Em 1912, o farmacêutico português Eduardo Augusto Gonçalves desembarcou no Brasil em busca de novas oportunidades.

Antes de criar o próprio produto, passou por Manaus, onde aprendeu técnicas farmacêuticas trabalhando na fabricação do polvilho antisséptico da Granado — justamente uma empresa que, anos mais tarde, se tornaria concorrente da criação que mudaria sua vida.
Depois estabeleceu-se em Joinville, em Santa Catarina. Durante anos, realizou inúmeros testes até chegar a uma fórmula simples, eficiente e acessível, composta por apenas três ingredientes principais: óxido de zinco, responsável por proteger a pele; cloreto de benzalcônio, com ação antisséptica; e cânfora, conhecida pelo efeito refrescante e pelo alívio das dores e irritações.
Em 1915, registrou oficialmente a fórmula da Pomada Minâncora.
Naquela época, sem recursos para investir em publicidade, o próprio Eduardo Augusto Gonçalves percorria rios e estradas vendendo as pequenas latas de porta em porta. A divulgação acontecia da forma mais eficiente que existia: o boca a boca. Quem experimentava recomendava aos parentes, amigos e vizinhos. Assim, pouco a pouco, a Minâncora conquistou o Brasil.
Nas décadas seguintes, a marca cresceu acompanhando a evolução dos meios de comunicação. Passou pelos anúncios em jornais e revistas, conquistou espaço no rádio, na televisão e ficou marcada por campanhas publicitárias memoráveis, incluindo patrocínios em programas de Silvio Santos e Gugu Liberato, além dos comerciais protagonizados pela inesquecível Cláudia Jimenez.
Enquanto o mundo mudava, uma característica permanecia praticamente inalterada: a fórmula da pomada.
Em 1991, Lourdes Maria Duarte, bisneta do fundador, assumiu a direção da empresa e promoveu uma profunda modernização administrativa, profissionalizando áreas como marketing, produção e vendas.
No ano seguinte, a tradicional lata metálica deu lugar à embalagem plástica, reduzindo custos de fabricação. Em 1997, a empresa ampliou sua atuação entrando no segmento de cosméticos. Em 2011, firmou uma parceria nacional de distribuição com a Sanofi e, em 2024, atualizou pela primeira vez a tradicional imagem da deusa Minerva presente no rótulo, além de investir em campanhas voltadas ao público jovem nas redes sociais, como o TikTok.
A embalagem mudou. A comunicação mudou. O público mudou. O mundo mudou.
Mas a fórmula continua essencialmente a mesma desde 1915.
Talvez seja justamente esse um dos maiores méritos da Minâncora: soube acompanhar os novos tempos sem perder sua identidade.
Mais do que um produto, ela acabou se tornando parte da memória afetiva de inúmeras famílias brasileiras.
Quando a Minâncora foi lançada, em 1915, meu trisavô Ernst ainda era vivo. Meu bisavô Rudolf tinha apenas quinze anos de idade e meu avô ainda nem havia nascido — viria ao mundo somente em 1930.
Décadas depois, eu também conheci a pomada ainda na infância. Cresci vendo aquele pequeno pote em casa e continuo utilizando o produto até os dias de hoje.
É curioso pensar que um mesmo objeto pôde estar presente na vida de tantas gerações de uma mesma família. Pessoas nasceram, cresceram, envelheceram e partiram, enquanto aquela simples pomada permaneceu atravessando o tempo, acompanhando pais, filhos, netos e bisnetos.
Provavelmente o mesmo aconteceu em milhares de lares brasileiros.
A Minâncora não é um caso isolado. Existem diversos produtos que conseguiram vencer a passagem do tempo, tornando-se testemunhas silenciosas da história de diferentes famílias. Eles permanecem enquanto as gerações se sucedem, despertando lembranças da infância, dos avós, das antigas casas e dos pequenos hábitos cotidianos que acabam construindo nossas memórias.
Sua trajetória também deixa uma importante lição para o mundo dos negócios.
Empresas como Kodak e Blockbuster possuíam marcas fortíssimas e lideravam seus respectivos mercados. No entanto, não conseguiram acompanhar as transformações do mundo e perderam espaço.
A Minâncora seguiu um caminho diferente. Modernizou a gestão, renovou a embalagem, ampliou sua distribuição, dialogou com novos públicos e utilizou as tecnologias de cada época. Ao mesmo tempo, preservou aquilo que realmente sustentava sua reputação: a qualidade e a confiança em sua fórmula.
Talvez seja esse o verdadeiro segredo de permanecer por mais de um século: compreender que inovar não significa abandonar a própria essência, mas adaptá-la aos novos tempos sem perder aquilo que conquistou a confiança de tantas gerações.
