O discurso de Che Guevara na ONU e a execução que entrou para a história: quem foi esse homem?

Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido como Che Guevara
Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido como Che Guevara

Em 9 de outubro de 1967, um dos personagens mais conhecidos e controversos da história política do século XX teve um fim trágico. Ernesto Guevara de la Serna, mundialmente conhecido como Che Guevara, foi executado na Bolívia, após ser capturado durante uma campanha guerrilheira.

Argentino de nascimento, médico por formação e revolucionário por convicção, Che tornou-se uma das figuras centrais da Revolução Cubana e passou a ser reconhecido mundialmente por sua imagem, suas ideias e sua luta contra o imperialismo.

Mas quem foi o homem por trás da famosa fotografia que estampou camisetas, cartazes e bandeiras em diferentes partes do mundo? E como alguém que morreu tão jovem acabou se transformando em um símbolo que atravessou gerações?

Quem foi Che Guevara?

Ernesto Guevara nasceu em 14 de junho de 1928, na cidade de Rosário, na Argentina. Filho de uma família de classe média, estudou Medicina e, ainda jovem, realizou viagens pela América Latina que influenciaram profundamente sua visão política e social.

Durante essas viagens, conheceu de perto a pobreza, a desigualdade e as difíceis condições de vida de parcelas da população latino-americana. Essas experiências contribuíram para sua aproximação das ideias revolucionárias.

Em 1953, iniciou uma nova viagem pelo continente e, posteriormente, seguiu para a Guatemala e o México. Foi no México, em 1955, que conheceu Fidel Castro e se juntou ao movimento revolucionário que pretendia derrubar o governo cubano de Fulgencio Batista.

A partir desse encontro, sua trajetória mudaria completamente.

A Revolução Cubana e a ascensão de Che

Em dezembro de 1956, Che Guevara integrou o grupo de revolucionários que desembarcou em Cuba para iniciar a luta armada contra o governo de Batista.

Ao lado de Fidel Castro, Raúl Castro e outros combatentes, participou da guerrilha na região da Sierra Maestra. Apesar das dificuldades, o movimento ganhou força e conseguiu ampliar seu apoio.

Em janeiro de 1959, após a queda de Batista, os revolucionários assumiram o poder.

Che Guevara passou a ocupar posições importantes no novo governo cubano, incluindo funções relacionadas à economia e à política industrial. Também se tornou uma das vozes mais conhecidas da Revolução Cubana no cenário internacional.

Entretanto, sua atuação não se limitou à defesa de mudanças sociais e econômicas. Che também esteve associado à repressão e às execuções de pessoas consideradas inimigas da revolução, especialmente nos primeiros anos do novo regime. Sua participação nesses acontecimentos é uma das razões pelas quais sua trajetória permanece tão controversa.

O discurso de Che Guevara na ONU, em 1964

Em 11 de dezembro de 1964, Che Guevara discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, representando Cuba.

Na ocasião, defendeu as posições do governo cubano, criticou a política externa dos Estados Unidos e abordou temas como colonialismo, conflitos internacionais e movimentos de libertação nacional.

O discurso chamou a atenção pela firmeza das declarações e pela maneira direta com que Che apresentou suas posições políticas diante de representantes de diversos países.

O vídeo desse pronunciamento é um registro histórico importante para compreender como Che se apresentava ao mundo: não apenas como guerrilheiro, mas também como representante de um governo revolucionário que buscava ampliar sua influência internacional.

Assista ao pronunciamento original, disponibilizado pelo canal oficial das Nações Unidas:

Por que Che Guevara deixou Cuba?

Apesar de sua posição de destaque no governo cubano, Che Guevara tinha um objetivo que ia além da consolidação da revolução na ilha: acreditava que movimentos revolucionários deveriam se espalhar por outros países.

Em 1965, afastou-se das funções públicas em Cuba e deixou de aparecer regularmente em público. Mais tarde, envolveu-se em tentativas de organizar movimentos guerrilheiros no Congo e, posteriormente, na Bolívia.

A experiência africana não alcançou os resultados esperados. Em 1966, Che chegou à Bolívia, onde pretendia organizar uma guerrilha capaz de impulsionar uma revolução no país e, em uma perspectiva mais ampla, na América Latina.

A missão boliviana, porém, enfrentou enormes dificuldades. O grupo tinha problemas de comunicação, abastecimento e organização, além de não conseguir conquistar o apoio popular que esperava entre os camponeses locais.

As forças militares bolivianas, por sua vez, intensificaram as operações contra os guerrilheiros, contando com apoio e treinamento dos Estados Unidos.

A captura e a execução, em 9 de outubro de 1967

Em 8 de outubro de 1967, Che Guevara foi capturado por militares bolivianos após um confronto na região de La Higuera. Ferido na perna, foi levado para uma pequena escola da localidade, onde permaneceu prisioneiro.

No dia seguinte, 9 de outubro de 1967, recebeu a ordem de execução e foi morto a tiros, aos 39 anos.

Documentos desclassificados do governo dos Estados Unidos indicam que Che foi capturado vivo e que a ordem para matá-lo partiu do comando militar boliviano. Um agente da CIA, Félix Rodríguez, esteve presente durante os acontecimentos.

A execução provocou repercussão internacional. As autoridades bolivianas inicialmente divulgaram uma versão segundo a qual Guevara teria morrido em consequência dos ferimentos sofridos em combate, mas documentos posteriores confirmaram que ele foi executado após a captura.

Sua morte encerrou sua participação direta nos movimentos revolucionários, mas deu início a uma nova etapa de sua história: a transformação de Che em um símbolo internacional.

Como Che Guevara se tornou um ícone mundial?

Uma das imagens mais famosas de Che Guevara foi registrada pelo fotógrafo cubano Alberto Korda, em 1960. Conhecida como Guerrillero Heroico, a fotografia mostra Che usando uma boina com uma estrela e olhando para longe.

A imagem ganhou projeção internacional e passou a ser reproduzida em cartazes, livros, bandeiras e camisetas, tornando-se uma das fotografias políticas mais reconhecidas do século XX.

Para admiradores, Che representa a resistência, a luta contra as desigualdades e a disposição de enfrentar poderes estabelecidos. Para críticos, sua imagem popular muitas vezes ignora a violência revolucionária, o autoritarismo e sua participação em execuções.

Essa diferença de interpretações ajuda a explicar por que sua figura continua despertando debates décadas depois de sua morte.

Curiosidades sobre Che Guevara

  • Era médico: antes de se tornar um revolucionário conhecido mundialmente, formou-se em Medicina na Argentina.
  • O apelido “Che” tem origem argentina: a expressão é usada informalmente para chamar alguém ou se dirigir a outra pessoa e acabou se tornando sua marca registrada.
  • Participou de movimentos revolucionários em diferentes continentes: além de Cuba, envolveu-se em tentativas de guerrilha no Congo e na Bolívia.
  • Sua morte não apagou sua influência: sua imagem passou a circular amplamente após a execução, sendo adotada por movimentos políticos, manifestações culturais e campanhas comerciais.
  • Sua história continua dividindo opiniões: Che é lembrado tanto como símbolo de resistência revolucionária quanto como um personagem associado à violência política.

O legado de Che Guevara permanece vivo

Quase seis décadas depois de sua execução, Che Guevara continua sendo uma figura difícil de ignorar quando se fala em revoluções, Guerra Fria e história da América Latina.

Sua trajetória reúne idealismo político, luta armada, participação no governo cubano, violência revolucionária e uma morte que contribuiu para consolidar sua imagem histórica.

Conhecer sua história exige ir além da fotografia estampada em camisetas ou dos slogans políticos. É preciso compreender o contexto em que viveu, suas convicções, suas ações e as consequências de suas escolhas.

O discurso pronunciado na ONU em 1964 ajuda a recuperar um pouco desse contexto, mostrando o próprio Che apresentando suas ideias diante da comunidade internacional, três anos antes de sua execução.

E você, como avalia a trajetória de Che Guevara? Acredita que ele deve ser lembrado principalmente como um símbolo de resistência ou considera que a violência associada à sua atuação deve ocupar o centro dessa discussão?

Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe este artigo com quem gosta de história e de conhecer os personagens que marcaram o século XX.

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