Se você viveu a infância ou a juventude na década de 1980, provavelmente se lembra daquela cena: reunir os amigos no recreio da escola, na calçada ou no chão da sala, embaralhar um maço de cartas e lançar o desafio:
“Velocidade máxima: 240 km/h! Quem tem mais?”
Muito antes dos videogames com gráficos sofisticados, dos smartphones e das redes sociais, um dos grandes passatempos da garotada era um jogo simples, rápido e capaz de provocar disputas acirradas: o Super Trunfo.

Com suas cartas coloridas, cheias de números e informações técnicas, o jogo transformava carros, aviões, navios, motos e outros temas em verdadeiras batalhas de conhecimento.
A fórmula do sucesso
Lançado no Brasil pela Grow no final da década de 1970, o Super Trunfo ganhou enorme popularidade durante os anos 1980 e passou a fazer parte da infância de milhares de crianças e adolescentes.
A mecânica era simples. Cada jogador recebia um conjunto de cartas e, a cada rodada, escolhia um dos atributos apresentados na carta que estava em sua mão. O adversário precisava então comparar o mesmo atributo de sua própria carta.
Quem tivesse o melhor número levava as cartas da rodada.
Era justamente essa simplicidade que tornava o jogo tão divertido. Não era necessário tabuleiro, dado ou uma grande preparação. Bastava reunir os amigos, embaralhar as cartas e começar a disputa.
E havia ainda aquele momento de tensão quando alguém anunciava:
“Vou de velocidade máxima!”
As categorias variavam de acordo com a edição, mas alguns dos temas que mais despertavam a imaginação da garotada envolviam:
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Carros esportivos e supermáquinas: velocidade máxima, potência, cilindrada e outras características;
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Motocicletas: potência, cilindrada, velocidade e desempenho;
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Aviões e caças militares: velocidade, altitude, autonomia e outras especificações;
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Navios e transatlânticos: comprimento, tonelagem, velocidade e capacidade.
Para muitas crianças, aqueles números eram muito mais do que simples estatísticas. Eram informações que precisavam ser decoradas para garantir vantagem na próxima partida.
A origem: de onde veio essa ideia?
Apesar de ter se tornado extremamente popular no Brasil, o conceito do Super Trunfo não nasceu por aqui.
O jogo faz parte da tradição dos Top Trumps, uma série de jogos de cartas criada no Reino Unido na década de 1970. A proposta era justamente reunir cartas sobre determinado tema e permitir que os jogadores comparassem diferentes características dos itens apresentados.
A fórmula fez sucesso e acabou sendo comercializada em diversos países, com diferentes nomes, temas e versões.
No Brasil, o nome Super Trunfo se tornou tão conhecido que acabou praticamente se confundindo com o próprio gênero de jogo de cartas baseado na comparação de atributos.
A carta que todo mundo queria ter
Entre as lembranças mais marcantes de quem jogou Super Trunfo está a famosa carta Super Trunfo.
Dependendo da edição e das regras utilizadas, ela possuía características especiais e podia vencer praticamente todas as demais cartas. Mas havia uma exceção: determinadas cartas específicas da série podiam derrotá-la.
Isso criava uma situação curiosa durante a partida. Quando alguém colocava o Super Trunfo na mesa, geralmente vinha aquela reação imediata dos adversários:
“Não vale!”
Ou então começava a torcida para que alguém tivesse justamente a carta capaz de derrotá-lo.
Uma enciclopédia que cabia no bolso
Hoje, basta alguns segundos no celular para descobrir a potência de um carro, a velocidade de um avião ou o comprimento de um navio.
Nos anos 1980, porém, não era tão simples.
Para muitas crianças, as cartas do Super Trunfo funcionavam como uma espécie de pequena enciclopédia portátil. Foi através delas que muita gente descobriu termos como cilindrada, potência, velocidade máxima, tonelagem, autonomia e altitude.
E não era raro decorar essas informações.
Afinal, saber que determinado carro atingia 220 km/h ou que determinado caça ultrapassava determinada velocidade podia significar a diferença entre ganhar ou perder uma rodada.
E quem nunca teve uma carta “marcada”?
Havia também um pequeno segredo que fazia parte da estratégia de muitos jogadores: reconhecer as cartas pelo estado físico.
Uma dobra em determinado canto, uma marca na borda, uma diferença na textura ou simplesmente o desgaste provocado pelo uso contínuo podiam denunciar qual carta estava sendo segurada.
Era quase uma versão infantil da “trapaça profissional”.
Quem conhecia bem o próprio baralho sabia identificar algumas cartas antes mesmo de ler o que estava escrito nelas.
De carros a dinossauros
O sucesso do formato permitiu que o Super Trunfo ultrapassasse o universo dos automóveis.
Ao longo dos anos, surgiram edições dedicadas a diversos assuntos, incluindo aviões, navios, motos, trens, animais, dinossauros, veículos militares, personagens e muitos outros temas.
Isso ajudava a manter o interesse pelo jogo. Quem não gostava de carros podia encontrar uma edição sobre outro assunto que despertasse sua curiosidade.
E, para muitas crianças, colecionar diferentes baralhos era quase tão divertido quanto jogar.
Mais do que um jogo
O Super Trunfo não era apenas uma disputa para descobrir quem tinha o carro mais rápido ou o avião mais veloz.
Ele também estimulava a memorização, a comparação de números, o raciocínio rápido e a aquisição espontânea de conhecimentos.
Tudo isso acontecia sem que a criança tivesse a sensação de estar estudando.
Era aprendizado disfarçado de brincadeira.
E talvez esteja aí uma das razões pelas quais o jogo tenha deixado uma lembrança tão forte em quem cresceu naquela época.
Um clássico que atravessou gerações
Os anos passaram. Os videogames se tornaram cada vez mais sofisticados, surgiram computadores pessoais, internet, celulares e, posteriormente, smartphones e jogos digitais capazes de oferecer experiências que seriam inimagináveis para uma criança dos anos 1980.
Mas o Super Trunfo continuou encontrando espaço.
Porque sua essência nunca dependeu de gráficos, tecnologia ou conexão com a internet.
Dependia apenas de algumas cartas, um grupo de amigos e uma boa dose de competitividade.
Para quem viveu aquela época, talvez bastasse ouvir uma frase como “velocidade máxima”, “cilindrada” ou “potência” para que uma parte da infância voltasse imediatamente à memória.
Afinal, durante algum tempo, uma simples cartinha de papelão podia transformar um Fusca em uma supermáquina, um avião de guerra em um objeto de desejo e uma tarde comum em um campeonato mundial.
E quem tinha o Super Trunfo na mão… bem, esse quase sempre entrava na partida acreditando que já tinha meio caminho andado para a vitória.