Quando iniciei minhas pesquisas sobre a história da família e a construção da árvore genealógica, jamais imaginei que encontraria entre nossos antepassados alguém que tivesse participado de uma guerra. Foi por acaso, ao pesquisar nomes familiares na internet, que encontrei documentos relacionados a um processo de pensão militar em nome do meu tio-avô Harry Thomsen.
Curioso, compartilhei a descoberta com meu pai — e foi então que as lembranças vieram à tona. Ele confirmou que, de fato, o tio Harry havia servido como expedicionário brasileiro na Segunda Guerra Mundial, e que, embora fosse uma história real e marcante, pouco se falava sobre o assunto dentro da família.
Segundo meu pai, isso acontecia porque, conforme relatava minha avó paterna (irmã de Harry), o retorno dele da guerra foi acompanhado de profundas marcas emocionais e psicológicas. O que viveu nos campos de batalha o transformou — e, como muitos outros jovens da época, ele trouxe consigo não apenas memórias, mas também cicatrizes invisíveis.
Podemos apenas imaginar o quanto deve ter sido duro para um jovem, solteiro e longe de casa, enfrentar os horrores de uma guerra em um país estranho, sem saber se voltaria com vida. Meu pai contou que o tio Harry regressou com o olhar cansado, a aparência envelhecida e um semblante de quem havia visto mais do que qualquer ser humano deveria ver. Durante anos, ele teria vivido sob os ecos da guerra — relatos dizem que, em momentos de ansiedade ou medo, costumava se esconder na mata quando pessoas desconhecidas se aproximavam de sua casa.
Hoje, dedico estas palavras à memória do Expedicionário Harry Thomsen, homem que não cheguei a conhecer, mas cuja história merece ser lembrada com respeito e gratidão.
Que esta breve biografia sirva não apenas como um registro familiar, mas também como uma reflexão sobre todos aqueles que, como ele, lutaram bravamente em terras distantes para restaurar a paz. Que jamais esqueçamos o preço que pagaram para que pudéssemos viver em liberdade — e que sua coragem inspire as gerações futuras a valorizar, sempre, o imenso significado da paz.
Um herói silencioso entre a lavoura e a guerra
Nascido em 4 de abril de 1918 no bairro da Velha, em Blumenau, Santa Catarina, Harry Thomsen foi o primogênito de Richard Thomsen e Anna Kaun, e irmão mais velho de minha avó paterna, Salli. De fé luterana e criado no ambiente rural, Harry cresceu entre as tradições germânicas e a vida simples do campo, onde trabalhava como lavrador. No entanto, sua trajetória seria marcada por um capítulo extraordinário que o afastaria da lavoura e o colocaria em meio a um dos maiores conflitos da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial.
Aos 26 anos de idade, Harry atendeu ao chamado da pátria e integrou a Força Expedicionária Brasileira (FEB), partindo do porto do Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1944. Após uma longa viagem pelo Atlântico, chegou ao porto de Nápoles, na Itália, no dia 6 de outubro do mesmo ano. Lá, combatendo em solo europeu, celebrou seu 27º aniversário — longe da família, em meio à dureza da guerra.
O retorno ao Brasil se deu em 22 de agosto de 1945, trazendo consigo não apenas as lembranças de um soldado, mas também as marcas profundas de uma experiência que moldaria o resto de sua vida. Embora não se falasse abertamente sobre isso naquela época, relatos familiares indicam que Harry carregou consigo os fantasmas da guerra, sofrendo de transtornos psicológicos que o acompanharam silenciosamente até o fim de seus dias.
Mesmo assim, a vida seguiu. Em 1947, dois anos após seu retorno, casou-se com Cecília Persuhn na cidade de Indaial, Santa Catarina. Dessa união nasceram quatro filhos: Ralf (já falecido), Anita, Arno e Elsa Thomsen. Foi em Indaial que Harry viveu seus anos finais, vindo a falecer em 10 de março de 1998, pouco antes de completar 80 anos de idade.
A história de Harry Thomsen é a de um homem comum que viveu tempos extraordinários. Lavrador, marido, pai e soldado — sua trajetória é um testemunho silencioso de coragem e resiliência. Nesta biografia, buscamos preservar sua memória e reconhecer a importância de sua vivência, tanto nos campos de batalha quanto nos campos de cultivo, onde semeou a vida e enfrentou a dor com a mesma bravura.
Brasil na Segunda Guerra Mundial
Em 1942, um submarino alemão realizou seis ataques a navios brasileiros, assassinando 877 compatriotas, entre civis e militares. A comoção nacional gerada pela agressão abalou a neutralidade do governo de Getúlio Vargas e, em 22 de agosto de 1942, o Brasil declara guerra contra a Alemanha e a Itália.
A Segunda Guerra Mundial foi o maior conflito da história da humanidade e contou com a participação brasileira a partir de 1944, com o envio de aproximadamente 25 mil soldados, que lutaram no front de batalha do norte da Itália. A atuação do Brasil na Segunda Guerra também contribuiu para antecipar o fim da ditadura de Getúlio Vargas.
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Quem era Harry Thomsen?
Harry Thomsen, batizado como Harry Hermann August Thomsen, nasceu em 4 de abril de 1918, no bairro da Velha, em Blumenau, Santa Catarina. Ele foi batizado em 20 de maio de 1918, também em Blumenau, Santa Catarina.

O nome de Harry Thomsen consta na lista de eleitores qualificados em uma publicação no Jornal A Cidade de Blumenau, edição nº 42 de 27 de fevereiro de 1937, quando, na ocasião, contava com 18 anos de idade.

No jornal Cidade de Blumenau, edição nº 10, de 25 de outubro de 1941, página 3, o nome de Harry Thomsen consta em um convite para comparecer à Junta de Alistamento Militar. Na época, Harry tinha 23 anos, e embora a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) já estivesse em andamento, o Brasil efetivamente entrou no conflito somente em 1944.

Harry participou ativamente da Segunda Guerra Mundial, combatendo na Itália por meio do 1º Regimento de Infantaria, onde serviu como soldado com a identificação 1G-263491. Embarcou no 3º Escalão de Embarque no Rio de Janeiro/RJ, a bordo do navio General Meigs, em 22 de setembro de 1944. Chegou ao porto de Nápoles, na Itália, em 6 de outubro de 1944, e retornou ao Brasil em 22 de agosto de 1945, totalizando exatos 11 meses ou 334 dias de serviço.

Na imagem acima podemos ver o seu registro no Banco de Dados da FEB.
Harry embarcou para a guerra aos 26 anos e celebrou seu 27º aniversário enquanto estava na Itália, em pleno combate durante a guerra.

“O dia era 22 de setembro de 1944; a bordo do navio “General Meigs”, 5.239 homens, a maioria integrantes do 11º Regimento de Infantaria (11º RI), se espremem na viagem de 14 dias para a travessia do Atlântico, infestado de submarinos alemães. Assim inicia a epopeia do 11º RI na 2ª Guerra Mundial, tendo seu ápice em 14 de abril de 1945, com o ataque à cidade de Montese, o combate em que a FEB mais perdeu homens em um único dia.”.
Fonte: Blog do Exército Brasileiro – A tomada de Montese




Clássica foto de um comboio brasileiro percorrendo as vias laterais de um monte italiano, que, pela vegetação, acreditamos ser o Monte Castello, após sua tomada dos alemães em fevereiro de 1945.
Considerando o inverno rigoroso da época, com a neve que cobriu a região por um longo período, a vegetação ressecou devido às baixas temperaturas e as folhas caíram. Somado ao fogo e estilhaços da artilharia, o panorama não poderia ser diferente do que vemos na imagem.
Referência da imagem: Obtida no grupo V de Vitória no Facebook. Coleção do pesquisador Dennison de Oliveira (UFPR); originais disponíveis nos arquivos do US National Archives, College Park (NARA II), Maryland, USA, acervo do Office of the Coordinator of Latin American Affairs.

Após seu retorno da Guerra, conforme relato da neta Rosana Trentine, Harry cortou relações com seus pais devido a desavenças financeiras relacionadas ao dinheiro que recebia da FEB. Por conta disso, ele sequer compareceu ao enterro deles. Após a guerra, Harry conheceu Cecília Persuhn em um baile e, posteriormente, em 6 de setembro de 1947, casaram-se na cidade de Indaial, em Santa Catarina.
Do casamento de Harry com Cecília, nasceram quatro filhos: Ralf (in memoriam), Anita, Arno e Elsa Thomsen.

Conforme observou o amigo Ivo Kretzer, na foto acima é possível visualizar três tipos diferentes de fardas. A primeira é a farda de passeio, com gravata; a do meio é uma jaqueta modelo Depósito de Intendência normal, que existia nas versões de tecido e de lã; e a terceira é uma jaqueta M41, de fabricação americana, mais utilizada no front. Os uniformes eram bastante variados, refletindo as diferentes origens e disponibilidades de material à época.

No Decreto nº 79.563, de 20 de abril de 1977, da Câmara dos Deputados, consta a concessão a Herbert Schmidt do direito de lavrar ardósia em terrenos de propriedade de Harry Thomsen, localizados no lugar denominado Ribeirão do Bode, distrito de Apiúna, município de Indaial, Santa Catarina.
No Diário Oficial do Estado de Santa Catarina, na edição nº 12.708 de 15 de maio de 1985, disponível online no Arquivo Público de Santa Catarina, foi publicado um decreto que concedia auxílio especial a ex-combatentes. O nome de Harry Thomsen consta nesse decreto.
Decreto nº 25.625, de 14 de maio de 1985
Concede Auxílio Especial a Ex-Combatentes da Segunda Guerra Mundial.
O Governador do Estado de Santa Catarina, usando da competência privativa que lhe confere o artigo 93, item III, da Constituição do Estado, e de acordo com a Lei nº 6.503, de 11 de dezembro de 1984,
Decreta:
Art. 1º – É concedido Auxílio Especial mensal equivalente ao menor vencimento da escala padrão do Quadro de Pessoal Civil da Administração Direta, aos ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial abaixo mencionados:
…
VIII – Harry Thomsen (Processo nº 1149/85/SJ, Parecer nº SJ/AS 653/85), residente em Indaial;
…
Art. 2º As despesas decorrentes da execução deste Decreto, correrão à conta do elemento 3250.00, subelemento 3252.00, item 3252.01, do Orçamento de Encargos Gerais do Estado no corrente exercício.
Art. 3º – Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Florianópolis, 14 de maio de 1985.
Esperidião Amin Helou Filho
Na Ata da Sessão Plenária nº 66, datada de 13 de setembro de 1983, do Tribunal de Contas da União, consta uma relação de processos submetidos ao Plenário para votação, de acordo com o Regimento Interno. Entre esses processos, encontra-se o referente à Pensão Militar em nome de Harry Thomsen.
Harry faleceu em 10 de março de 1998, aos 79 anos e 11 meses de idade, em sua residência na Rua Bahia, número 125, na cidade de Indaial, Santa Catarina. A causa do óbito foi uma parada cardiorrespiratória, decorrente de insuficiência cardíaca congestiva, doença pulmonar obstrutiva crônica, úlcera gástrica e hérnia de hiato. Ele deixou sua esposa, Cecília, viúva. Seu corpo foi sepultado no cemitério municipal de Indaial.
1º Regimento de Infantaria
O 1º Regimento de Infantaria atualmente tem a denominação de 1º Batalhão de Infantaria Motorizado (Es) (1º BIMtz-Es) – Regimento Sampaio, é uma das unidades mais gloriosas do Exército Brasileiro, e teve em seus quadros Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, Patrono da Instituição.
Localizado na Vila Militar, na cidade do Rio de Janeiro.

Em 1908, recebe a denominação de 1º Regimento de Infantaria e ocupa seu atual aquartelamento na Guarnição da Vila Militar, no Rio de Janeiro. Participou da Revolução de 1930 e combateu ao lado das tropas legalistas na Revolução Constitucionalista de 1932 e na Intentona Comunista de 1935. O Regimento Sampaio viria a participar dos combates da segunda Guerra Mundial, entre 1944 e 1945, participando das batalhas de Monte Castello e Fornovo di Taro.
Mais recentemente, em 1966, participou da Terceira Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola. Em 2005, compôs a força brasileira da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti.

O regimento foi um dos escolhidos para integrar a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária na Campanha da Itália, embarcando em setembro de 1944. A Batalha de Monte Castello tornou-se ponto importante de sua identidade;[23] o regimento foi encarregado do ataque principal que tomou o monte, em fevereiro de 1945.
Fonte: Wikipédia
