Este exemplar do livro Wir sprechen und schreiben (Nós falamos e escrevemos) pertenceu à minha mãe, Rosita Kanenberg (nascida Boddenberg), e foi utilizado por ela durante seus estudos no Colégio José Bonifácio, em Pomerode (SC), na primeira metade da década de 1970, quando o ensino da língua alemã ainda era fortemente presente nas escolas da região. Na época, as aulas eram ministradas pela professora Ivone.

Escrito por Anneliese Grosse, o livro constitui um importante material didático voltado ao ensino da língua alemã para iniciantes. Com aproximadamente 60 páginas, apresenta as primeiras noções de pronúncia, gramática e vocabulário do cotidiano, oferecendo uma introdução acessível ao idioma e refletindo a metodologia utilizada no ensino bilíngue em comunidades de forte influência da imigração alemã.
Após a Campanha de Nacionalização promovida durante o governo de Getúlio Vargas, entre o final da década de 1930 e o início da década de 1940, quando o ensino de idiomas estrangeiros foi severamente restringido e muitas escolas de origem alemã foram fechadas, o ensino da língua alemã passou, gradativamente, a ser retomado nas décadas seguintes. A partir dos anos 1960 e 1970, colégios comunitários, confessionais e cursos especializados voltaram a oferecer o idioma de forma regulamentada, tornando obras como esta fundamentais para a formação de novas gerações de estudantes.
Pesquisando sobre a obra, descobri que, além desta primeira edição, foi publicada também uma segunda edição. Ainda hoje é possível encontrar alguns exemplares em sebos e acervos particulares. No entanto, devido à sua limitada circulação e ao seu valor histórico, esses livros são considerados verdadeiras raridades bibliográficas e despertam o interesse de colecionadores, pesquisadores e descendentes de imigrantes alemães.
Recebi este exemplar de presente de minha mãe no final da década de 1990, durante uma visita que lhe fiz quando já residia na cidade do Rio de Janeiro. Em uma noite de conversa à mesa, enquanto falávamos sobre a importância de preservar a língua, a cultura e as tradições de nossos antepassados, ela retirou o livro de sua estante e decidiu presenteá-lo a mim.
O exemplar conserva até hoje marcas de sua história. Em diversas páginas ainda podem ser vistos exercícios respondidos a lápis pela própria minha mãe, preservando sua caligrafia de estudante. Esses pequenos registros transformam o livro em muito mais do que um antigo material escolar: fazem dele um testemunho de sua infância, de sua formação e da valorização da herança cultural alemã em nossa família.
Mais do que uma obra didática, este livro representa um elo entre gerações. É um objeto carregado de memória, afeto e significado, que preservo com enorme carinho como parte da história de minha família e da identidade cultural herdada de meus antepassados.