Cidade Nova: o lugar do Rio que já foi pântano, Campo de Marte e até cenário do famoso “Mangue”

Hoje integrada à área central do Rio de Janeiro, a Cidade Nova guarda uma história marcada por grandes transformações. O que atualmente é ocupado por ruas, prédios públicos e importantes vias da cidade já foi, no passado, uma extensa região pantanosa, que passou por sucessivos aterros, obras de infraestrutura e profundas mudanças urbanas.

Cidade Nova, Rio de Janeiro (RJ), outubro de 1967. Fotografia: Ferreira. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã. BR_RJANRIO_PH_0_FOT_03956_0065.
Cidade Nova, Rio de Janeiro (RJ), outubro de 1967. Fotografia: Ferreira. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã. BR_RJANRIO_PH_0_FOT_03956_0065.

Dos pântanos ao Campo de Marte

A região da Cidade Nova era originalmente uma extensa área pantanosa, que compreendia os Mangais da Gamboa Grande e o final do Saco de São Diogo.

Com os aterros realizados no início do século XIX, a paisagem começou a mudar. Na área aterrada formou-se o chamado Campo de Marte, utilizado para manobras de tropas militares e exercícios de tiro.

Foi também nesse período que surgiu o Caminho do Aterrado, ou Caminho das Lanternas, que atravessava a região. Posteriormente, a Rua São Pedro da Cidade Nova alcançaria a chamada Ponte dos Marinheiros, que foi renovada para facilitar o acesso da família real ao Palácio da Quinta.

O Canal do Mangue e a fábrica de gás

A transformação da Cidade Nova ganhou novo impulso em meados do século XIX.

Em 1851, o empresário Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, instalou na Rua São Pedro uma fábrica de gás, projeto do engenheiro inglês Guilherme Bragge. A instalação tinha como objetivo produzir gás para a iluminação pública da cidade, em uma época em que o Rio de Janeiro passava por importantes mudanças urbanas.

Antiga Fábrica de Gás – Rio de Janeiro. By Donatas Dabravolskas – Own work, CC BY-SA 4.0

Poucos anos depois, em 1857, Mauá promoveu outra importante intervenção na região. A vala que acompanhava o aterrado foi transformada em um verdadeiro canal, dando origem ao Canal do Mangue, entre as atuais ruas Visconde de Itaúna e Senador Eusébio.

A obra fazia parte dos esforços para melhorar as condições sanitárias e de drenagem de uma área que ainda era fortemente marcada pela presença de pântanos.

O desmonte do Morro do Senado

A transformação da paisagem continuou nas décadas seguintes.

Em 1895, foi concluído o aterro dos pântanos vizinhos utilizando terras provenientes do desmonte do Morro do Senado, uma das grandes intervenções urbanas realizadas no Rio de Janeiro naquele período.

Com a expansão da área urbanizada, novas ruas foram abertas, entre elas as ruas Visconde Duprat, Pinto de Azevedo, Pereira Franco e dos Bondes, atual Rua Machado Coelho, além de outros logradouros.

A antiga região pantanosa começava, assim, a assumir características cada vez mais próximas da cidade que conhecemos atualmente.

Da transformação urbana à decadência

Ao longo do século XX, a Cidade Nova passou por períodos de crescimento e também de decadência.

A construção da Avenida Presidente Vargas, na década de 1940, provocou profundas mudanças na região e em sua relação com o restante do centro do Rio. Com o passar dos anos, multiplicaram-se os cortiços, sobrados em estado de deterioração e áreas associadas à prostituição.

Foi nesse contexto que se tornou famoso o chamado “Mangue”, uma das mais conhecidas zonas de meretrício do Rio de Janeiro.

O local também faz parte da história da música popular brasileira. Quando chegou ao Rio de Janeiro, Luiz Gonzaga, que posteriormente seria consagrado como o “Rei do Baião”, passou pelo Mangue e começou a tocar na região, iniciando uma trajetória que o transformaria em um dos grandes nomes da música brasileira.

A renovação da Cidade Nova

A partir da década de 1970, a região começou a passar por um novo processo de transformação.

Entre as novas construções estavam o prédio da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e o Centro Administrativo São Sebastião (CASS), sede da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

Centro Administrativo São Sebastião (CASS). Por Carlos Luis M C da Cruz – Obra do próprio, CC BY-SA 3.0

O CASS foi projetado pelo arquiteto Marcos Konder Netto e tornou-se um dos principais conjuntos administrativos da região.

Nas décadas seguintes, a Cidade Nova continuou recebendo novas obras e equipamentos públicos. Na década de 1990, a região foi escolhida para receber uma infraestrutura voltada às novas tecnologias de informação e comunicação, dentro do projeto do Teleporto do Rio de Janeiro.

A iniciativa contribuiu para transformar novamente o perfil da área, atraindo empresas ligadas à tecnologia e à internet.

Uma nova Cidade Nova

Com o avanço da urbanização, novas ruas foram abertas e também foi construído um prédio anexo ao CASS, destinado a abrigar, entre outras estruturas, as Secretarias Municipais de Administração e de Fazenda.

Assim, a Cidade Nova passou por uma impressionante sucessão de transformações: de uma área de mangues e pântanos para um campo destinado a exercícios militares; depois, uma região marcada pelo Canal do Mangue, pela expansão urbana, pelos cortiços e pelo famoso Mangue; e, finalmente, uma área ocupada por grandes edifícios públicos, empresas e modernos equipamentos urbanos.

Quem percorre atualmente suas ruas talvez não imagine que, há menos de dois séculos, boa parte daquele território ainda era dominada pela água e pelos manguezais.

A história da Cidade Nova é, portanto, também a história de como o Rio de Janeiro foi conquistando novos espaços e transformando sua própria paisagem.

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