{"id":246,"date":"2016-03-22T21:34:25","date_gmt":"2016-03-23T00:34:25","guid":{"rendered":"https:\/\/fatosfotoseregistros.wordpress.com\/?p=246"},"modified":"2016-03-22T21:34:25","modified_gmt":"2016-03-23T00:34:25","slug":"um-dia-de-merda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.kanenberg.com.br\/fatosfotoseregistros\/um-dia-de-merda\/","title":{"rendered":"Um dia de merda"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Aeroporto Santos Dumont, 15:30. Senti um pequeno mal estar causado por uma c\u00f3lica intestinal, mas nada que uma urinada ou uma barrigada n\u00e3o aliviasse.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas, atrasado para chegar ao \u00f4nibus que me levaria para o Gale\u00e3o, de onde partiria o v\u00f4o para Miami, resolvi segurar as pontas. Afinal de contas s\u00e3o s\u00f3 uns 15 minutos de bus\u00e3o. &#8220;Chegando l\u00e1, tenho tempo de sobra para dar aquela mijadinha esperta, tranq\u00fcilo&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">O avi\u00e3o s\u00f3 sairia \u00e0s 16:30. Entrando no \u00f4nibus, sem sanit\u00e1rios, senti a primeira contra\u00e7\u00e3o e tomei consci\u00eancia de que minha gravidez fecal chegara ao nono m\u00eas e que faria um parto de c\u00f3coras assim que entrasse no banheiro do aeroporto. Virei para o meu amigo que me acompanhava e, sutilmente, falei: &#8220;Cara, mal posso esperar para chegar na merda do aeroporto porque preciso largar um barro&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-273 aligncenter\" src=\"https:\/\/fatosfotoseregistros.files.wordpress.com\/2016\/03\/wp-1458693904744.jpg\" alt=\"wp-1458693904744.jpg\" width=\"480\" height=\"325\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\">Nesse momento, senti um urubu beliscando minha cueca, mas botei a for\u00e7a de vontade para trabalhar e segurei a onda. O \u00f4nibus nem tinha come\u00e7ado a andar quando, para meu desespero, uma voz disse pelo alto-falante:<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Senhoras e senhores, nossa viagem entre os dois aeroportos levar\u00e1 em torno de 1 hora, devido a obras na pista&#8221;. A\u00ed o urubu ficou maluco querendo sair a qualquer custo. Fiz um esfor\u00e7o herc\u00faleo para segurar o trem merda que estava para chegar na esta\u00e7\u00e3o \u00e2nus a qualquer momento. Suava em bicas. Meu amigo percebeu e, como bom amigo que era, aproveitou para tirar um sarro.<\/p>\n<p align=\"justify\">O alivio provis\u00f3rio veio em forma de bolhas estomacais, indicando que pelo menos por enquanto as coisas tinham se acomodado. Tentava me distrair vendo TV, mas s\u00f3 conseguia pensar em um banheiro, n\u00e3o com uma privada, mas com um vaso sanit\u00e1rio t\u00e3o branco e t\u00e3o limpo que algu\u00e9m poderia botar seu almo\u00e7o nele. E o papel higi\u00eanico ent\u00e3o: branco e macio, com textura e perfume e&#8230; opsss, senti um volume almofadado entre meu traseiro e o assento do \u00f4nibus e percebi, consternado, que havia cagado. Um coc\u00f4 s\u00f3lido e comprido daqueles que d\u00e3o orgulho de pai ao seu autor. Daqueles que d\u00e1 vontade de ligar pros amigos e parentes e convid\u00e1-los a apreciar na privada. T\u00e3o perfeita obra, dava pra exporem uma bienal. Mas sem d\u00favida, a situa\u00e7\u00e3o tava tensa. Olhei para o meu amigo, procurando um pouco de solidariedade, e confessei s\u00e9rio:<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Cara, caguei !&#8221; Quando meu amigo parou de rir, uns cinco minutos depois, aconselhou-me a relaxar, pois agora estava tudo sob controle. &#8220;Que se dane, me limpo no aeroporto&#8221; &#8211; pensei. &#8220;Pior que isso n\u00e3o fico&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mal o \u00f4nibus entrou em movimento, a c\u00f3lica recome\u00e7ou forte. Arregalei os olhos, segurei-me na cadeira, mas n\u00e3o pude evitar, e sem muita cerim\u00f4nia ou anuncia\u00e7\u00e3o, veio a segunda leva de merda. Desta vez, como uma pasta morna. Foi merda para tudo que \u00e9 lado, borrando, esquentando e melando a bunda, cueca, barra da camisa, pernas, panturrilha, cal\u00e7as, meias e p\u00e9s.<\/p>\n<p align=\"justify\">E mais uma c\u00f3lica anunciando mais merda, agora l\u00edquida, das que queimam o fiof\u00f3 do fregu\u00eas ao sair rumo \u00e0 liberdade. E depois um peido tipo bufa, que eu nem tentei segurar, afinal de contas o que era um peidinho para quem j\u00e1 estava todo cagado.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00e1 o peido seguinte, foi do tipo que pesa. E me caguei pela quarta vez. Lembrei de um amigo que certa vez estava com tanta caganeira que resolveu botar modess na cueca, mas colocou as linhas adesivas viradas para cima e quando foi tir\u00e1-lo levou metade dos p\u00ealos do rabo junto. Mas era tarde demais para tal artif\u00edcio absorvente. Tinha menstruado tanta merda que nem uma bomba de cisterna poderia me ajudar a limpar a sujeirada.<\/p>\n<p align=\"justify\">Finalmente cheguei ao aeroporto e saindo apressado com passos curtinhos, supliquei ao meu amigo que apanhasse minha mala no bagageiro do \u00f4nibus e a levasse ao sanit\u00e1rio do aeroporto para que eu pudesse trocar de roupas. Corri ao banheiro e entrando de boxe em boxe, constatei a falta de papel higi\u00eanico em todos os cinco. Olhei para cima e blasfemei: &#8220;Agora chega, n\u00e9?&#8221;<\/p>\n<p align=\"justify\">Entrei no \u00faltimo, sem papel mesmo, e tirei a roupa toda para analisar minha situa\u00e7\u00e3o (que conclui como sendo o fundo do po\u00e7o) e esperar pela minha salva\u00e7\u00e3o, com roupas limpinhas e cheirosinhas e com ela uma lufada de dignidade no meu dia. Meu amigo entrou no banheiro com pressa, tinha feito o &#8220;check-in&#8221; e ia correndo tentar segurar o v\u00f4o. Jogou por cima do boxe o cart\u00e3o de embarque e uma maleta de m\u00e3o e saiu antes de qualquer protesto de minha parte. Ele tinha despachado a mala com roupas. Na mala de m\u00e3o s\u00f3 tinha um pul\u00f4ver de gola &#8220;V&#8221;. A temperatura em Miami era de aproximadamente 35 graus.<\/p>\n<p align=\"justify\">Desesperado comecei a analisar quais de minhas roupas seriam, de algum modo, aproveit\u00e1veis. Minha cueca joguei no lixo. A camisa era hist\u00f3ria. As cal\u00e7as estavam deplor\u00e1veis e assim como minhas meias mudaram de cor tingidas pela merda. Meus sapatos estavam nota 3, numa escala de 1 a 10. Teria que improvisar.<\/p>\n<p align=\"justify\">A inven\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00e3e da necessidade, ent\u00e3o transformei uma simples privada em uma magn\u00edfica m\u00e1quina de lavar. Virei a cal\u00e7a do lado avesso, segurei-a pela barra, e mergulhei a parte atingida na \u00e1gua. Comecei a dar descarga at\u00e9 que o grosso da merda se desprendeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">Estava pronto para embarcar. Sa\u00ed do banheiro e atravessei o aeroporto em dire\u00e7\u00e3o ao port\u00e3o de embarque trajando sapatos sem meias, as calcas do lado avesso e molhadas da cintura ao joelho (n\u00e3o exatamente limpas) e o pul\u00f4ver gola &#8220;V&#8221;, sem camisa. Mas caminhava com a dignidade de um lorde.<\/p>\n<p align=\"justify\">Embarquei no avi\u00e3o, onde todos os passageiros estavam esperando o &#8220;RAPAZ QUE ESTAVA NO BANHEIRO&#8221; e atravessei todo o corredor at\u00e9 o meu assento, ao lado do meu amigo que sorria. A aeromo\u00e7a aproximou-se e perguntou se precisava de algo. Eu cheguei a pensar em pedir 120 toalhinhas para disfar\u00e7ar o cheiro de fossa transbordante e uma gilete para cortar os pulsos, mas decidi n\u00e3o pedir: &#8220;Nada, obrigado. Eu s\u00f3 queria esquecer este dia de merda!!!&#8221;<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8230;de Luis Fernando Ver\u00edssimo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aeroporto Santos Dumont, 15:30. 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