
Essa foto é um verdadeiro tesouro histórico! Ela registra o exato momento em que a modernidade do início do século XX (o trem) cruzava com o Brasil colonial do século XVII. Essa linha férrea era a antiga Estrada de Ferro Rio d’Ouro, que no passado transportava água e passageiros e, com o tempo, deu lugar aos carros na atual Avenida Governador Leonel Brizola.
A Igreja de Nossa Senhora do Pilar, localizada no bairro do Pilar em Duque de Caxias, é um dos monumentos mais importantes — e muitas vezes esquecidos — da história do Rio de Janeiro e do Brasil.
A História: O Coração do Recôncavo Baiano… no Rio?
Embora a Baixada Fluminense seja associada hoje à área urbana, no período colonial a região do antigo vilarejo de Merity era um polo agrícola e comercial pulsante.
Por Filipo Tardim – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, Hiperligação
O início da construção em 1612 e a inauguração em 1696 mostram que o templo levou décadas para ser erguido, um reflexo da riqueza que começou a circular ali. A igreja ficava estrategicamente perto do Rio Pilar. Naquela época, os rios eram as “rodovias” do Brasil. Era por ali que passava grande parte do açúcar e, mais tarde, o ouro vindo de Minas Gerais em direção ao porto do Rio de Janeiro.
O templo tornou-se a sede da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar do Iguaçu, uma das mais ricas da região, frequentada por fazendeiros abastados e nobres.
Curiosidades que Pouca Gente Sabe
O Tombamento Histórico: A igreja foi tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 1938, logo nos primeiros anos de existência do órgão. Ela foi reconhecida pelo seu valor arquitetônico incomum para a região.
- Arquitetura Barroca Rara: Ao olhar para a fachada, você nota uma única torre sineira à direita. O estilo é o barroco jesuítico, robusto e simples por fora, mas com detalhes fascinantes por dentro. Ela mantém o mesmo visual de séculos atrás porque suas paredes grossas foram feitas de pedra, cal e óleo de baleia.
- O Mistério do Interior: No seu auge, o interior da igreja era riquíssimo, com talhas de madeira dourada no estilo Dom João V. Infelizmente, ao longo dos séculos, o templo sofreu com saques e abandono, perdendo parte de suas imagens sacras originais, mas a estrutura e o altar-mor ainda impressionam quem a visita.
- Caminho do Ouro: A estrada que passava em frente à igreja (e que depois virou linha de trem e hoje é avenida) fazia parte de uma das variantes do Caminho Novo da Estrada Real. Viajantes, tropeiros e a realeza paravam ali para rezar e pedir proteção contra os perigos das matas e dos salteadores.
- O Cemitério de Escravizados e Nobres: Como era costume na época, os arredores e o subsolo da igreja serviram de cemitério. Figuras importantes da elite local foram enterradas sob o piso do templo, enquanto os escravizados e a população mais pobre eram sepultados no entorno.
Ver a Avenida Leonel Brizola hoje, movimentada e urbana, torna difícil imaginar que o silêncio daquele mesmo lugar já foi quebrado pelo barulho dos cascos dos cavalos do Brasil Colônia e, depois, pelo apito do trem de 1907. A Igreja do Pilar resistiu a todas essas transformações como uma testemunha silenciosa da nossa história.
A história da Estrada de Ferro Rio d’Ouro e a sua relação com a Igreja do Pilar ajudam a explicar como o meio de transporte mais moderno do século XIX acabou moldando o traçado urbano de Duque de Caxias, transformando caminhos de ferro em asfalto.
A trajetória dessa linha férrea e o seu impacto na região revelam fatos fascinantes:
Da Água para o Café: A Origem da Rio d’Ouro
Diferente de outras ferrovias que nasceram para transportar café ou passageiros, a Estrada de Ferro Rio d’Ouro foi construída na década de 1870 por uma necessidade vital: abastecer a cidade do Rio de Janeiro com água.
A capital do Império sofria com graves crises de abastecimento e epidemias. O governo imperial decidiu captar água nas mananciais da Baixada Fluminense (na Serra do Tinguá e arredores). Para transportar os pesados tubos de ferro, os operários e os materiais de construção até as represas, foi criada a linha férrea.
Logo após a conclusão das obras de captação, percebeu-se o potencial da ferrovia, e ela passou a transportar passageiros e a produção agrícola da Baixada.
O Trem ao Lado da Igreja do Pilar
O ramal que passava exatamente ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Pilar era o Ramal de Xerém (ou linhas auxiliares conectadas), que cortava as antigas terras coloniais de Merity.
- O Contraste de 1907: Na foto que você mencionou, de 1907, a ferrovia já estava sob o controle do governo republicano. Ver o trem passar colado às paredes coloniais da igreja era o símbolo máximo da transição do Brasil: o templo representava o passado agroexportador, fluvial e escravocrata; os trilhos representavam o progresso industrial e o avanço da urbanização.
- A Parada do Pilar: Havia uma circulação intensa de trens de carga e pequenos trens de passageiros (conhecidos popularmente como “marias-fumaça” ou “trens de subúrbio” primitivos) que ajudaram a povoar os bairros ao longo da linha.
Dos Trilhos à Avenida Governador Leonel Brizola
Com o passar das décadas, o transporte rodoviário começou a ser priorizado no Brasil, e os investimentos nas linhas de trens de carga de bitola estreita (como a Rio d’Ouro) despencaram.
- O Fim da Linha: O Ramal de Xerém e outros trechos da Rio d’Ouro foram gradativamente desativados entre as décadas de 1960 e 1970.
- A Transformação em Avenida: Como o leito da ferrovia já era um caminho plano, despropriado e que conectava o centro de Caxias a outros distritos e municípios vizinhos, os trilhos foram arrancados para dar lugar a uma grande estrada de rodagem.
- Ela se tornou a Avenida Presidente Kennedy e, posteriormente, recebeu o nome de Avenida Governador Leonel Brizola (trecho da RJ-101).
Hoje, quando os carros, ônibus e caminhões passam em alta velocidade pela avenida, cruzando em frente à Igreja do Pilar, estão literalmente refazendo o mesmo caminho que as locomotivas a vapor faziam no início do século passado e que os tropeiros do ouro faziam a cavalo no século XVIII.
