecia antigamente.
Por isso, a lembrança do dia 27 de setembro ganha ainda mais força para quem viveu essa experiência.
É impossível lembrar de Cosme e Damião sem pensar nas ruas movimentadas, nas crianças carregando sacolas, nos doces coloridos, nos portões das casas e naquela expectativa de descobrir o que havia dentro de cada saquinho.
Para alguns, era uma manifestação de fé. Para outros, uma promessa. Para muitos, uma tradição familiar.
E para uma geração inteira de cariocas, foi simplesmente uma das partes mais doces da infância.
Porque o Dia de Cosme e Damião não era apenas sobre ganhar doces.
Era sobre sair de casa, encontrar os amigos, percorrer as ruas do bairro, bater de porta em porta e participar de uma tradição que unia fé, solidariedade, vizinhança e infância.
E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, basta alguém falar em 27 de setembro para muita gente imediatamente se lembrar de uma coisa:
“Hoje tem Cosme e Damião!”
