Hoje, votar no Brasil é relativamente simples: o eleitor chega à seção eleitoral, apresenta seus documentos, digita os números dos candidatos na urna eletrônica e confirma suas escolhas. Poucas horas depois do encerramento da votação, os resultados já começam a ser conhecidos.
Mas você já imaginou como era esse processo antes da popularização dos computadores? Durante décadas, os brasileiros precisavam votar utilizando cédulas de papel, depositadas em urnas tradicionais. Depois, vinha uma das etapas mais trabalhosas de todo o processo: a contagem manual dos votos.
Em muitos casos, a espera pelos resultados era longa, exigindo o trabalho de inúmeras pessoas durante horas, dias e até períodos maiores, dependendo da eleição e das dificuldades encontradas na apuração.
Em 2026, a urna eletrônica brasileira completa 30 anos desde sua estreia nas eleições municipais de 1996. A data é uma boa oportunidade para recordar como os brasileiros votavam antigamente e conhecer as mudanças que transformaram a maneira de escolher nossos representantes.

Como os brasileiros votavam antes da urna eletrônica?
Antes da informatização da votação, o papel era o principal instrumento utilizado para registrar a escolha dos eleitores.
O procedimento variava conforme a época, a legislação eleitoral e o tipo de eleição. De maneira geral, o eleitor recebia uma cédula, registrava seu voto conforme as instruções e depositava o documento em uma urna lacrada.
Em muitos pleitos, essas urnas eram feitas de lona ou de outros materiais utilizados para armazenar as cédulas até o encerramento da votação.
Imagine uma seção eleitoral de algumas décadas atrás: eleitores aguardando sua vez, mesários organizando o atendimento e uma urna física recebendo os votos ao longo do dia. Não havia uma tela para digitar números nem um sistema eletrônico para contabilizar automaticamente cada escolha.
Cada voto precisava ser registrado em papel e, posteriormente, conferido e contabilizado por pessoas.
A simplicidade aparente desse procedimento escondia uma operação bastante trabalhosa, especialmente nas eleições com milhões de eleitores e muitos candidatos.
O que acontecia depois que a votação terminava?
Encerrado o período de votação, começava uma das etapas mais importantes — e demoradas — do processo eleitoral: a apuração.
As cédulas precisavam ser recolhidas, organizadas e examinadas pelos responsáveis pela contagem. Cada voto válido deveria ser identificado e atribuído ao candidato ou à legenda correspondente, conforme as regras eleitorais.
O trabalho exigia atenção redobrada. Uma grande quantidade de documentos precisava ser analisada, e os resultados tinham de ser registrados e consolidados para que a Justiça Eleitoral pudesse divulgar os números oficiais.
Em eleições com grande volume de votos, a tarefa se tornava ainda mais complexa.
Era necessário mobilizar equipes, organizar os locais de apuração, conferir os registros e encaminhar os resultados das diferentes seções eleitorais. Todo esse processo dependia intensamente do trabalho humano.
Por que a contagem demorava tanto?
A principal razão era a própria natureza do procedimento: os votos precisavam ser examinados e contabilizados manualmente antes da consolidação dos resultados.
Quanto maior o número de eleitores e de cédulas, maior era o volume de trabalho.
Além disso, eventuais dúvidas sobre a validade de uma cédula, divergências nos registros ou dificuldades logísticas podiam tornar a apuração ainda mais lenta.
Em determinadas eleições, a população precisava acompanhar as notícias durante um longo período até conhecer os resultados definitivos.
É importante lembrar, porém, que a informatização não aconteceu de uma única vez. Antes da chegada da urna eletrônica, a Justiça Eleitoral já vinha utilizando computadores para organizar cadastros, registrar informações e agilizar etapas da totalização dos resultados.
Ou seja, a modernização começou antes de 1996, mas ainda havia uma diferença fundamental: o voto podia continuar sendo contado manualmente, mesmo quando os resultados eram posteriormente processados por computadores.
As dificuldades e os riscos do voto em papel
O sistema baseado em cédulas apresentava desafios que iam além da demora.
Como diversas etapas dependiam da manipulação e da conferência de documentos físicos, havia possibilidades de erros humanos, extravios e tentativas de manipulação.
A história eleitoral brasileira registra diferentes modalidades de fraude, desde problemas relacionados ao cadastro de eleitores até irregularidades na votação e na apuração.
Uma das práticas conhecidas ficou popularmente chamada de “urna grávida”. A expressão era utilizada para descrever situações em que cédulas já preenchidas eram introduzidas indevidamente em uma urna antes do início regular da votação, fazendo parecer que havia votos depositados sem a participação dos eleitores.
Também existiam riscos de adulteração de cédulas, contagens incorretas e alterações nos registros durante as etapas de consolidação dos resultados.
Isso não significa que toda eleição realizada em papel fosse fraudulenta. Significa que o modelo apresentava vulnerabilidades que exigiam fiscalização, procedimentos de conferência e mecanismos para reduzir a interferência indevida.
A criação da Justiça Eleitoral, em 1932, representou um marco na organização e na fiscalização das eleições brasileiras. Nas décadas seguintes, diferentes iniciativas buscaram aperfeiçoar o processo eleitoral e diminuir as possibilidades de irregularidades.
A informatização começou antes de 1996
Embora a urna eletrônica seja o símbolo mais conhecido da modernização eleitoral brasileira, sua criação foi resultado de um processo gradual.
Ao longo das décadas de 1980 e 1990, a Justiça Eleitoral ampliou o uso de computadores e sistemas informatizados. O objetivo era melhorar a organização dos dados, modernizar os cadastros e tornar mais eficiente a administração das eleições.
Em 1986, por exemplo, foi realizada uma revisão do eleitorado com armazenamento informatizado dos registros de milhões de brasileiros.
Posteriormente, a apuração e a totalização também passaram por mudanças importantes.
Nas eleições de 1994, os resultados já eram totalizados eletronicamente, embora a contagem das cédulas continuasse manual. Essa distinção ajuda a compreender a transformação que ainda estava por vir: informatizar a divulgação dos resultados não era a mesma coisa que informatizar o próprio ato de votar.
Experiências regionais também contribuíram para o desenvolvimento da tecnologia. Em Santa Catarina, por exemplo, foram realizados testes com votação informatizada, incluindo uma experiência no município de Xaxim, nas eleições municipais de 1995.
Esses esforços ajudaram a preparar o caminho para a implantação de um sistema eletrônico em escala nacional.
1996: o ano em que a urna eletrônica estreou
O grande marco aconteceu nas eleições municipais de 1996.
Foi naquele ano que a urna eletrônica brasileira começou a ser utilizada em larga escala. Inicialmente conhecida como Coletor Eletrônico de Votos (CEV), a máquina foi desenvolvida para automatizar o registro dos votos e facilitar a apuração.
A estreia não ocorreu simultaneamente em todas as cidades brasileiras. Naquele primeiro momento, a votação eletrônica foi utilizada em 57 municípios, alcançando aproximadamente um terço do eleitorado da época.
Entre os locais contemplados estavam as capitais dos estados e municípios com mais de 200 mil eleitores, além de Brusque, em Santa Catarina.
A mudança representou uma ruptura importante com o modelo tradicional. Em vez de preencher uma cédula de papel, o eleitor passou a registrar suas escolhas diretamente em um equipamento eletrônico.
O teclado numérico, semelhante ao de um telefone, tornou-se uma das características mais marcantes da nova experiência.
A urna também permitia automatizar a contabilização dos votos, reduzindo a necessidade de contar individualmente milhares de cédulas.
A novidade não significava apenas uma mudança de equipamento: era uma transformação na maneira de registrar, apurar e totalizar os resultados eleitorais.
A implantação aconteceu gradualmente
Depois da estreia em 1996, a votação eletrônica foi ampliada nas eleições seguintes.
Nas eleições gerais de 1998, o sistema chegou a um número ainda maior de eleitores, incluindo aqueles que votavam para presidente da República, governadores, senadores e deputados.
O passo decisivo aconteceu nas eleições municipais de 2000.
Naquele ano, o Brasil realizou sua primeira eleição com votação eletrônica em todo o país, encerrando a transição para o novo modelo de votação.
A partir daí, a urna eletrônica passou a fazer parte da rotina eleitoral brasileira.
Quem viveu essa mudança talvez se lembre da curiosidade despertada pelo equipamento, do teclado numérico e da orientação dos mesários para os eleitores que utilizavam a novidade pela primeira vez.
Para as gerações mais jovens, por outro lado, votar diretamente em uma máquina sempre pareceu algo natural.
O que mudou com a urna eletrônica?
A principal transformação foi a automatização do registro e da apuração dos votos.
No modelo anterior, cada cédula precisava ser examinada e contabilizada. Com a urna eletrônica, os votos passaram a ser registrados digitalmente, e o equipamento passou a produzir os resultados da seção ao término da votação.
Essa mudança trouxe benefícios importantes.
1. Mais rapidez na apuração
A contabilização eletrônica reduziu significativamente o tempo necessário para conhecer os resultados. Em vez de depender da contagem manual de grandes volumes de cédulas, a Justiça Eleitoral passou a dispor de dados processados eletronicamente.
2. Menos etapas de manipulação manual
A automatização diminuiu a dependência de pessoas para interpretar e contabilizar individualmente os votos, reduzindo riscos associados a erros de contagem e a determinadas modalidades de fraude.
3. Padronização do processo
O registro eletrônico estabeleceu procedimentos uniformes para a votação, facilitando a organização e a consolidação dos resultados.
4. Mais recursos de fiscalização
A modernização também foi acompanhada pelo desenvolvimento de mecanismos de verificação, fiscalização e auditoria dos sistemas eleitorais. A transparência depende não apenas da tecnologia, mas também dos procedimentos que permitem conferir e fiscalizar seu funcionamento.
É importante destacar que a tecnologia não elimina a necessidade de fiscalização. Sistemas eleitorais precisam ser avaliados, testados e acompanhados por mecanismos que permitam verificar sua integridade.
A urna eletrônica também evoluiu
A máquina utilizada em 1996 não era idêntica aos modelos atuais.
Ao longo dos anos, a Justiça Eleitoral promoveu mudanças no equipamento, nos sistemas e nos procedimentos de votação e apuração.
Foram introduzidos aperfeiçoamentos tecnológicos, recursos de acessibilidade e mecanismos destinados a fortalecer a fiscalização do processo eleitoral.
A própria experiência acumulada em cada eleição contribuiu para identificar necessidades e aprimorar os equipamentos.
Por isso, quando falamos dos 30 anos da urna eletrônica, não estamos falando apenas da permanência de uma máquina, mas da evolução contínua de uma estrutura tecnológica utilizada em eleições de grande dimensão.
O sistema brasileiro também passou a contar com instrumentos como a zerésima, documento emitido antes do início da votação para demonstrar que a urna não possui votos registrados naquele momento, e o Boletim de Urna, que apresenta os resultados da seção após o encerramento da votação.
Esses procedimentos integram um conjunto mais amplo de medidas de controle e fiscalização.
Você se lembra das eleições antes da urna eletrônica?
A comparação entre o passado e o presente mostra como uma mudança tecnológica pode transformar uma atividade fundamental da vida pública.
Antes, o eleitor depositava sua cédula em uma urna física e precisava aguardar o trabalho de inúmeras pessoas para que os votos fossem contados e os resultados consolidados.
Hoje, a votação e a apuração eletrônicas permitem que os resultados sejam conhecidos muito mais rapidamente.
Trinta anos depois da estreia, a urna eletrônica já faz parte da memória de diferentes gerações de brasileiros. Para quem acompanhou as primeiras eleições com o novo sistema, 1996 representa uma lembrança de mudança. Para quem nasceu depois, o voto eletrônico é simplesmente a forma habitual de participar das eleições.
A história, porém, mostra que essa transformação foi construída ao longo de décadas, com experiências, mudanças administrativas e avanços tecnológicos.
Conhecer esse percurso é uma maneira de compreender melhor não apenas a evolução das eleições, mas também os desafios envolvidos na organização de um processo que precisa registrar, com fidelidade, a escolha de milhões de cidadãos.
Conclusão: da cédula de papel ao voto eletrônico
A urna eletrônica completa 30 anos em 2026, e sua trajetória representa um dos capítulos mais importantes da modernização do processo eleitoral brasileiro.
A passagem das cédulas de papel para a votação eletrônica mudou a maneira de registrar os votos, acelerou a apuração e reduziu a dependência da contagem manual.
Mas essa história também serve para lembrar que a evolução eleitoral não aconteceu de uma hora para outra. Foram necessárias décadas de experiências, aperfeiçoamentos e mudanças para chegar ao sistema utilizado atualmente.
Fontes e links adicionais
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Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Guia da Urna: histórico do desenvolvimento e da implantação da urna eletrônica. Consultar o Guia da Urna.
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TSE — Conheça a evolução da urna eletrônica: de 1996 a 2024: informações sobre as etapas de implantação e os aperfeiçoamentos do equipamento. Ler a retrospectiva histórica.
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Agência Senado — 30 anos da urna eletrônica: contexto histórico sobre a implantação do sistema e os debates que acompanharam a mudança. Ler a reportagem especial
E você, lembra como eram as eleições antes da urna eletrônica? Chegou a votar utilizando cédulas de papel ou acompanhou alguma apuração que demorou dias para apresentar os resultados?
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