“Integralistas! Assine os jornais…” — o anúncio em alemão que revela uma página esquecida de Blumenau

Quando pensamos na história de Blumenau e do Vale do Itajaí nas décadas de 1930 e 1940, é comum lembrarmos da forte presença da cultura alemã, das sociedades, dos jornais em língua alemã e das tradições trazidas pelos imigrantes.

Mas existe um capítulo político dessa história que hoje pode parecer surpreendente.

Blumenau foi também um dos locais onde a Ação Integralista Brasileira (AIB) encontrou forte adesão.

Um pequeno anúncio publicado em alemão, encontrado em um antigo exemplar do Blumenauer Zeitung, ajuda a revelar um pouco desse cenário.

O texto dizia:

“Integralistas! Assine os jornais de seus correligionários e anuncie neles: ‘Alvorada’ e ‘Blumenauer Zeitung’.”

Por trás de poucas linhas existe uma história muito maior: a expansão do Integralismo no Sul do Brasil, sua presença entre descendentes de imigrantes europeus e a intensa disputa política que marcou a década de 1930.

A chegada dos “camisas-verdes”

A Ação Integralista Brasileira, fundada em 7 de outubro de 1932 por Plínio Salgado, surgiu em um período de grande instabilidade política no Brasil.

O movimento defendia um nacionalismo forte, o princípio da autoridade, valores conservadores e o combate ao comunismo e ao liberalismo. Sua inspiração fazia parte do ambiente político autoritário e nacionalista que ganhou força em diferentes países durante o período entre as duas guerras mundiais.

Os integrantes da AIB ficaram conhecidos popularmente como “camisas-verdes”, devido ao uniforme utilizado pelo movimento.

A aparência era facilmente reconhecível: camisa e boné verde, calças pretas ou brancas e gravata preta.

Mas o Integralismo não se limitava à roupa.

O movimento possuía uma estrutura organizada, núcleos locais, atividades públicas, manifestações, desfiles e uma forte simbologia própria. A saudação “Anauê!” tornou-se uma de suas marcas mais conhecidas.

Por que o Integralismo encontrou espaço no Sul?

É aqui que a história começa a ficar especialmente interessante.

Durante a década de 1930, o Sul do Brasil possuía uma enorme quantidade de comunidades formadas por imigrantes europeus e seus descendentes.

Em Santa Catarina, especialmente no Vale do Itajaí e no Norte do Estado, havia comunidades de origem alemã que preservavam língua, costumes, associações, igrejas e jornais em alemão.

A AIB percebeu a importância dessas comunidades.

O movimento apresentava-se como uma alternativa nacionalista brasileira, defendendo que os descendentes de imigrantes poderiam manter muitos de seus costumes e tradições culturais, mas dentro de um projeto político nacional brasileiro.

E é justamente nesse contexto que o pequeno anúncio do Blumenauer Zeitung ganha importância.

Um anúncio que fala mais do que parece

Propaganda Integralista
Propaganda no Blumenau Zeitung do Jornal Alvorada (Jornal da AIB – Acção Integralista Brasileira), editado por Ferreira da Silva

O anúncio é curto.

“Integralistas! Assine os jornais de seus correligionários e anuncie neles: ‘Alvorada’ e ‘Blumenauer Zeitung’.”

À primeira vista, pode parecer apenas uma propaganda para incentivar assinaturas.

Mas o documento revela algo importante: a utilização da imprensa como instrumento de organização e divulgação política.

O Blumenauer Zeitung, tradicional publicação em língua alemã, aparece associado no anúncio ao Alvorada, jornal ligado ao movimento integralista.

Ou seja, os jornais não eram apenas meios de transmitir notícias.

Eram também espaços de formação de opinião, mobilização e comunicação com os simpatizantes.

Para quem pesquisa a história das antigas comunidades de imigração alemã, esse pequeno recorte é particularmente interessante porque mostra como a política nacional chegou ao cotidiano dessas comunidades.

Integralismo e nazismo eram a mesma coisa?

Essa é uma questão importante — e que merece cuidado.

Embora o Integralismo brasileiro tivesse características autoritárias e inspiração em movimentos fascistas europeus, ele não era simplesmente uma extensão do nazismo alemão.

Na década de 1930, havia inclusive uma disputa por influência dentro de algumas comunidades de origem alemã no Brasil.

De um lado, organizações ligadas ao nazismo alemão, que defendiam uma identidade e uma ligação política com a Alemanha.

De outro, os integralistas apresentavam uma proposta de nacionalismo brasileiro, buscando incorporar diferentes grupos de origem europeia a um projeto político nacional.

Por isso, a presença de um anúncio integralista em um jornal em alemão não significa, por si só, que o jornal ou seus leitores fossem nazistas.

O documento revela justamente a complexidade daquele período.

“Deus, Pátria e Família”

A propaganda integralista utilizava símbolos e palavras de forte apelo naquele contexto.

Deus, Pátria e Família tornou-se uma das expressões associadas ao movimento.

O discurso valorizava a religião cristã, a família, a autoridade, o nacionalismo e o combate ao comunismo.

Essas ideias encontravam terreno favorável em parcelas mais conservadoras da sociedade, inclusive entre famílias rurais e urbanas das comunidades de imigração do Sul.

A AIB também buscou ampliar sua participação política para além dos homens. As mulheres tiveram espaço dentro da organização, algo que ajudou a ampliar a presença social do movimento.

Blumenau e a força dos camisas-verdes

Blumenau não foi uma exceção.

Segundo a obra Blumenau – arte, cultura e as histórias de sua gente (1850–1985), a cidade contou com milhares de adeptos da Ação Integralista Brasileira.

O movimento local teria sido liderado por Alberto Stein, descrito na obra como ex-comandante da Marinha Mercante e comerciante.

Ainda segundo a publicação, a AIB chegou a eleger onze dos quinze vereadores e quatro juízes de paz, demonstrando a expressiva força política alcançada pelo movimento naquele período.

A sede da organização em Blumenau ficava na então Alameda Dr. Blumenau, atual Rua Duque de Caxias.

Mas talvez o dado mais impressionante seja outro.

A mesma fonte registra que, em determinada ocasião, a Ação Integralista Brasileira teria conseguido reunir cerca de quinze mil adeptos em Blumenau, em uma concentração que teria sido uma das maiores manifestações políticas realizadas em Santa Catarina naquele período.

É um número que ajuda a dimensionar o tamanho que o movimento chegou a alcançar na cidade.

Quando a política também ocupava as ruas

A força do Integralismo não aparecia somente nas urnas ou nos jornais.

Ela também estava nas ruas.

Desfiles, uniformes, bandeiras, símbolos, cerimônias e concentrações públicas faziam parte da estratégia de mobilização da AIB.

A imagem dos camisas-verdes marchando pelas ruas tornou-se uma das representações mais marcantes do movimento.

Havia também organizações destinadas à juventude, conhecidas como plinianos, em referência ao líder Plínio Salgado.

Essa utilização de símbolos, uniformes e rituais ajudava a criar uma identidade coletiva entre os participantes.

Em uma época anterior à televisão e à internet, jornais, cartazes, reuniões públicas e grandes concentrações eram ferramentas fundamentais para disseminar ideias políticas.

Jornal Correio do Povo - Integralistas
Jornal Correio do Povo, edição 1388 página 4 de 17 de outubro de 1946

O Estado Novo muda completamente o cenário

A expansão integralista, entretanto, não duraria indefinidamente.

Em 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas instaurou o Estado Novo, regime autoritário que fechou o Congresso Nacional e concentrou poderes no governo federal.

Pouco depois, em 2 de dezembro de 1937, o Decreto-Lei nº 37 dissolveu os partidos políticos existentes, atingindo também a Ação Integralista Brasileira.

O curioso é que os próprios integralistas, que haviam apoiado inicialmente alguns aspectos do governo Vargas e esperavam conquistar maior espaço político, acabariam entrando em confronto com o regime.

Em maio de 1938, setores integralistas participaram de uma tentativa de tomar o poder, conhecida como Levante Integralista, que fracassou.

A partir daí, a repressão ao movimento se intensificou.

E havia ainda outro capítulo: a Campanha de Nacionalização

Para as comunidades de origem alemã do Sul, o final da década de 1930 trouxe uma transformação ainda maior.

O governo Vargas passou a implementar uma política de nacionalização, especialmente intensa a partir de 1938.

O uso público de idiomas estrangeiros, inclusive o alemão, passou a sofrer fortes restrições. Escolas, associações, igrejas e jornais das comunidades de imigração foram atingidos por essas medidas.

Assim, o mesmo universo cultural que havia permitido a circulação de jornais em alemão durante décadas começou a desaparecer ou a ser profundamente transformado.

O pequeno anúncio do Blumenauer Zeitung, portanto, pertence a um mundo que estava prestes a mudar radicalmente.

Um pequeno recorte, uma grande história

É justamente isso que torna documentos antigos tão fascinantes.

Às vezes, um simples anúncio de poucas linhas consegue abrir uma janela para uma época inteira.

Aquele pequeno texto publicado em alemão nos permite enxergar uma Blumenau diferente da que conhecemos hoje.

Uma Blumenau onde a língua alemã ainda fazia parte do cotidiano, onde os jornais eram importantes instrumentos de comunicação e onde milhares de pessoas participavam de um movimento político que hoje é lembrado principalmente por sua simbologia e por seu papel na história política brasileira.

Mais do que discutir a política daquela época, preservar documentos como esse significa entender como era a sociedade que existia antes de nós.

E é justamente esse tipo de registro que ajuda a reconstruir a memória do Vale do Itajaí.

Você conhecia essa história?

Você já tinha ouvido falar da força que a Ação Integralista Brasileira alcançou em Blumenau e em outras cidades do Vale do Itajaí?

E talvez ainda mais interessante: você conhece fotografias, jornais, documentos ou histórias de familiares que tenham alguma relação com esse período?

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Um pequeno documento guardado em uma gaveta pode esconder uma história que ainda não conhecemos.

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