Hoje integrada à área central do Rio de Janeiro, a Cidade Nova guarda uma história marcada por grandes transformações. O que atualmente é ocupado por ruas, prédios públicos e importantes vias da cidade já foi, no passado, uma extensa região pantanosa, que passou por sucessivos aterros, obras de infraestrutura e profundas mudanças urbanas.

Dos pântanos ao Campo de Marte
A região da Cidade Nova era originalmente uma extensa área pantanosa, que compreendia os Mangais da Gamboa Grande e o final do Saco de São Diogo.
Com os aterros realizados no início do século XIX, a paisagem começou a mudar. Na área aterrada formou-se o chamado Campo de Marte, utilizado para manobras de tropas militares e exercícios de tiro.
Foi também nesse período que surgiu o Caminho do Aterrado, ou Caminho das Lanternas, que atravessava a região. Posteriormente, a Rua São Pedro da Cidade Nova alcançaria a chamada Ponte dos Marinheiros, que foi renovada para facilitar o acesso da família real ao Palácio da Quinta.
O Canal do Mangue e a fábrica de gás
A transformação da Cidade Nova ganhou novo impulso em meados do século XIX.
Em 1851, o empresário Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, instalou na Rua São Pedro uma fábrica de gás, projeto do engenheiro inglês Guilherme Bragge. A instalação tinha como objetivo produzir gás para a iluminação pública da cidade, em uma época em que o Rio de Janeiro passava por importantes mudanças urbanas.
Poucos anos depois, em 1857, Mauá promoveu outra importante intervenção na região. A vala que acompanhava o aterrado foi transformada em um verdadeiro canal, dando origem ao Canal do Mangue, entre as atuais ruas Visconde de Itaúna e Senador Eusébio.
A obra fazia parte dos esforços para melhorar as condições sanitárias e de drenagem de uma área que ainda era fortemente marcada pela presença de pântanos.
O desmonte do Morro do Senado
A transformação da paisagem continuou nas décadas seguintes.
Em 1895, foi concluído o aterro dos pântanos vizinhos utilizando terras provenientes do desmonte do Morro do Senado, uma das grandes intervenções urbanas realizadas no Rio de Janeiro naquele período.
Com a expansão da área urbanizada, novas ruas foram abertas, entre elas as ruas Visconde Duprat, Pinto de Azevedo, Pereira Franco e dos Bondes, atual Rua Machado Coelho, além de outros logradouros.
A antiga região pantanosa começava, assim, a assumir características cada vez mais próximas da cidade que conhecemos atualmente.
Da transformação urbana à decadência
Ao longo do século XX, a Cidade Nova passou por períodos de crescimento e também de decadência.
A construção da Avenida Presidente Vargas, na década de 1940, provocou profundas mudanças na região e em sua relação com o restante do centro do Rio. Com o passar dos anos, multiplicaram-se os cortiços, sobrados em estado de deterioração e áreas associadas à prostituição.
Foi nesse contexto que se tornou famoso o chamado “Mangue”, uma das mais conhecidas zonas de meretrício do Rio de Janeiro.
O local também faz parte da história da música popular brasileira. Quando chegou ao Rio de Janeiro, Luiz Gonzaga, que posteriormente seria consagrado como o “Rei do Baião”, passou pelo Mangue e começou a tocar na região, iniciando uma trajetória que o transformaria em um dos grandes nomes da música brasileira.
A renovação da Cidade Nova
A partir da década de 1970, a região começou a passar por um novo processo de transformação.
Entre as novas construções estavam o prédio da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e o Centro Administrativo São Sebastião (CASS), sede da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
O CASS foi projetado pelo arquiteto Marcos Konder Netto e tornou-se um dos principais conjuntos administrativos da região.
Nas décadas seguintes, a Cidade Nova continuou recebendo novas obras e equipamentos públicos. Na década de 1990, a região foi escolhida para receber uma infraestrutura voltada às novas tecnologias de informação e comunicação, dentro do projeto do Teleporto do Rio de Janeiro.
A iniciativa contribuiu para transformar novamente o perfil da área, atraindo empresas ligadas à tecnologia e à internet.
Uma nova Cidade Nova
Com o avanço da urbanização, novas ruas foram abertas e também foi construído um prédio anexo ao CASS, destinado a abrigar, entre outras estruturas, as Secretarias Municipais de Administração e de Fazenda.
Assim, a Cidade Nova passou por uma impressionante sucessão de transformações: de uma área de mangues e pântanos para um campo destinado a exercícios militares; depois, uma região marcada pelo Canal do Mangue, pela expansão urbana, pelos cortiços e pelo famoso Mangue; e, finalmente, uma área ocupada por grandes edifícios públicos, empresas e modernos equipamentos urbanos.
Quem percorre atualmente suas ruas talvez não imagine que, há menos de dois séculos, boa parte daquele território ainda era dominada pela água e pelos manguezais.
A história da Cidade Nova é, portanto, também a história de como o Rio de Janeiro foi conquistando novos espaços e transformando sua própria paisagem.