Central do Brasil, lugar conhecido por alguns e desconhecido por outros, admirado por uns e temido por outros, para alguns é caminho obrigatório no dia-a-dia, enfim, um lugar cheio de histórias e curiosidades.
Provavelmente você já esteve no edifício ou já passou por lá, mas provavelmente não conhece tudo sobre este local histórico!
História
Nas primeiras décadas do século XIX, durante a regência de Diogo Antônio Feijó (conhecido como Regente Feijó ou Padre Feijó que era um sacerdote católico e estadista brasileiro), logo após a invenção da primeira locomotiva por George Stephenson, foi promulgado o Decreto nº 101, de 31 de Outubro de 1835, iniciando a construção de ferrovias.
Este foi o ponto inicial para o Brasil iniciar uma trajetória histórica expressiva no transporte ferroviário.
Para começar a falar sobre a Central do Brasil, vamos retornar a um ponto antes da existência da própria Central do Brasil, quando no local existia a Igreja de Santana ou Igreja de Santa Ana, conforme descrevem alguns livros.

Em 1840, o governo imperial, sob a regência do Marquês de Olinda, considerou imprópria a velha igreja para a categoria de sede da Matriz. Achava que a Matriz de Santa Ana deveria ser mais suntuosa, e em lugar mais amplo. A seguir a Cia. Estrada de Ferro Dom Pedro II (depois E. F. Central do Brasil) necessitou do terreno onde estava a igreja, para levantar ali a estação inicial de sua linha. Em 1850 iniciou-se a construção da nova igreja na Rua de Santana.
A linha da Estrada de Ferro começava em um dos extremos da Praça da Aclamação, entre as ruas General Pedra e do Príncipe, mais tarde denominada Senador Pompeu. Por causa desta localização, para a instalação da estação, foi necessário demolir a igreja paroquial de Santana, construída em 1735.
A escolha do local, ao lado do Quartel do Campo da Aclamação (onde atualmente se encontra o prédio do Palácio Duque de Caxias), muito provavelmente tenha sido de forma estratégica para gerar segurança ao local já que haveria aglomeração de multidões.
Desta estação partiriam locomotivas unificando o comércio de mercadorias, em especial o café, nas províncias mais prósperas do Império: Rio, São Paulo e Minas Gerais.

Em 1858 foi inaugurada a Estrada de Ferro Dom Pedro II tendo como estação terminal a “Estação do Campo”.
Posteriormente o nome foi alterado para “Estação da Corte”, depois “Estação Dom Pedro II” e desde 1971 “Estação Central do Brasil” em alusão a antiga e extinta ferrovia Central do Brasil da RFFSA.
No ato da inauguração, foi realizada a primeira viagem que teve como passageiros D. Pedro II e sua família, num percurso total de 47 quilômetros até a cidade de Queimados.
A frota inicial era composta por 40 vagões de passageiros, 100 vagões de carga e um total de 10 locomotivas.
Em 1869, o comendador Mariano Procópio empreendeu algumas reformas e a estação ganhou mais dois andares para atender às demandas da época.
Foi reformado anos mais tarde e teve a parte central do edifício reconstruída em 1871.
O prédio recebeu o nome de Dom Pedro II em 1925, ano do centenário do nascimento do Imperador.


Foto aérea (acima) tomada por volta de 1930 mostrando que a estação ficava em posição diagonal à avenida (posteriormente alargada em toda a sua extensão) e à frente do Campo de Santana. As plataformas eram perpendiculares à fachada da estação e cobertas por um telhado comprido e largo (Acervo Biblioteca Nacional).

Em fevereiro de 1938, foi inaugurada a eletrificação da linha da Central até Belém (Japeri). Em função das obras na estação Dom Pedro II, apenas os trens eletrificados partiam desta estação. Os trens a vapor passaram a partir da estação de Alfredo Maia.
Na década de 1940 a antiga construção foi demolida para a expansão do sistema ferroviário e também para a passagem da Av. Presidente Vargas, quando então foi erguido o prédio atual.
Apenas no dia 14 de junho de 1941, todos os trens voltaram a sair da plataforma da nova estação ainda inacabada.

Cabe ainda ressaltar que a própria estrada de ferro, ao longo de sua existência, sofreu diversas alterações na sua denominação, conforme vemos a seguir:
– Estrada de Ferro Dom Pedro II (1858-1889)
– Estrada de Ferro Central do Brasil (1889-1975)
– RFFSA – Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (1975-1997)
– Supervia (1997-Até hoje)
A inauguração oficial do Prédio foi em 29 de março de 1943, sendo um grande acontecimento cívico que contou com a presença de um representante do Presidente da República, do Ministério da Viação e Obras Públicas, Gal. João Mendonça Lima e do diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil, Major Napoleão de Alencastro Guimarães que, instalados num palanque especialmente erguido para festejar a ocasião acionaram uma chave que colocou em funcionamento o relógio.
Atualmente, da Estação Central do Brasil, partem diversas linhas conectando o Centro aos bairros da Zona Norte e Oeste do Rio de Janeiro assim como a diversos municípios da Baixada Fluminense, inclusive a linha de Saracuruna cuja qual originalmente partia da Estação Barão de Mauá, por esta pertencer à antiga estrada de Ferro Leopoldina.
Alguns anos atrás existia também um ramal para a Estação Marítima, que foi desativada e abandonada. No local, atualmente, se encontra a Cidade do Samba.

A estação de Marítima foi inaugurada em 1880. O ramal, que tinha pouco mais de 1 km e servia apenas para o transporte e depósito das cargas que chegavam de trem para embarque no Porto do Rio de Janeiro.

Na foto acima, a estação Marítima, à direita, e sua posição relativa à estação Dom Pedro II, em 1910. Aí podem se notar os túneis, sob o Morro da Providencia e o Morro da Favela (ou da Formiga). A estação ainda era a antiga, pequena. A Avenida Presidente Vargas não existia.
Atualmente este túnel será utilizado para a passagem do VLT Carioca.
O edifício
O Edifício da Central do Brasil é um arranha-céu com uma torre, de seção quadrada e 135 metros de altura, distribuídos em 30 pavimentos. A torre é escalonada em 3 patamares, sendo o primeiro do térreo ao 19º pavimento, o segundo do 20º ao 26º pavimento e o terceiro do 27º ao 30º pavimento. O relógio de quatro faces, com imensos ponteiros com iluminação, ocupa as fachadas entre o 21º e o 26º pavimento.
É uma construção de estilo Art déco localizado em plena Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro. É considerado um dos marcos da verticalização dos centros urbanos brasileiros e, junto com o Edifício Martinelli, Edifício Joseph Gire (A Noite) e o Edifício Altino Arantes, forma o conjunto dos primeiros arranha-céus brasileiros.
Foi a maior estrutura de concreto armado do mundo até a construção do Edifício Altino Arantes, São Paulo.
O prédio abriga também a Secretaria de Estado de Segurança, do atual Secretário José Mariano Beltrame.

Curiosidades
No ano de 2011 a estação Central do Brasil e seu histórico relógio foram homenageados pelos Correios com um selo comemorativo.

No dia 13 de março de 1964 ocorreu o famoso Comício da Central em frente à Estação da Central do Brasil com a presença de cerca de 150 mil pessoas para escutar as palavras do Presidente da República, João Goulart.
O famoso relógio da Central do Brasil é maior que Big Ben, de Londres. O dos ingleses mede 7 metros, enquanto os brasileiros têm 10 metros em cada face.
Em 1997, a estação foi cenário do filme Central do Brasil, em que a atriz Fernanda Montenegro faz o papel de uma mulher que ganha a vida na gare escrevendo cartas ditadas por analfabetos.
Não pense que os problemas de segurança e atrasos são fatos recentes. Estes são problemas antigos. Tanto que em 1940, os compositores Arthur Villarinho e Stanislau da Silva, fizeram o samba “O trem atrasou” que foi gravado por Roberto Paiva. Veja um trecho deste:
Patrão, o trem atrasou
Por isso estou chegando agora
Trago aqui um memorando da central
O trem atrasou meia hora
O senhor não tem razão
Para me mandar embora!
Fotos





Vídeos
Documentário “Vida Carioca – Um dia na Central”, com cenas do cotidiano dos usuários da Estrada de Ferro Central do Brasil na cidade do Rio de Janeiro nos anos 50. Cenas de trens e estações
Em 13 de março de 1964, Jango discursou na Central do Brasil para 150 mil pessoas. Ele anunciou reformas, como a nacionalização de refinarias de petróleo e a desapropriação de terras para a implementação da reforma agrária, numa tentativa desesperada de conseguir apoio popular.
FlashMob realizado na Estação da Central do Brasil (Rio de Janeiro) no dia 16 de maio de 2013, com a performance da Orquestra e Côro da Escola de Música da UFRJ do “Maracatu de Chico-Rei” de Francisco Mignone, como intervenção urbana integrada à campanha “Quero Educação Musical na Escola”.
Bibliografia e Referências
- Estações Ferroviárias do Brasil – Estação D. Pedro II
- Estações Ferroviárias do Brasil – Estação Marítima
- Estação Central do Brasil
- Central do Brasil e seu histórico relógio são homenageados pelos Correios
- Ramal e Estação Marítima da Gamboa
- Discurso de João Goulart no comício de 13 de março de 1964
- O Rio de Janeiro. Sua História, Monumentos, Homens Notáveis, Usos e Curiosidades – de Moreira de Azevedo.
- Memória histórica da Estrada de Ferro Central do Brasil.
- Das vanguardas à tradição: arquitetura, teatro e espaço urbano.
- Rio de Janeiro, sua história, monumentos, homens notáveis, usos e curiosidades.
- O Rio de Janeiro do Bota-Abaixo.

Saudações. Excelente texto.
Saberia me dizer onde encontrar arquivos da Central do Brasil relativos aos funcionários, mas primeiras décadas do séc XX? Procuro fotos de parentes. Grato
Infelizmente não sei lhe orientar. Talvez na RFFSA.