Canhão El Cristiano: História, Curiosidades e a Polêmica do Troféu de Guerra

O canhão “El Cristiano” é uma das peças mais simbólicas e controversas da história militar da América do Sul. Exposto no pátio do Museu Histórico Nacional (MHN), no centro do Rio de Janeiro, ele voltou aos holofotes devido às recorrentes tratativas diplomáticas e apelos do governo paraguaio pela sua restituição como patrimônio histórico nacional.

El Cristiano
“El Cristiano”, no Museu Histórico Nacional em 2015

A Origem: Feito do Bronze de Sinos de Igreja

Durante a Guerra do Paraguai, com o bloqueio naval imposto pela Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), o Paraguai ficou isolado e sem acesso à importação de matérias-primas e armamentos modernos.

Diante do desespero por artilharia pesada para defender a posição estratégica da Fortaleza de Humaitá (conhecida como a “Sebastopol da América do Sul”), o presidente Francisco Solano López ordenou o recolhimento de bronze de todo o país.

  • A doação sagrada: Sinos de dezenas de igrejas paraguaias foram derretidos no Fundição de Ybycuí e no Arsenal de Assunção para fornecer o metal necessário.

  • O nome: Exatamente por ter sido forjado a partir do bronze de sinos de templos católicos, a peça recebeu o nome batismal de “El Cristiano”.

Gigante da Artilharia: Fatos Técnicos

Engenhada pelo britânico Michael Hunter, a peça era um verdadeiro monstro de bronze para a época:

Característica Detalhe
Peso total Cerca de 12 toneladas
Calibre 10 polegadas (projetada para disparar projéteis de aproximadamente 50 kg)
Função Defesa costeira/fluvial para impedir o avanço dos encouraçados brasileiros no Rio Paraguai
Fabricação Concluída em 1867

A Queda e a Captura em Humaitá

Em 1868, após um longo cerco e com o avanço das forças da Tríplice Aliança, a Fortaleza de Humaitá acabou caindo. As forças brasileiras, lideradas pelo Marquês de Caxias, capturaram dezenas de peças de artilharia paraguaias.

Pelo seu tamanho expressivo e valor simbólico, El Cristiano foi enviado ao Rio de Janeiro — então capital do Império do Brasil — como o principal troféu de guerra da campanha.

Por que El Cristiano ainda gera debate?

“Para o Brasil, o canhão é um registro histórico do esforço e sacrifício da maior guerra da América do Sul. Para o Paraguai, representa um símbolo de resistência e uma relíquia sacra cujos metais pertenciam às suas comunidades.”

A repatriação de troféus de guerra é um tema complexo no direito internacional e na diplomacia cultural:

  1. Reivindicação Paraguaia: O governo paraguaio defende que o canhão é patrimônio cultural do país e que sua devolução seria um gesto fundamental de reparação e fraternidade entre as nações.

  2. Posição Museológica do Brasil: Historiadores e órgãos do patrimônio brasileiro ressaltam a importância da preservação da memória militar nacional, além de apontarem que o acervo faz parte da narrativa do próprio Museu Histórico Nacional desde a sua fundação em 1922. O artefato está no Brasil desde 1870.

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