Não vale um Cibazol: quando um remédio virou expressão popular

Há palavras que desaparecem das farmácias, mas continuam vivas na memória das pessoas. Algumas permanecem nos livros, outras nas fotografias e, curiosamente, algumas sobrevivem na própria linguagem.

É o caso do Cibazol, um antigo medicamento que praticamente desapareceu do cotidiano brasileiro, mas deixou uma expressão bastante conhecida, especialmente no Nordeste: “não vale um Cibazol”.

Cibazol

Mas afinal, o que era um Cibazol?

Um remédio de outros tempos

O Cibazol era o nome comercial de um medicamento à base de sulfamidotiazol, também conhecido como sulfatiazol, pertencente ao grupo das sulfonamidas.

O medicamento foi desenvolvido pela empresa farmacêutica suíça CIBA e começou a ser comercializado sob o nome Cibazol na década de 1940. Registros históricos da indústria farmacêutica mencionam a obtenção do sulfamidotiazol pela CIBA em 1940 e sua comercialização com essa marca.

Na época, as sulfonamidas representavam uma importante novidade no tratamento de infecções. Antes da ampla disponibilidade dos antibióticos modernos, medicamentos desse grupo tiveram papel significativo na medicina.

O Cibazol acabou se tornando conhecido também por ser um medicamento popular e relativamente barato. Há relatos de seu uso em diferentes apresentações e para diversos problemas de saúde, fazendo parte do cotidiano de muitas famílias durante boa parte do século XX.

Com o passar dos anos, porém, novos medicamentos foram surgindo, os tratamentos foram se modernizando e o Cibazol acabou desaparecendo das farmácias.

O medicamento deixou de fazer parte da vida cotidiana, mas seu nome teve uma curiosa segunda vida.

“Não vale um Cibazol”

No Nordeste brasileiro, especialmente na linguagem popular, Cibazol passou a representar algo de pouco ou nenhum valor.

Assim nasceu a conhecida expressão:

“Não vale um Cibazol!”

Dizer que alguma coisa ou alguém “não vale um Cibazol” significava dizer que aquilo não tinha importância, valor ou utilidade. Dependendo da situação, também poderia ser uma maneira bem-humorada de dizer que alguém era pouco confiável ou que determinada coisa não prestava.

A expressão aparece registrada em diferentes repertórios de palavras e expressões nordestinas com justamente esse significado: “coisa sem valor”.

É interessante perceber como a linguagem popular consegue transformar um simples nome comercial em uma unidade de medida imaginária.

Não se dizia apenas que algo “não valia nada”. Dizia-se que “não valia um Cibazol”.

Como um medicamento ganhou fama de “não valer nada”?

Aqui existe uma curiosidade linguística interessante.

O Cibazol não nasceu para ser sinônimo de algo inútil. Pelo contrário: quando foi lançado, fazia parte de uma classe de medicamentos que representava um importante avanço terapêutico.

A associação negativa parece ter surgido posteriormente, provavelmente relacionada ao baixo preço e à percepção popular sobre sua eficácia quando comparada aos medicamentos que vieram depois.

Com o tempo, o nome do remédio foi perdendo sua referência original. Para as novas gerações, Cibazol deixou de significar um medicamento específico e passou a funcionar como uma expressão popular.

É um fenômeno bastante curioso: o produto desaparece, mas a palavra permanece.

Uma expressão que voltou às manchetes

Durante muito tempo, “não vale um Cibazol” permaneceu principalmente como uma expressão regional, transmitida pela oralidade e pela convivência entre gerações.

Mas em 2016 ela ganhou novamente destaque nacional.

Naquele ano, uma conversa gravada entre políticos brasileiros e divulgada pela imprensa trouxe a expressão para o noticiário. A frase chamou a atenção justamente porque muitas pessoas de outras regiões do país já não conheciam o significado daquele curioso nome.

A repercussão acabou despertando a curiosidade sobre o que era, afinal, aquele tal de Cibazol.

E assim, décadas depois de ter desaparecido das farmácias, o velho medicamento voltou a ser lembrado — desta vez não como remédio, mas como uma peça da linguagem popular brasileira.

Quando os remédios também fazem parte da memória

Quem viveu em décadas passadas provavelmente se lembra de uma farmácia bastante diferente das atuais.

Havia nomes de medicamentos que faziam parte do vocabulário cotidiano das famílias. Alguns eram usados durante anos e acabavam se tornando quase familiares. Outros desapareceram completamente, deixando apenas uma lembrança, uma propaganda antiga, uma embalagem guardada ou uma história contada pelos mais velhos.

O Cibazol pertence a essa categoria de objetos da memória.

Hoje, poucas pessoas talvez consigam reconhecer o nome como sendo o de um antigo medicamento. Mas alguém pode perfeitamente ouvir uma pessoa dizer que determinada coisa “não vale um Cibazol” sem imaginar que aquela expressão nasceu do nome de um produto que um dia esteve nas prateleiras das farmácias.

E talvez esteja aí a parte mais interessante dessa história.

A farmácia mudou, o medicamento desapareceu, mas o Cibazol continuou circulando — só que agora pelas palavras.

Entre tantas expressões regionais que ajudam a construir a riqueza da língua portuguesa falada no Brasil, “não vale um Cibazol” é um pequeno exemplo de como a cultura, a medicina, a publicidade e a linguagem popular podem se misturar e produzir uma memória que atravessa gerações.

No fim das contas, o Cibazol pode até ter desaparecido das farmácias.

Mas, para a língua popular, ele continua valendo alguma coisa.

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