Macaco Tião: Ícone Carioca e Prefeito Sátira

Quem viveu no Rio de Janeiro nos anos 1980 com certeza se lembra de uma das figuras mais ilustres, irreverentes e, por que não, “politizadas” da cidade: o Macaco Tião.

O macaco Tião em sua jaula no Zoológico do Rio | Foto de Augusto Yunes/Agência O GLOBO
O macaco Tião em sua jaula no Zoológico do Rio | Foto de Augusto Yunes/Agência O GLOBO

Longe de ser apenas mais um animal no Zoológico do Rio (atual BioParque), Tião se tornou um verdadeiro ícone da cultura carioca, misturando o puro suco do deboche carioca com uma das maiores sátiras políticas da história do Brasil.

O Morador Ilustre da Quinta da Boa Vista

Nascido em 1963, o chimpanzé Tião era conhecido por sua personalidade fortíssima. Com mais de 1,50 metros de altura e pesando cerca de 70 quilos, ele não era exatamente o tipo de macaco que ficava fazendo gracinhas para agradar a multidão. Pelo contrário: Tião tinha um temperamento “ranzinza” que o público adorava provocar.

Seu comportamento no zoológico era lendário. Ele era famoso por sua mira impecável ao arremessar contra os visitantes — e contra autoridades que tentavam posar para fotos perto de sua jaula — tudo o que estivesse ao seu alcance: lama, pedaços de grama, frutas amassadas e, sim, seus próprios dejetos. Quanto mais importantes eram as pessoas na comitiva, mais Tião parecia se esforçar no arremesso. Esse jeito rebelde e “anti-sistema” acabou criando uma identificação imediata com a população.

Tião para Prefeito: O Auge do Deboche Carioca

Campanha vote no Macaco Tião lançada pelo Casseta Popular na eleição para prefeitura do de Janeiro de 1988 como forma de protesto. Quatrocentos mil eleitores escolheram Tião para prefeito Foto: Divulgação
Campanha vote no Macaco Tião lançada pelo Casseta Popular na eleição para prefeitura do de Janeiro de 1988 como forma de protesto. Quatrocentos mil eleitores escolheram Tião para prefeito Foto: Divulgação

O ápice da fama de Tião aconteceu em 1988. O Brasil vivia os primeiros anos da Redemocratização, e o cenário político para a prefeitura do Rio de Janeiro estava repleto de candidatos que não inspiravam a menor confiança na população.

Percebendo o descontentamento geral, a equipe da famosa revista de humor Casseta Popular (que mais tarde daria origem ao grupo Casseta & Planeta) lançou uma campanha satírica genial: Macaco Tião para Prefeito.

Com o slogan “Vote em Tião, para não votar em nenhum ladrão”, a brincadeira viralizou de uma forma sem precedentes. Como na época o voto ainda era impresso e em cédula de papel, os eleitores precisavam escrever o nome do seu candidato de próprio punho.

Capa do Segundo Caderno de 31 de outubro de 1988 | Acervo O GLOBO
Capa do Segundo Caderno de 31 de outubro de 1988 | Acervo O GLOBO

O Resultado Histórico: O Macaco Tião recebeu cerca de 400 mil votos, alcançando a impressionante marca de 3º candidato mais votado naquela eleição.

Obviamente, os votos foram considerados nulos pelo Tribunal Regional Eleitoral, mas o recado da população foi dado. Tião entrou para o Guinness Book (Livro dos Recordes) como o chimpanzé a receber mais votos no mundo.

O Legado de um Ícone

Apesar da fama de “protestador”, Tião era muito bem cuidado e amado pelos funcionários do zoológico. Ele adorava tomar refrigerante direto da garrafa e tinha uma rotina que, tirando os dias de fúria contra os vidros de sua jaula, era bastante tranquila.

O macaco Tião faleceu em 23 de dezembro de 1996, aos 33 anos, devido a complicações de diabetes. A cidade do Rio de Janeiro decretou luto oficial de três dias e as bandeiras do zoológico foram hasteadas a meio mastro — uma honraria raramente concedida a um animal, mas totalmente justa para o maior símbolo do espírito irreverente carioca.

Hoje, uma estátua de bronze em tamanho real de Tião decora o zoológico do Rio, garantindo que as futuras gerações conheçam a história do chimpanzé que, sem dizer uma única palavra, conseguiu protestar melhor do que qualquer ser humano.

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