Juarez Machado: o catarinense que desenhava na TV e conquistou o mundo

Juarez Machado

Quando se fala em Juarez Machado, muita gente talvez se lembre imediatamente de um personagem de rosto pintado de branco, roupa extravagante e movimentos silenciosos que aparecia na televisão brasileira. Outros podem lembrar de suas pinturas, de seus desenhos ou simplesmente do nome que se tornou conhecido muito além das fronteiras do Brasil.

Mas existe uma história muito maior por trás daquele personagem.

Juarez Machado foi pintor, desenhista, escultor, caricaturista, ilustrador, cenógrafo, fotógrafo, escritor, ator e mímico. Um verdadeiro artista múltiplo que transitou por diferentes linguagens e conseguiu transformar o humor, o cotidiano e a imaginação em uma marca pessoal inconfundível.

Nascido em Joinville, Santa Catarina, em 16 de março de 1941, Juarez construiu uma carreira que começou no Sul do Brasil, passou pelo Rio de Janeiro, ganhou dimensão internacional em Paris e acabou levando o nome de sua cidade natal para diferentes partes do mundo.

E talvez uma das partes mais curiosas de sua trajetória esteja justamente na televisão.

De Joinville para o mundo

A relação de Juarez Machado com a arte começou cedo.

Ainda jovem, ele já demonstrava interesse pelo desenho e pelas artes visuais. Aos 18 anos, mudou-se para Curitiba, onde estudou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Foi ali que começou a desenvolver profissionalmente aquilo que, desde criança, parecia ser uma vocação.

Em 1964, realizou sua primeira exposição individual, na Galeria Cocaco, em Curitiba.

Pouco depois, veio uma mudança importante: o Rio de Janeiro.

Na então capital cultural do país, Juarez entrou em contato com jornais, revistas, artistas, escritores, atores e profissionais da televisão. Trabalhou como ilustrador e chargista e chegou a assinar a coluna de humor “Nonsense”, no Jornal do Brasil.

Era apenas o começo.

O dia em que o desenho ganhou vida na televisão

Imagine a televisão brasileira dos anos 1970.

Não havia internet, redes sociais ou vídeos curtos. A televisão era uma das principais formas de entretenimento das famílias brasileiras.

Foi nesse cenário que Juarez Machado apareceu no Fantástico, da TV Globo.

Seu quadro, exibido entre 1974 e 1978, era algo bastante diferente do que o público estava acostumado a assistir.

Juarez aparecia caracterizado, com o rosto pintado de branco, e fazia mímica enquanto interagia com os próprios desenhos.

Ele era, como gostava de se definir, um “desenhista do gesto”.

Não precisava de grandes diálogos. O humor estava no movimento, no traço e na surpresa.

Segundo a Memória Globo, as apresentações terminavam muitas vezes com Juarez desenhando uma linha, uma estrada, uma passarela ou uma trilha de pegadas e caminhando por ela até desaparecer da tela.

Era uma ideia simples — e justamente por isso, genial.

O artista não apenas mostrava o desenho. Ele entrava dentro dele.

E ele não estava apenas na frente das câmeras

Essa talvez seja uma das curiosidades menos conhecidas sobre Juarez Machado.

Embora tenha ficado popular diante das câmeras, sua participação na televisão brasileira foi muito maior.

Durante anos, ele trabalhou nos bastidores da Globo, participando de núcleos de criação e humor e desenvolvendo vinhetas, aberturas, cenários e figurinos.

Seu trabalho passou por programas como Faça Humor Não Faça Guerra, Balança Mas Não Cai e Balão Mágico. Também participou da produção visual de videoclipes e musicais de artistas como Elis Regina, Roberto Carlos, Raul Seixas e Emílio Santiago.

Ou seja: mesmo quando não aparecia na tela, havia uma boa chance de Juarez Machado estar ajudando a construir aquilo que o telespectador estava vendo.

Uma curiosidade envolvendo Roberto Carlos

Juarez também esteve ligado ao primeiro Roberto Carlos Especial, exibido pela Globo em 1974.

A atração, que se tornaria uma das maiores tradições da televisão brasileira, contou com a participação do artista plástico catarinense, ao lado de nomes como Erasmo Carlos, Antônio Marcos e Paulo Gracindo.

É mais uma daquelas conexões que mostram como a trajetória de Juarez estava presente em diferentes momentos importantes da televisão brasileira.

Um livro que contava uma história sem usar palavras

A criatividade de Juarez não se limitava à televisão.

Em 1975, ele lançou Ida e Volta, uma obra particularmente interessante porque praticamente elimina aquilo que normalmente esperamos encontrar em um livro: o texto.

A história é construída por meio de imagens e pegadas, acompanhando o percurso de uma pessoa em suas atividades cotidianas.

É como se o leitor fosse convidado a seguir os passos do personagem e descobrir a história sem que ninguém precisasse explicar o que estava acontecendo.

Essa capacidade de contar histórias sem depender das palavras ajuda a entender por que Juarez conseguiu transitar tão bem entre desenho, mímica, ilustração, televisão e pintura.

De Joinville a Paris

Depois de conquistar espaço no Brasil, Juarez Machado decidiu ampliar seus horizontes.

Fez viagens internacionais e passou por cidades como Nova York e Londres até chegar a Paris, onde estabeleceu residência e ateliê.

A partir daí, sua carreira ganhou uma dimensão ainda maior.

Paris não apagou suas raízes catarinenses.

Ao contrário: Joinville continuou sendo uma parte importante de sua identidade.

Seu nome permaneceu ligado à cidade e à cultura de Santa Catarina, enquanto suas obras passaram a circular por diferentes países.

O próprio Instituto Internacional Juarez Machado resume essa trajetória em três cidades: Joinville, Rio e Paris.

O artista que levou Joinville consigo

Existe algo particularmente interessante na história de Juarez Machado para quem gosta de conhecer personagens ligados à história de Santa Catarina.

Ele nasceu em Joinville, mas sua carreira ultrapassou rapidamente os limites do estado.

Foi para Curitiba estudar. Depois, mudou-se para o Rio de Janeiro. Mais tarde, chegou a Paris.

Mesmo assim, Joinville continuou sendo uma espécie de porto de origem.

Em 2015, recebeu a Medalha do Mérito Princesa Dona Francisca, considerada a maior honraria concedida pelo município por suas contribuições à cidade.

E foi também em Joinville que nasceu uma importante iniciativa para preservar sua produção e aproximar o público de sua obra: o Instituto Internacional Juarez Machado.

Instalado na cidade, o instituto funciona como espaço de preservação, exposição e divulgação da trajetória do artista.

Uma obra marcada pelo humor e pelo cotidiano

Quem observa a produção artística de Juarez Machado percebe que o humor nunca esteve muito distante.

Suas obras frequentemente apresentam personagens, situações do cotidiano, boemia, movimento, encontros e, especialmente, a figura humana.

Existe uma característica teatral em muitos de seus trabalhos.

Talvez isso ajude a explicar por que ele transitava tão naturalmente entre pintura, desenho, mímica, cenografia e televisão.

Para Juarez, aparentemente, as diferentes formas de arte não eram caixas separadas.

Eram diferentes maneiras de contar uma história.

Mais do que um artista de televisão

É fácil lembrar de Juarez Machado como aquele homem que aparecia no Fantástico fazendo mímica e interagindo com seus desenhos.

Mas reduzir sua trajetória a esse personagem seria deixar de lado uma parte enorme de sua história.

Ele construiu uma carreira de mais de seis décadas, recebeu reconhecimento no Brasil e no exterior e trabalhou em uma quantidade impressionante de áreas.

Foi pintor.

Foi desenhista.

Foi ilustrador.

Foi escultor.

Foi caricaturista.

Foi cenógrafo.

Foi escritor.

Foi fotógrafo.

Foi ator.

E foi, acima de tudo, um artista que não parecia disposto a escolher apenas uma forma de expressão.

A despedida de um artista que já havia deixado sua marca

Juarez Machado morreu em 6 de outubro de 2026, aos 85 anos, em Vassouras, no interior do Rio de Janeiro. A notícia foi confirmada pelo Instituto Internacional Juarez Machado.

Mas talvez o mais importante, ao lembrar sua trajetória, não seja falar sobre sua morte.

É falar sobre aquilo que permaneceu.

Os desenhos permanecem. As pinturas permanecem. As imagens da televisão permanecem. As histórias permanecem. E permanece também o nome de um catarinense que saiu de Joinville e conseguiu fazer sua arte chegar muito além do Brasil.

Para quem viveu a televisão dos anos 1970, Juarez Machado talvez seja uma lembrança de um tempo em que bastavam um desenho, alguns movimentos e muita criatividade para prender a atenção de milhões de pessoas.

Para as novas gerações, sua história pode servir como descoberta.

E talvez essa seja uma das melhores maneiras de preservar um artista: continuar falando sobre ele.

Você se lembra de Juarez Machado na televisão?

Você assistia ao Fantástico naquela época? Lembra do personagem que interagia com os próprios desenhos?

Conte nos comentários qual é a sua lembrança de Juarez Machado. E, se este texto trouxe alguma memória ou curiosidade que você não conhecia, compartilhe com alguém que também viveu a televisão brasileira dos anos 1970.

Para quem quiser conhecer mais

Uma boa maneira de continuar essa viagem pela obra do artista é conhecer o Instituto Internacional Juarez Machado, em Joinville, que preserva e divulga sua trajetória.

Também vale procurar nos arquivos da Memória Globo os registros do quadro de Juarez Machado no Fantástico. É uma oportunidade interessante de ver — décadas depois — como aquele artista conseguiu transformar um simples desenho em personagem de televisão.

 

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