
Encravada no interior de Braço do Trombudo, a localidade de Serril guarda uma história que, por muito tempo, esteve diretamente ligada aos caminhos que uniam o Vale do Itajaí ao Planalto Serrano. Antes de ser conhecida pelo nome atual, a comunidade era chamada de Serra Alta, uma denominação que fazia referência ao próprio relevo da região.
Segundo o relato da professora Juraci Machado Sell (in memoriam), em entrevista concedida em 2013, os primeiros moradores da localidade teriam sido Jorge Farias e, posteriormente, Oscar Bornhausen. Com o passar dos anos, novos moradores foram chegando e a comunidade começou a se desenvolver, favorecida justamente por sua localização.
Muito antes da abertura da atual BR-470 e das facilidades proporcionadas pelas rodovias modernas, Serra Alta encontrava-se em uma das rotas utilizadas por aqueles que se deslocavam do Vale do Itajaí em direção ao Planalto. Por suas estradas passavam carroceiros, viajantes e tropas de mulas, enfrentando os trechos íngremes e difíceis das serras. Essa posição ajudou a transformar a localidade em um importante ponto de passagem e contribuiu para um período de relativa prosperidade.
O desenvolvimento chegou a ser tão expressivo que, segundo as memórias registradas por Heinz Schroeder em seu livro Desde cedo, chegou-se a imaginar que o centro de Serril pudesse se transformar em uma cidade. Um dos incentivadores desse projeto teria sido Max Mayr, advogado provisionado residente em Rio do Sul. Schroeder conta que Mayr procurava estimular o povoamento da localidade e até mesmo atrair visitantes e romeiros.

Uma das histórias mais curiosas envolvendo Mayr diz respeito à tentativa de instalar uma imagem de Nossa Senhora em um ponto situado abaixo da serra de Corruchel. A intenção, segundo Schroeder, seria também incentivar a visita de religiosos e, consequentemente, contribuir para o desenvolvimento de Serril. Porém, ao ser retirada da carroça, a imagem acabou caindo e quebrando-se, frustrando o projeto.
Schroeder também registrou que Mayr era conhecido popularmente pelo apelido de “Schwindel Mayr”, expressão alemã que poderia ser entendida como “Mayr mentiroso” ou “Mayr trapaceiro”. O próprio autor, entretanto, esclarece que o apelido era utilizado de maneira amistosa, como uma demonstração de intimidade e amizade. Entre as histórias atribuídas ao advogado está ainda uma curiosa defesa criminal, contada por Schroeder como um dos “contos da época”.
Mas Serril não viveu apenas de histórias e caminhos. A localidade conheceu diferentes fases de desenvolvimento econômico. Em determinado período, destacou-se pela exploração da cal, utilizada na construção civil. Também chegou a possuir Agência do Correio, tendo João Buzzi como agente postal, além de uma farmácia — serviços que, segundo Schroeder, existiam na localidade antes mesmo de Braço do Trombudo.
E há ainda uma curiosidade envolvendo o próprio nome da comunidade. Segundo as memórias registradas por Schroeder, a localidade era originalmente chamada de Serra Alta. Durante um período em que diversas localidades tiveram seus nomes modificados, Serra Alta teria sido destinada a outra região, enquanto a comunidade passou a ser chamada de Itati. Nenhum dos dois nomes, porém, teria sido aceito pelas respectivas comunidades. Assim, Itati acabou tornando-se Serril, enquanto a outra localidade passou a ser conhecida como São Bento do Sul. A denominação Serra Alta permaneceu, entretanto, em outros lugares de Santa Catarina.
O próprio caminho que levava até a antiga comunidade também carregava um nome bastante expressivo: o primeiro trecho, antes de chegar à vila, era conhecido como “Serra Miséria”, referência tanto às condições precárias da estrada quanto à pobreza de muitos dos moradores, geralmente posseiros, que viviam às suas margens.
Hoje, o Serril é lembrado também por sua importância religiosa e pela paisagem privilegiada. A comunidade abriga um santuário dedicado à devoção mariana, situado no alto da colina, de onde se descortina uma bela vista do vale.
Conhecer a história do Serril — a antiga Serra Alta — é perceber que as localidades que hoje parecem afastadas dos grandes caminhos já tiveram, em outros tempos, uma importância muito maior. Antes das rodovias, eram os caminhos das serras que determinavam o movimento das pessoas, das mercadorias e das próprias comunidades.
E talvez seja justamente por isso que tantas histórias tenham permanecido por lá: porque, durante muito tempo, quem queria chegar ao Planalto precisava passar por Serra Alta.
Vídeos – História do Serril