Existem cemitérios que chamam a atenção não apenas por sua história, mas também pela singularidade de sua existência. Ao redor do mundo há exemplos dedicados a animais, como o conhecido Cemitério de Pássaros da Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. Em Blumenau, Santa Catarina, um dos locais mais curiosos é o Cemitério dos Gatos, criado por iniciativa de Edith Gaertner, uma mulher muito à frente de seu tempo e profundamente ligada aos animais.

Nascida em Blumenau em 22 de março de 1882, Edith Gaertner era sobrinha-neta de Hermann Bruno Otto Blumenau (1819–1899), fundador da cidade. Dona de uma personalidade independente para os padrões da época, aos 20 anos viajou para a Alemanha, onde estudou na Academia de Arte Dramática de Berlim. Posteriormente, percorreu importantes cidades europeias, apresentando-se nos mais renomados teatros do continente.
Em 1924, retornou a Blumenau para cuidar de seus irmãos enfermos. A partir de então, sua vida tornou-se mais reservada. Cercada por livros, plantas e animais, encontrou em sua residência um verdadeiro refúgio, onde viveu até o fim de seus dias.
Algum tempo depois, ao saber que parte de sua propriedade — um dos mais expressivos remanescentes da colonização alemã na cidade — poderia ser desapropriada para a abertura de uma nova rua, Edith tomou uma decisão que garantiria a preservação daquele patrimônio. Doou ao município uma área de 1.775 m², impondo como condição que o local permanecesse exatamente como ela o havia organizado, assegurando sua tranquilidade durante a vida e a conservação do conjunto após sua morte.
Edith Gaertner faleceu em 15 de setembro de 1967. Sua residência, o horto e as demais benfeitorias foram incorporados ao patrimônio público e deram origem ao atual Museu da Família Colonial e ao Parque Botânico Edith Gaertner, importantes espaços de preservação da história e da memória de Blumenau.
Entre suas maiores paixões estavam os gatos. Edith registrava em fotografias tanto as flores de seu jardim quanto seus inseparáveis companheiros felinos. O carinho que dedicava aos animais era tão grande que, quando um deles morria, organizava um pequeno funeral, acompanhado de cortejo até um espaço reservado em seu jardim, onde era realizado o sepultamento.
Foi assim que surgiu o hoje famoso Cemitério dos Gatos, um pequeno e delicado memorial onde repousam alguns de seus companheiros de estimação: Pepito, Mirko, Bum, Peterle, Musch, Schnurr, Sittah, Putze e Mirl. Cada sepultura recebeu uma pequena lápide com o nome do animal, preservando até hoje a memória daqueles que fizeram parte de sua vida.
Ao longo das décadas, esse inusitado cemitério transformou-se em uma das curiosidades mais conhecidas de Blumenau, despertando a atenção de visitantes e da imprensa. O local tornou-se atração turística justamente por representar uma rara demonstração do profundo vínculo afetivo entre uma pessoa e seus animais de estimação, algo pouco comum para a época.
O legado de Edith permanece vivo na cidade. Além do parque botânico que leva seu nome, existe também a Sala de Teatro Edith Gaertner, localizada na Fundação Cultural de Blumenau, e parte de sua trajetória foi retratada no longa-metragem Outra Memória, dirigido por Chico Faganello.

Curiosidade
Em 2000, o Cemitério dos Gatos ganhou projeção nacional ao ser apresentado em uma reportagem exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, levando essa curiosa história a milhões de brasileiros.
Visitação
O Cemitério dos Gatos está localizado dentro do complexo do Museu da Família Colonial, na Alameda Duque de Caxias, nº 64 (Rua das Palmeiras), no centro de Blumenau (SC), podendo ser visitado juntamente com os demais atrativos históricos e culturais do local.

