Em 2026, a Vila Mimosa completa 30 anos em sua atual localização, na região da Praça da Bandeira, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A data marca três décadas desde a transferência das profissionais do sexo da antiga Zona do Mangue para a Rua Sotero dos Reis, mudança ocorrida em 1996 durante a administração do então prefeito Cesar Maia.

A antiga Zona do Mangue, situada entre a Cidade Nova e o Centro do Rio, foi durante décadas um dos mais conhecidos redutos de prostituição do país. Com a desativação da área, centenas de mulheres foram transferidas para a Vila Mimosa, que passou a concentrar essa atividade e, desde então, tornou-se o mais tradicional e antigo reduto de prostituição em funcionamento no Brasil.
A mudança foi cercada de controvérsias. Na época, chegou a ser estudada a possibilidade de transferir cerca de 1.800 mulheres para o município de Duque de Caxias, proposta que acabou não sendo concretizada. Também havia previsão de uma operação policial para garantir a desocupação da antiga Zona do Mangue, caso fosse necessário cumprir a remoção de forma compulsória.
Enquanto isso, a antiga área passou por um amplo processo de reurbanização. Entre as transformações realizadas está a construção do Centro Administrativo São Sebastião, que atualmente abriga a sede da Prefeitura do Rio de Janeiro, alterando completamente a paisagem urbana da região.
Uma realidade diferente três décadas depois
Passados 30 anos, a Vila Mimosa também passou por profundas mudanças. Segundo representantes da associação local, aproximadamente mil mulheres trabalham atualmente na região, mas a maioria atua em sistema de rodízio, comparecendo apenas em determinados dias da semana, principalmente entre quarta-feira e domingo.
O movimento já não é o mesmo observado nas décadas anteriores. O auge ocorreu nos anos 2000 e permaneceu forte até o período anterior à pandemia de Covid-19. Desde então, diversos fatores contribuíram para a redução da atividade, entre eles o esvaziamento do Centro do Rio, a sensação de insegurança em parte da cidade, a desvalorização de áreas da Zona Norte e a maior dispersão das profissionais para outros locais.
Histórias marcadas pela necessidade
Por trás da movimentação da Vila Mimosa existem inúmeras histórias de vida. Muitas mulheres relatam que ingressaram na prostituição por necessidade financeira, frequentemente para sustentar os filhos sozinhas após o abandono dos companheiros.
Diversas afirmam desejar deixar a atividade, mas encontram dificuldades para conseguir empregos que ofereçam remuneração suficiente para manter suas famílias. Outras optam por trabalhar de forma independente, fora das casas tradicionais da Vila Mimosa, buscando maior autonomia e melhores condições de trabalho.
Os valores cobrados pelos programas variam conforme as circunstâncias. Em geral, ficam entre R$ 60 e R$ 120 por cerca de meia hora, embora existam situações de maior vulnerabilidade em que os preços sejam inferiores. Parte desse valor ainda é destinada ao aluguel dos quartos utilizados para os atendimentos e às despesas com materiais de proteção.
Muito além da prostituição
Ao longo dos anos, iniciativas sociais desenvolvidas na própria comunidade contribuíram para que muitas mulheres encontrassem novos caminhos. O acesso à educação, cursos de capacitação profissional, programas sociais e oportunidades de emprego permitiram que diversas delas deixassem a prostituição e reconstruíssem suas vidas.
Para historiadores e pesquisadores, a trajetória da Vila Mimosa representa muito mais do que um local destinado ao comércio sexual. Ela reflete processos históricos de transformação urbana, remoções promovidas pelo poder público e questões sociais profundas, como desigualdade econômica, exclusão social, maternidade solo e falta de oportunidades.
Mesmo com a redução do movimento nas últimas décadas, a Vila Mimosa permanece como um dos espaços mais conhecidos da história urbana do Rio de Janeiro. Sua existência acompanha as transformações da cidade e revela aspectos importantes da realidade social carioca, tornando-se um capítulo que ajuda a compreender não apenas a evolução do Rio de Janeiro, mas também as mudanças ocorridas na sociedade brasileira ao longo das últimas décadas.
