Em muitas fotografias e gravuras é comum observar Fritz Müller com um cajado e parecendo se apoiar em uma das pernas.

A observação sobre a postura de Fritz Müller nas fotografias e gravuras é cirúrgica e faz todo o sentido. Há motivos muito práticos, biológicos e até simbólicos para ele ser quase sempre retratado com o seu famoso cajado de madeira.
A observação envolve tanto a saúde física dele quanto a sua rotina no mato.
O Problema Físico: A Lesão na Perna (Elefantiase)
A sua impressão visual está corretíssima. Fritz Müller não usava o cajado apenas como um acessório de caminhada; ele realmente tinha um problema crônico em uma das pernas, que a deixava visivelmente maior, inchada e pesada.
Durante suas andanças e trabalhos de campo na Mata Atlântica e nas praias de Santa Catarina, Müller contraiu elefantíase (filariose linfática), uma doença parasitária transmitida por picada de mosquito que causa o entupimento dos vasos linfáticos e um enorme inchaço nos membros.
O impacto na locomoção: Essa condição afetou gravemente uma de suas pernas. O membro tornou-se progressivamente mais pesado e dolorido, o que alterava sua postura (dando a impressão de uma perna ser maior ou mais curta que a outra devido à compensação do quadril).
O cajado como órtese: O cajado funcionava como uma bengala rústica indispensável. Ele servia para aliviar o peso sobre a perna doente, dar estabilidade ao caminhar e permitir que ele continuasse suas longas jornadas de isolamento na mata, mesmo com a mobilidade reduzida.
A Ferramenta de Trabalho do Naturalista
Para além do problema de saúde, o cajado era a ferramenta de sobrevivência mais versátil de um naturalista do século XIX. Fritz Müller passava dias inteiros embrenhado na floresta densa de Blumenau. O pedaço de madeira servia para:
- Segurança contra animais peçonhentos: Ele usava o cajado para afastar cobras (como jararacas), aranhas e escorpiões antes de pisar em folhas secas ou colocar as mãos em troncos caídos.
- Testar o terreno: Em uma região com relevo acidentado, barro, ribeirões e margens escorregadias do Rio Itajaí-Açu, o cajado era o terceiro ponto de apoio essencial para evitar quedas.
- Alcançar espécimes: Ele utilizava a ponta do cajado para puxar galhos altos, remexer o folhiço no chão ou coletar plantas e insetos sem sofrer acidentes.
O Hábito de Andar Descalço
Outro fator que tornava o cajado ainda mais necessário era o fato de que Fritz Müller costumava caminhar descalço.
Embora fosse um cientista de renome internacional, ele adotou um estilo de vida extremamente simples e integrado à natureza local. Ele dizia que os sapatos europeus eram desconfortáveis para o clima úmido e o terreno da colônia, preferindo sentir o chão. Caminhar descalço pela Mata Atlântica exige uma atenção redobrada com o equilíbrio e com os perigos do solo, tornando o cajado seu protetor constante.
O Simbolismo nas Imagens
Nas poses fotográficas da época (século XIX), as pessoas precisavam ficar completamente estáticas por vários segundos devido ao longo tempo de exposição da câmera. Para Fritz Müller, apoiar-se no cajado não era apenas uma escolha estética para parecer o “velho sábio da floresta”, mas uma necessidade física para conseguir se manter em pé, firme e sem dor, durante o clique do fotógrafo.
Com o tempo, o cajado e os pés descalços viraram os grandes símbolos de sua identidade: o cientista genial que abriu mão das vaidades e das comodidades da Europa para decifrar os segredos da evolução humana no coração da mata catarinense.