Rivers of Babylon: da Bíblia ao reggae e ao fenômeno mundial do Boney M.

Poucas canções conseguiram percorrer uma trajetória tão curiosa quanto “Rivers of Babylon”. Suas raízes estão em textos bíblicos escritos há milhares de anos, mas a canção ganhou uma nova vida na Jamaica do século XX, transformou-se em um clássico do reggae com The Melodians e, poucos anos depois, tornou-se um fenômeno mundial da disco music na voz do Boney M.

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Boney M. – Rivers of Babylon (single de 1978)

A história começa muito antes de qualquer gravação. A letra de “Rivers of Babylon” adapta principalmente passagens do Salmo 137, que retrata o sofrimento dos israelitas durante o exílio na Babilônia. “Às margens dos rios da Babilônia, ali nos sentamos e choramos…” é a imagem central desse antigo lamento, marcado pela saudade de Sião e pela dificuldade de cantar em uma terra estrangeira. A composição também incorpora uma passagem do Salmo 19, estabelecendo uma ligação entre o texto bíblico e a espiritualidade presente na canção.

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Ilustração do pranto junto aos rios da Babilônia, extraída do Saltério de Chludov (século IX). By https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Shakko – File:Chludov_rivers.jpg, Public Domain, Link

Foi na Jamaica que esses antigos versos ganharam uma nova interpretação. Brent Dowe e Trevor McNaughton, integrantes do grupo jamaicano The Melodians, escreveram “Rivers of Babylon”, que foi gravada em 1970. A música estava profundamente ligada à tradição rastafári e apresentava uma leitura contemporânea da antiga história do exílio.

Na linguagem rastafári, “Babilônia” passou a representar sistemas de opressão e estruturas consideradas injustas, enquanto Sião assumia um significado associado à libertação e à esperança, frequentemente relacionado à África. Dessa maneira, um texto bíblico sobre o exílio dos israelitas ganhou também uma dimensão relacionada à experiência de opressão vivida pelos jamaicanos negros e ao pensamento rastafári.

A canção chegou a enfrentar problemas em seu próprio país. Após seu lançamento, referências diretamente ligadas ao Rastafári foram consideradas subversivas pelas autoridades jamaicanas, e a música chegou a ser proibida nas rádios. Posteriormente, a proibição foi suspensa e “Rivers of Babylon” alcançou o primeiro lugar nas paradas jamaicanas.

Um importante passo para sua projeção internacional aconteceu em 1972, quando a gravação dos Melodians foi incluída na trilha sonora do filme jamaicano The Harder They Come, estrelado por Jimmy Cliff. O filme tornou-se uma obra fundamental para a divulgação internacional da música jamaicana, e “Rivers of Babylon” fazia parte de sua histórica trilha sonora.

Mas a história da canção estava apenas começando.

Em 1978, o grupo Boney M. lançou uma nova versão de “Rivers of Babylon”, transformando a composição de raízes reggae e espirituais em uma produção de forte apelo disco. A interpretação alcançou enorme sucesso na Europa e levou a antiga canção de inspiração bíblica a um público muito maior. No Reino Unido, permaneceu por cinco semanas no primeiro lugar e recebeu certificação de platina, tornando-se também um dos singles mais vendidos da história daquele país.

Boney M. in 1976. From L-R: Marcia Barrett, Maizie Williams, Bobby Farrell, Liz Mitchell
Boney M. in 1976. From L-R: Marcia Barrett, Maizie Williams, Bobby Farrell, Liz Mitchell. By Atlantic Records USA – https://www.worthpoint.com/worthopedia/vintage-original-photograph-boney-3844763412https://www.worthpoint.com/worthopedia/vintage-photograph-boney-atlantic-3705072610HQ: https://media.vanityfair.fr/photos/60d343839cdece690321d49f/1:1/w_1920%2Cc_limit/boneymmichael_ochs_archives_getty_images_jpg_8891.jpg, Public Domain, Link

A transformação é particularmente interessante: uma canção inspirada em um lamento de exílio registrado no Salmo 137, reinterpretada pela cultura rastafári na Jamaica, atravessou o universo do reggae e chegou às pistas de dança europeias na era da disco music.

“Rivers of Babylon” é, portanto, muito mais do que uma música de sucesso. É um exemplo de como uma mesma obra pode atravessar séculos, culturas e estilos musicais, mantendo no centro temas como exílio, saudade, fé, opressão, esperança e busca por liberdade.

Dos antigos rios da Babilônia às caixas de som das pistas de dança dos anos 1970, a canção percorreu uma distância impressionante — e mostrou que uma mensagem com milhares de anos ainda poderia encontrar uma nova voz no mundo moderno.

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