Na Baía de Guanabara, no município de São Gonçalo, encontra-se um lugar que guarda uma importante parte da história da imigração no Brasil: a Ilha das Flores, onde funcionou, entre 1883 e 1966, a Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores.

Considerada a primeira hospedaria de imigrantes criada pelo governo brasileiro, ainda durante o período imperial, a instituição recebeu pessoas de dezenas de nacionalidades. Entre os grupos mais numerosos estavam portugueses, italianos, espanhóis, poloneses, alemães, russos, austríacos, árabes e judeus, entre tantos outros. Ao longo de sua existência, a hospedaria também recebeu migrantes brasileiros e refugiados.
Embora a criação oficial da hospedaria seja situada em 1883, existem registros de imigrantes datados de 1877. Essa diferença explica por que algumas fontes mencionam o período de 1877 a 1966 ao tratar da história da Ilha das Flores. Os registros históricos da hospedaria constituem hoje uma importante fonte para pesquisadores interessados na história da imigração e na trajetória de famílias que chegaram ao Brasil.
A chegada dos imigrantes
Durante o grande movimento migratório ocorrido entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, os principais portos brasileiros de entrada de estrangeiros incluíam o Rio de Janeiro, Santos e Salvador.
Aqueles que chegavam ao Rio de Janeiro e se destinavam à hospedaria eram registrados e, posteriormente, encaminhados para a Ilha das Flores. Ali passavam por procedimentos de recepção, registro, inspeção médica e sanitária e, depois, eram encaminhados para seus destinos.
A criação da hospedaria estava relacionada às políticas de imigração e colonização adotadas pelo governo brasileiro. Pretendia-se atrair trabalhadores estrangeiros para o país e oferecer-lhes transporte, hospedagem temporária e encaminhamento para as regiões onde poderiam se estabelecer ou trabalhar.
Nesse período, o Brasil vivia uma profunda transformação nas relações de trabalho. O sistema escravista estava em processo de desestruturação e, especialmente nas áreas agrícolas, crescia a necessidade de trabalhadores livres. A imigração europeia passou, então, a ser estimulada pelo governo como parte das políticas de ocupação do território e de substituição gradual da mão de obra escravizada.
A localização da Ilha das Flores apresentava uma vantagem adicional. Por estar afastada do centro urbano, permitia que os recém-chegados fossem recebidos e examinados antes de entrar em contato com a população da Corte, especialmente em uma época em que o Rio de Janeiro enfrentava frequentes epidemias.
Ao desembarcarem na ilha, os imigrantes eram instalados nos alojamentos existentes. Recebiam alimentação, assistência médica e condições básicas de higiene, permanecendo ali durante alguns dias, até que pudessem seguir para seus destinos.
A hospedaria funcionava, portanto, como um verdadeiro ponto de passagem: era o lugar entre a longa viagem transatlântica e o início de uma nova vida no Brasil.
Contratadores e intermediadores também compareciam à hospedaria para recrutar trabalhadores e encaminhá-los para diferentes regiões. Em algumas fontes, esses intermediadores aparecem identificados como “gatos”.
Registro, inspeção e alojamento
O processo de recepção seguia uma rotina relativamente organizada.
Após o desembarque, os imigrantes eram encaminhados aos alojamentos e, posteriormente, ao escritório da administração, onde seus dados eram registrados nos livros da hospedaria.
Entre as informações anotadas estavam o nome, a idade, o estado civil, a nacionalidade, a profissão, a procedência, o nome do navio, a data de entrada e o destino.
Em seguida, os imigrantes passavam por inspeção médica, destinada a verificar suas condições de saúde e impedir a disseminação de doenças infectocontagiosas.
Durante determinado período, os alojamentos eram divididos de acordo com o gênero e o estado civil. Havia dormitórios destinados a jovens solteiros, homens casados, moças solteiras e mulheres casadas com filhos pequenos.
A hospedaria também possuía cozinha e refeitório, onde eram preparadas e servidas as refeições. Para pessoas que haviam passado semanas ou até meses viajando em navios, muitas vezes em condições difíceis, aquele local representava o primeiro contato com uma nova realidade.
Há também registros de que os imigrantes recebiam roupas de cama e produtos de higiene antes de serem encaminhados aos alojamentos.
Uma frase que se tornou especialmente associada à experiência dos imigrantes na Ilha das Flores estava escrita em uma placa em diferentes idiomas:
“Você era um estranho e o Brasil o acolheu.”
A frase sintetiza, de certa maneira, a imagem que o governo brasileiro pretendia transmitir de um país disposto a receber aqueles que chegavam para começar uma nova vida.
Os documentos da hospedaria
Para quem pesquisa a história de uma família de imigrantes, a documentação da Ilha das Flores possui um valor extraordinário.
Os livros de registros constituem uma das mais importantes fontes para identificar pessoas que passaram pela hospedaria. Neles podem ser encontradas informações sobre nomes, idades, nacionalidades, profissões, familiares, embarcações e destinos.
Atualmente, documentos relacionados à Hospedaria da Ilha das Flores encontram-se sob a guarda do Arquivo Nacional e são utilizados por pesquisadores da imigração e da genealogia. Há também possibilidades de solicitação de documentos e informações por meio dos serviços de atendimento da instituição.
É importante, entretanto, ter em mente que os registros antigos podem apresentar diferenças na grafia dos nomes. A diversidade de idiomas e alfabetos, além das dificuldades de comunicação entre os imigrantes e os funcionários responsáveis pelas anotações, fez com que muitos nomes fossem registrados de maneira diferente daquela utilizada originalmente pelas famílias.
Para uma pesquisa genealógica, portanto, informações como o nome completo, a nacionalidade, o nome do navio e a data aproximada da chegada podem ser fundamentais.
Uma passagem curiosa: Elke Maravilha
Entre as inúmeras histórias de pessoas que passaram pela Ilha das Flores está a de uma menina que, décadas mais tarde, se tornaria uma personalidade conhecida em todo o Brasil: Elke Maravilha.
Nascida Elke Georgievna Grunnupp, filha de Georg e Lieselotte Grunnupp, ela chegou ao Brasil ainda criança, acompanhada dos pais e de outros familiares, na década de 1950.
Em 2012, quando o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores já realizava atividades de preservação da história da hospedaria, Elke Maravilha participou de uma visita ao local, contribuindo também para aproximar a memória individual da história coletiva da imigração.
Há ainda uma curiosidade documental particularmente interessante: no cartão de imigração de seu pai, seu nome aparece registrado como Ilga. Esse tipo de divergência na documentação ajuda a demonstrar as dificuldades encontradas pelos funcionários ao registrar nomes estrangeiros e também explica alguns dos desafios enfrentados atualmente por pesquisadores e genealogistas.


Os vários nomes da Ilha das Flores
Antes de se tornar conhecida como Ilha das Flores, a pequena ilha da Baía de Guanabara recebeu diferentes denominações ao longo dos séculos.
Em uma carta topográfica de 1710, a atual Ilha das Flores aparece como Santo Antônio. Por volta de 1770, no plano de Manuel Vieira Leão, surge com outra denominação: Ilha do Martins.
Em 1817, o Plano da Cidade do Rio de Janeiro, de José Fernandes Portugal, utilizou a denominação Meruhi. Já no Plano de Pallière, de 1823, aparece o nome Marim.
No início do século XIX, a ilha pertencia a Delfina Felicidade do Nascimento Flores e também era conhecida como Marim.
É possível que o nome atualmente utilizado tenha relação justamente com essa proprietária. Segundo uma interpretação bastante difundida, o local teria passado a ser conhecido como a “ilha da D. Flores”, denominação que posteriormente teria evoluído para Ilha das Flores.
A criação da Hospedaria da Ilha das Flores
O governo brasileiro adotou, durante o século XIX, uma série de medidas para estimular a imigração e a colonização.
Em 1876, foi criada a Inspetoria Geral de Terras e Colonização, subordinada ao Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Entre suas atribuições estavam a fiscalização e a direção dos serviços relacionados à imigração e à colonização.
Entre as medidas adotadas estavam a oferta de hospedagem e transporte aos imigrantes, além de mecanismos destinados a facilitar seu estabelecimento em colônias e outras áreas do território brasileiro.
Nesse contexto começaram, em 1878, as negociações para a aquisição da Ilha das Flores pelo governo imperial. A negociação envolveu o senador José Ignácio Silveira da Motta, então proprietário da ilha, e representantes do governo.
A transação foi concluída em 1883. Foi então que a Ilha das Flores passou a abrigar oficialmente a Hospedaria de Imigrantes, criada pelo governo imperial.
A localização da ilha era estratégica. Seu isolamento em relação à área urbana do Rio de Janeiro permitia controlar a entrada dos recém-chegados e, ao mesmo tempo, evitar que fossem imediatamente expostos às epidemias que frequentemente atingiam a cidade.
Em 1º de março de 1883, o ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Afonso Augusto Moreira Penna, determinou que os passageiros de terceira classe provenientes de portos estrangeiros, depois de desembarcarem no Porto do Rio de Janeiro, fossem transportados, juntamente com suas bagagens, para a Ilha das Flores, onde poderiam permanecer gratuitamente por até oito dias.
A Hospedaria da Ilha das Flores tornou-se, assim, uma importante engrenagem da política imigratória brasileira.
Uma ilha que também foi prisão
A história da Ilha das Flores, porém, não se limita à imigração.
Durante o período em que funcionou como hospedaria, o local também foi utilizado para outras finalidades, especialmente como espaço de confinamento e prisão. Essa característica fez da ilha um lugar marcado simultaneamente pela chegada de imigrantes, pelo acolhimento, pela quarentena e pelo isolamento de pessoas consideradas indesejáveis ou perigosas pelo Estado.
Em 1917, com a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, a ilha passou para a administração do Ministério da Marinha. Naquele contexto, tripulantes de navios alemães foram recolhidos ao local.
Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, a ilha voltou a ser utilizada como espaço prisional. Entre 18 de agosto e 31 de outubro daquele ano, passaram pelo local milhares de combatentes paulistas capturados durante o conflito.
Em 1935, a ilha novamente recebeu presos em razão da Intentona Comunista, movimento ocorrido em novembro daquele ano contra o governo de Getúlio Vargas.
A utilização da Ilha das Flores como espaço de confinamento não terminou aí. Durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente após a entrada do Brasil no conflito, em 1942, aumentou a vigilância sobre estrangeiros provenientes de países inimigos.
A ilha passou a receber também pessoas consideradas suspeitas ou envolvidas em atividades de espionagem e colaboração com os países do Eixo. Em 1942, segundo registros históricos, 349 pessoas foram retidas na Ilha das Flores.
A trajetória da ilha, portanto, revela uma dimensão menos conhecida de sua história: o mesmo lugar que recebia pessoas que chegavam ao Brasil em busca de uma nova vida também foi utilizado pelo Estado para controlar, isolar e prender determinados grupos.
O fim da hospedaria
Com o passar das décadas, o perfil da imigração brasileira mudou. O grande fluxo migratório europeu que havia marcado as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX diminuiu significativamente.
Em 1966, depois de mais de oito décadas de funcionamento, a Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores encerrou suas atividades.
O local passou então a receber outras funções. Entre elas esteve a instalação do CENATRE — Centro Nacional de Treinamento, subordinado ao Departamento de Cooperativismo e Extensão Rural do Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário (INDA), destinado à realização de cursos para pessoal técnico, administrativo e lideranças rurais.
Ao final de 1968, a Ilha das Flores passou à propriedade da Marinha do Brasil, que instalou no local organizações militares do Corpo de Fuzileiros Navais.
A presença da Marinha permanece até os dias atuais. Atualmente, a área abriga a Tropa de Reforço dos Fuzileiros Navais, ao mesmo tempo em que preserva parte significativa das antigas edificações e estruturas relacionadas à hospedaria.
De hospedaria a lugar de memória
A transformação da Ilha das Flores em espaço de preservação da memória começou a ganhar forma no século XXI.
Em 2010, a Marinha do Brasil e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro iniciaram uma parceria destinada a pesquisar e preservar a história da antiga hospedaria. Em 2012, foi inaugurado o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores, dando início às visitas guiadas e às ações de pesquisa e preservação.
Em 2016, foi inaugurado oficialmente o Museu da Imigração da Ilha das Flores (MIIF), composto pelo Circuito a Céu Aberto e por uma exposição de longa duração instalada na antiga Casa do Intérprete.
O visitante pode percorrer os espaços que fizeram parte da antiga hospedaria e conhecer documentos, fotografias, objetos e relatos relacionados às experiências de imigrantes e migrantes.
A ilha, que durante décadas foi ponto de chegada para milhares de pessoas, transformou-se assim em um lugar de memória.
E talvez essa seja uma das maiores riquezas do Museu da Imigração da Ilha das Flores: não se trata apenas de conhecer a história de um antigo conjunto de prédios. Trata-se de caminhar por um lugar onde pessoas reais chegaram depois de atravessar oceanos, deixando para trás suas terras de origem, suas famílias, suas dificuldades e suas esperanças.
Muitos encontraram no Brasil a oportunidade de construir uma nova vida. Outros seguiram para diferentes regiões do país. Seus nomes ficaram registrados em antigos livros manuscritos.
Hoje, esses mesmos registros permitem que descendentes reencontrem um pequeno fragmento da história de seus antepassados.
A antiga hospedaria deixou de receber imigrantes há décadas, mas continua recebendo visitantes. A diferença é que, agora, quem chega à Ilha das Flores não está procurando um lugar para começar uma nova vida.
Está procurando memórias.
E, entre as antigas construções, documentos e histórias preservadas, talvez encontre também um pouco da própria história do Brasil.
Onde fica o museu
Complexo Naval da Ilha das Flores
São Gonçalo – RJ
Telefone: (21)3707-9504
E-mail: comtrref.museu@marinha.mil.br
Site: www.miif.org.br
Visitação ao Museu: Terça a domingo, das 9h às 17h.
Custo: Gratuito
Opção de passeio com guia de turismo
Mapa de localização
Fotos
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