Poucas palavras relacionadas ao dinheiro estão tão presentes na memória e na linguagem popular brasileira quanto tostão e vintém. Hoje, ambas parecem pertencer a um passado distante, mas durante séculos fizeram parte do cotidiano de brasileiros e portugueses, aparecendo em moedas, pequenas compras, impostos e até em expressões que permanecem vivas em nossa língua.
Tostão
A palavra tostão tem uma trajetória fascinante, que atravessa a Itália renascentista, o sistema monetário português e a história econômica do Brasil.
Etimologia e origem
A origem do termo está no italiano testone, palavra derivada de testa, que significa “cabeça”. A denominação está relacionada às moedas que passaram a apresentar, de maneira destacada, o retrato ou a cabeça do governante.
No século XV, em 1474, foi cunhada no Ducado de Milão uma importante moeda de prata com o perfil do duque Galeazzo Maria Sforza. Por apresentar a cabeça do governante em destaque, a moeda ficou conhecida como testone.
A novidade se espalhou por outros territórios europeus e chegou a Portugal durante o reinado de D. Manuel I (1495–1521). O nome acabou sendo adaptado para tostão, passando a designar uma moeda de prata portuguesa.
O tostão no Brasil
Com a expansão do sistema monetário português para o Brasil, a denominação também atravessou o Atlântico. Durante o período dos réis, 100 réis passaram a ser conhecidos popularmente como um tostão.
O tostão tornou-se uma referência importante para os valores monetários. Havia também suas frações e múltiplos, como o meio-tostão, correspondente a 50 réis.
Com o passar do tempo, porém, o significado da palavra foi se afastando de seu valor monetário original. As mudanças no sistema monetário, a inflação e a perda do poder de compra fizeram com que “tostão” passasse a ser associado a uma quantia pequena ou insignificante de dinheiro.
Mesmo depois de a moeda deixar de circular, a palavra permaneceu na linguagem cotidiana.
Curiosidades e expressões populares
A expressão “não vale um tostão furado” tornou-se uma maneira de dizer que algo não tem valor. A ideia está associada às moedas furadas ou danificadas, que podiam perder sua condição de moeda válida — embora moedas perfuradas também tenham tido diferentes usos ao longo da história.
Já “não ter um tostão no bolso” passou a significar estar sem dinheiro, reforçando a permanência do antigo termo no vocabulário popular.
E existe ainda um tostão bastante famoso fora da numismática: o jogador Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, campeão mundial pela Seleção Brasileira em 1970. O apelido surgiu ainda na infância, em Belo Horizonte, e acabou acompanhando o craque durante toda a sua carreira.
Vintém
Se o tostão tem uma origem ligada ao retrato dos governantes, o vintém possui uma origem muito mais direta: seu nome está relacionado ao número vinte.
A palavra passou a designar uma moeda cujo valor correspondia a 20 réis, ou seja, a quinta parte de um tostão.
Etimologia e origem
O vintém surgiu no sistema monetário português e foi utilizado durante séculos. Seu nome está relacionado a “vinte”, referência direta ao seu valor de 20 réis.
No Brasil, o vintém tornou-se uma das menores unidades monetárias de uso cotidiano, sendo empregado em pequenas transações e pagamentos.
Por seu reduzido valor, passou a fazer parte da vida diária da população e, assim como o tostão, acabou entrando profundamente na linguagem popular.
Do metal precioso ao cobre e ao bronze
Ao longo de sua história, o vintém apareceu em diferentes metais. As primeiras moedas portuguesas desse tipo foram cunhadas em prata, mas posteriormente surgiram exemplares de cobre e, em períodos posteriores, de bronze.
No Brasil, as moedas de baixo valor desempenhavam papel fundamental nas pequenas transações. Eram utilizadas no comércio cotidiano e no pagamento de serviços e transportes.
A Revolta do Vintém
Uma das páginas mais marcantes da história do vintém ocorreu no Rio de Janeiro, entre 1879 e 1880.
O governo imperial decidiu cobrar um imposto de 20 réis, equivalente a um vintém, sobre as passagens dos bondes. A cobrança provocou forte reação popular, especialmente porque atingia diretamente o transporte utilizado diariamente pela população.
A insatisfação transformou-se em grandes manifestações, que ficaram conhecidas como Revolta do Vintém. Houve confrontos entre manifestantes e forças policiais, destruição de veículos e grande tensão nas ruas da capital do Império.
O episódio tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de como uma pequena quantia monetária podia representar, para a população, uma questão muito maior: o impacto dos impostos sobre a vida cotidiana.
Curiosidades e expressões populares
Assim como aconteceu com o tostão, o vintém acabou entrando definitivamente no vocabulário brasileiro.
A expressão “não ter um vintém” passou a significar estar sem dinheiro ou não possuir recurso algum.
Outra expressão conhecida é “vintém furado”, utilizada para representar algo sem valor. A associação com moedas furadas está ligada ao fato de que uma moeda danificada dessa maneira poderia deixar de ser aceita como meio de pagamento, embora moedas furadas também tenham sido reutilizadas para outras finalidades.
Existe ainda uma curiosidade relacionada à história da mineração: o chamado vintém de ouro, utilizado como unidade de peso para pequenas quantidades de ouro em determinados contextos do período colonial. Nesse caso, porém, não estamos falando simplesmente da moeda de 20 réis, mas de uma denominação relacionada à pesagem do ouro.
Duas pequenas palavras, uma grande história
Tostão e vintém podem parecer hoje apenas palavras antigas, encontradas em documentos, moedas de coleção e expressões populares. Mas ambas ajudam a contar uma parte importante da história econômica e social do Brasil.
O tostão, que nasceu de uma moeda europeia associada à representação da cabeça de um governante, atravessou séculos e oceanos até se transformar em uma das referências monetárias mais conhecidas do Brasil.
O vintém, por sua vez, nasceu da própria ideia de “vinte” e esteve presente nas pequenas transações do cotidiano, chegando a protagonizar uma das mais importantes revoltas populares do Rio de Janeiro do século XIX.
Mais do que simples denominações monetárias, tostão e vintém sobreviveram ao desaparecimento das moedas que lhes deram origem. Permaneceram na memória coletiva e na língua portuguesa, mostrando como o dinheiro, mesmo quando perde seu valor de circulação, pode continuar tendo enorme valor histórico e cultural.
