Poucos personagens brasileiros conseguiram unir de maneira tão curiosa o mundo dos negócios, da televisão, do circo, dos cavalos e da fantasia infantil quanto Beto Carrero. Para muitas crianças que cresceram entre as décadas de 1980 e 2000, bastava aparecer na televisão aquele homem de chapéu, roupa de vaqueiro, botas e montado em seu cavalo para que todos soubessem quem estava chegando: o cowboy brasileiro que transformou um sonho de infância em um dos maiores parques temáticos do país. Por trás do personagem estava João Batista Sérgio Murad, empresário, publicitário, artista e empreendedor que construiu uma trajetória bastante singular.

João Batista nasceu em 9 de setembro de 1937, em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, em uma família humilde. Filho de Alexandre Murad e Florentina Cândida de Jesus, foi um dos 11 filhos do casal. Desde menino, alimentava um sonho aparentemente impossível: queria ser uma espécie de “Zorro brasileiro” e trabalhar em um parque de diversões. Cresceu em ambiente rural e desde cedo teve contato com cavalos, rodeios e com a vida do campo, elementos que mais tarde seriam incorporados à personalidade de seu personagem.
O nome artístico também tem uma história curiosa. Seu pai era conhecido pelo apelido de “Carrero”, por trabalhar conduzindo um carro de boi. João Batista aproveitou a referência familiar e, depois de passar por algumas variações, chegou ao nome que se tornaria famoso em todo o Brasil: Beto Carrero. O próprio personagem acabou se transformando em uma espécie de extensão de sua personalidade e de seus sonhos de infância.
Antes de se tornar o famoso cowboy, porém, Beto Carrero teve uma vida profissional bastante diversificada. Aos 18 anos, ingressou no rádio, apresentando o “Programa do Beto Carrero”, ligado à música sertaneja e ao humor. Também trabalhou como vendedor de anúncios e, posteriormente, entrou no mundo da publicidade. Seu talento para comunicação e negócios fez com que sua agência de propaganda alcançasse grande destaque, chegando a figurar entre as maiores do país.
Foi justamente através da publicidade e dos meios de comunicação que Beto Carrero começou a se aproximar cada vez mais do mundo artístico. Estabeleceu contatos com grandes nomes da televisão brasileira e teve participação importante em projetos ligados a artistas como Renato Aragão e Os Trapalhões. Sua capacidade de promover espetáculos e eventos ajudou a transformar o personagem Beto Carrero em uma marca conhecida nacionalmente.
O nascimento do cowboy brasileiro
Na década de 1980, o personagem Beto Carrero ganhou vida própria. Vestido como um cowboy do Velho Oeste, usando chapéu, botas e montado a cavalo, João Batista Sérgio Murad passou a se apresentar em rodeios, feiras, exposições e espetáculos por todo o Brasil e também no exterior. Em apresentações gravadas para rádio e televisão, especialmente em Santa Catarina, o público passou a associar definitivamente aquele homem de chapéu branco ao personagem que havia criado.
E foi aí que surgiu uma das imagens mais marcantes de Beto Carrero: o cowboy montado em seu cavalo. O animal que ficou especialmente famoso foi Faísca, que acompanhou Beto em inúmeras apresentações. A relação entre o empresário e os cavalos fazia parte essencial do personagem e ajudava a criar aquela atmosfera de herói que encantava principalmente as crianças. Depois da morte de Beto, a família decidiu preservar Faísca e interromper sua participação nos espetáculos por um período, tamanha era a associação do animal com seu antigo dono.
Para uma geração inteira, Beto Carrero não era apenas um empresário. Era um personagem de televisão. Sua presença em programas populares fazia parte do imaginário infantil brasileiro. Ele aparecia chegando a cavalo, participando de apresentações, conversando com artistas e divulgando seus espetáculos. Em uma época anterior à explosão das redes sociais, a televisão era uma das principais formas de tornar uma personalidade conhecida em todo o país — e Beto soube utilizar esse meio como poucos.
Blumenau entrou na história
Mas existe um capítulo especialmente interessante nessa trajetória que talvez seja desconhecido por muita gente: o sonho de Beto Carrero poderia ter se realizado em Blumenau.
A relação de João Batista Sérgio Murad com a cidade começou muito antes da construção do parque em Penha. Ligado ao setor publicitário, ele atendia empresas catarinenses e chegou a instalar um escritório da JBA Murad em Blumenau no início da década de 1980. A cidade e a região também foram importantes para a divulgação de seu trabalho artístico.
Blumenau chegou a ser considerada como possível sede para o grande parque de diversões que Beto Carrero pretendia construir. Uma das áreas cogitadas ficava na região da antiga Companhia Jensen, na Itoupava Central. Segundo relatos publicados posteriormente, o projeto envolvia a possibilidade de aquisição de parte do terreno e a necessidade de melhorias no Aeroporto Quero-Quero, entre outras condições.
A ligação de Beto com Blumenau era ainda mais profunda. Na cidade, a carpintaria Loth, pertencente ao empresário Hugo Loth, chegou a produzir cenários, carroças, palcos e outros equipamentos utilizados nos espetáculos itinerantes de Beto Carrero. Durante aproximadamente uma década, aquele espaço às margens da BR-470 funcionou como uma espécie de oficina para a construção do universo do cowboy. Também eram realizados ensaios e apresentações para convidados, algumas delas com a presença do famoso cavalo branco de Beto.
Beto chegou a cogitar outras cidades da região, como Gaspar e Balneário Piçarras. Gaspar tinha importância especial porque ele mantinha uma fazenda onde seus cavalos eram cuidados. No fim das contas, entretanto, foi Penha que acabou oferecendo condições mais favoráveis para a implantação do empreendimento. A proximidade com o aeroporto e incentivos oferecidos pelo município pesaram na decisão.
E assim Blumenau acabou ficando com uma daquelas histórias que poderiam ter mudado completamente o destino turístico da cidade. O parque que poderia ter surgido no Vale do Itajaí foi construído no litoral norte catarinense.
O parque que começou com muito menos do que conhecemos hoje
Em 28 de dezembro de 1991, nasceu oficialmente o Beto Carrero World, em Penha. O empreendimento inicial era muito diferente do gigantesco complexo que conhecemos atualmente. Havia algumas atrações, brinquedos, apresentações e duas grandes lonas de circo. Com o passar dos anos, o espaço foi crescendo, recebendo novos brinquedos, shows, áreas temáticas e atrações.
O crescimento do parque foi também resultado da experiência de Beto como publicitário. Ele entendia que não bastava construir atrações: era preciso criar uma história, uma identidade e um motivo para as pessoas quererem conhecer aquele lugar.
O próprio Beto Carrero era parte fundamental dessa estratégia. O visitante não encontrava apenas brinquedos. Encontrava o universo do cowboy, com cavalos, personagens, espetáculos, vilas temáticas, circo e aventuras. O homem que havia passado anos aparecendo na televisão agora podia ser encontrado pessoalmente em seu próprio mundo de fantasia.
Uma das atrações chegou a utilizar um sósia do próprio Beto Carrero. Em uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 1997, o sósia aparecia durante o assalto ao trem da atração Dinomagic, surgindo para salvar os passageiros. Isso mostra como a imagem do cowboy já havia se tornado tão reconhecível que podia ser incorporada às próprias atrações do parque.
A história dos sósias continuaria cercada de curiosidades. Após a morte de Beto, em 2008, chegou a ser cogitada a realização de um concurso de sósias para manter viva a imagem do personagem. Ao mesmo tempo, a administração do parque chegou a afirmar que Beto não deveria simplesmente ser substituído por outra pessoa nos tradicionais desfiles, justamente porque sua presença era considerada única.
Um empresário que também era personagem
Talvez uma das maiores genialidades de João Batista Sérgio Murad tenha sido compreender o poder de transformar sua própria história em espetáculo.
Ele não criou apenas uma marca chamada Beto Carrero. Criou um personagem que tinha rosto, roupa, voz, cavalo, histórias e uma personalidade facilmente reconhecida. O empresário e o personagem praticamente se confundiam.
Beto Carrero também levou sua marca para diferentes meios. Houve apresentações circenses, shows, participações na televisão, cinema, revistas em quadrinhos e inúmeros eventos pelo país. Sua imagem se tornou tão conhecida que, para muitas pessoas, era difícil separar o homem João Batista do cowboy Beto Carrero.
E talvez seja justamente isso que explique por que ele ficou tão marcado na memória de quem foi criança naquela época. Antes de ser lembrado como empresário, Beto Carrero era lembrado como aquele personagem que aparecia na televisão montado a cavalo e parecia ter saído diretamente de um filme de faroeste.
O fim da trajetória
João Batista Sérgio Murad morreu em 1º de fevereiro de 2008, aos 70 anos, após complicações decorrentes de uma cirurgia. Sua morte encerrou a trajetória do homem, mas não a do personagem nem a do sonho que havia construído.
Naquele dia, milhares de pessoas se despediram do empresário e artista. O parque continuou funcionando, numa demonstração simbólica de que o espetáculo criado por Beto Carrero deveria continuar. Posteriormente, sua memória ganhou espaço dentro do próprio parque, com um memorial dedicado à sua trajetória.
E se o parque tivesse sido construído em Blumenau?
Essa talvez seja uma das perguntas mais curiosas que ficaram para a história.
É impossível saber como seria Blumenau hoje caso o projeto tivesse sido aceito. Talvez a cidade tivesse se tornado ainda mais forte no turismo familiar. Talvez o parque tivesse mudado sua própria configuração urbana e econômica. Ou talvez o empreendimento tivesse tomado outro rumo.
O que sabemos é que Blumenau fez parte da história de Beto Carrero antes mesmo de existir o parque de Penha. A cidade esteve ligada à sua publicidade, aos seus espetáculos, à fabricação de cenários e equipamentos e, principalmente, esteve entre os locais que poderiam ter recebido seu grande sonho.
No fim, a história tomou outro caminho. O parque foi para Penha, transformou a cidade em um dos principais destinos turísticos de Santa Catarina e fez do nome Beto Carrero uma das marcas mais conhecidas do entretenimento brasileiro.
João Batista Sérgio Murad começou a vida como um menino pobre do interior paulista que sonhava em ser o “Zorro brasileiro”. Tornou-se locutor de rádio, publicitário, empresário, artista, produtor de espetáculos e, finalmente, o personagem que milhões de brasileiros aprenderam a reconhecer simplesmente como Beto Carrero.
Seu maior legado, entretanto, talvez não esteja apenas nos brinquedos, nos shows ou no parque. Está na capacidade de transformar um sonho considerado improvável em realidade.
E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, ainda seja impossível ouvir o nome Beto Carrero sem que muita gente imediatamente imagine aquele homem de chapéu, montado a cavalo, sorrindo para as crianças — o cowboy brasileiro que um dia quase fez sua grande aventura acontecer em Blumenau.
