{"id":2353,"date":"2016-07-26T09:13:20","date_gmt":"2016-07-26T12:13:20","guid":{"rendered":"https:\/\/fatosfotoseregistros.wordpress.com\/?p=2353"},"modified":"2016-07-26T09:13:20","modified_gmt":"2016-07-26T12:13:20","slug":"a-carta-de-pero-vaz-de-caminha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.kanenberg.com.br\/fatosfotoseregistros\/a-carta-de-pero-vaz-de-caminha\/","title":{"rendered":"A Carta de Pero Vaz de Caminha"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2355 aligncenter\" src=\"https:\/\/fatosfotoseregistros.files.wordpress.com\/2016\/07\/carta_caminha.png\" alt=\"carta_caminha\" width=\"500\" height=\"694\" \/><\/p>\n<p class=\"texto\" align=\"justify\">Senhor,<\/p>\n<p>Posto que o Capit\u00e3o-mor desta vossa frota, e assim os outros capit\u00e3es escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navega\u00e7\u00e3o se achou, n\u00e3o deixarei tamb\u00e9m de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que &#8212; para o bem contar e falar &#8212; o saiba pior que todos fazer.<\/p>\n<p>Tome Vossa Alteza, por\u00e9m, minha ignor\u00e2ncia por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear nem afear, n\u00e3o porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.<\/p>\n<p class=\"texto\" align=\"justify\">Da marinhagem e singraduras do caminho n\u00e3o darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o n\u00e3o saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei de falar come\u00e7o e digo:<\/p>\n<p>A partida de Bel\u00e9m, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de mar\u00e7o. S\u00e1bado, 14 do dito m\u00eas, entre as oito e nove horas, nos achamos entre as Can\u00e1rias, mais perto da Gr\u00e3- Can\u00e1ria, e ali andamos todo aquele dia em calma, \u00e0 vista delas, obra de tr\u00eas a quatro l\u00e9guas. E domingo, 22 do dito m\u00eas, \u00e0s dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.<\/p>\n<p class=\"texto\" align=\"justify\">Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ata\u00edde com sua nau, sem haver tempo forte nem contr\u00e1rio para que tal acontecesse. Fez o capit\u00e3o suas dilig\u00eancias para o achar, a uma e outra parte, mas n\u00e3o apareceu mais!<\/p>\n<p>E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, at\u00e9 que, ter\u00e7a-feira das Oitavas de P\u00e1scoa, que foram 21 dias de abril, estando da dita Ilha obra de 660 ou 670 l\u00e9guas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que d\u00e3o o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manh\u00e3, topamos aves a que chamam fura-buxos.<\/p>\n<p>Neste dia, a horas de v\u00e9spera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra ch\u00e3, com grandes arvoredos: ao monte alto o capit\u00e3o p\u00f4s nome &#8211; o Monte Pascoal e \u00e0 terra &#8211; a Terra da Vera Cruz.<\/p>\n<p>Mandou lan\u00e7ar o prumo. Acharam vinte e cinco bra\u00e7as; e ao sol posto, obra de seis l\u00e9guas da terra, surgimos \u00e2ncoras, em dezenove bra\u00e7as &#8212; ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E \u00e0 quinta-feira, pela manh\u00e3, fizemos vela e seguimosem direitos \u00e0 terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove bra\u00e7as, at\u00e9 meia l\u00e9gua da terra, onde todos lan\u00e7amos \u00e2ncoras em frente \u00e0 boca de um rio. E chegar\u00edamos a esta ancoragem \u00e0s dez horas pouco mais ou menos.<\/p>\n<p>Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o lan\u00e7amos fora os bat\u00e9is e esquifes, e vieram logo todos os capit\u00e3es das naus a esta nau do Capit\u00e3o-mor, onde falaram entre si. E o Capit\u00e3o-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele come\u00e7ou de ir para l\u00e1, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos tr\u00eas, de maneira que, ao chegar o batel \u00e0 boca do rio, j\u00e1 ali havia dezoito ou vinte homens.<\/p>\n<p>Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas m\u00e3os traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.<\/p>\n<p>Ali n\u00e3o p\u00f4de deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapu\u00e7a de linho que levava na cabe\u00e7a e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, mi\u00fadas, que querem parecer de aljaveira, as quais pe\u00e7as creio que o Capit\u00e3o manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu \u00e0s naus por ser tarde e n\u00e3o poder haver deles mais fala, por causa do mar.<\/p>\n<p class=\"texto\" align=\"justify\">Na noite seguinte, ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez ca\u00e7ar as naus, e especialmente a capit\u00e2nia. E sexta pela manh\u00e3, \u00e0s oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capit\u00e3o levantar \u00e2ncoras e fazer vela; e fomos ao longo da costa, com os bat\u00e9is e esquifes amarrados \u00e0 popa na dire\u00e7\u00e3o do norte, para ver se ach\u00e1vamos alguma abrigada e bom pouso, onde nos demor\u00e1ssemos, para tomar \u00e1gua e lenha. N\u00e3o que nos minguasse, mas por aqui nos acertarmos.<\/p>\n<p>Quando fizemos vela, estariam j\u00e1 na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali poucos e poucos. Fomos de longo, e mandou o Capit\u00e3o aos navios pequenos que seguissem mais chegados \u00e0 terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.<\/p>\n<p>E, velejando n\u00f3s pela costa, obra de dez l\u00e9guas do s\u00edtio donde t\u00ednhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. As naus arribaram sobre eles; e um pouco antes do sol posto amainaram tamb\u00e9m, obra de uma l\u00e9gua do recife, e ancoraram em onze bra\u00e7as.<\/p>\n<p>E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do Capit\u00e3o, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Trouxe-os logo, j\u00e1 de noite, ao Capit\u00e3o, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa.<\/p>\n<p>A fei\u00e7\u00e3o deles \u00e9 serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso t\u00eam tanta inoc\u00eancia como em mostrar o rosto. Ambos traziam os bei\u00e7os de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, de comprimento duma m\u00e3o travessa, da grossura dum fuso de algod\u00e3o, agudos na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do bei\u00e7o; e a parte que lhes fica entre o bei\u00e7o e os dentes \u00e9 feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que n\u00e3o os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber.<\/p>\n<p>Os cabelos seus s\u00e3o corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados at\u00e9 por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detr\u00e1s, uma esp\u00e9cie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o touti\u00e7o e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confei\u00e7\u00e3o branda como cera (mas n\u00e3o o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e n\u00e3o fazia m\u00edngua mais lavagem para a levantar.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pesco\u00e7o, e aos p\u00e9s uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Sim\u00e3o de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e n\u00f3s outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no ch\u00e3o, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas n\u00e3o fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capit\u00e3o nem a ningu\u00e9m. Por\u00e9m um deles p\u00f4s olho no colar do Capit\u00e3o, e come\u00e7ou de acenar com a m\u00e3o para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Tamb\u00e9m olhou para um casti\u00e7al de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o casti\u00e7al como se l\u00e1 tamb\u00e9m houvesse prata.<\/p>\n<p>Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capit\u00e3o traz consigo; tomaram-no logo na m\u00e3o e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: n\u00e3o fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: n\u00e3o lhe queriam p\u00f4r a m\u00e3o; e depois a tomaram como que espantados.<\/p>\n<p>Deram-lhes ali de comer: p\u00e3o e peixe cozido, confeitos, fart\u00e9is, mel e figos passados. N\u00e3o quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lan\u00e7aram fora. Trouxeram-lhes vinho numa ta\u00e7a; mal lhe puseram a boca; n\u00e3o gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes a \u00e1gua em uma albarrada. N\u00e3o beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lan\u00e7aram fora.<\/p>\n<p>Viu um deles umas contas de ros\u00e1rio, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lan\u00e7ou-as ao pesco\u00e7o. Depois tirou-as e enrolou-as no bra\u00e7o e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do Capit\u00e3o, como dizendo que dariam ouro por aquilo.<\/p>\n<p>Isto tom\u00e1vamos n\u00f3s assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto n\u00e3o o quer\u00edamos n\u00f3s entender, porque n\u00e3o lho hav\u00edamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais n\u00e3o eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capit\u00e3o lhes mandou p\u00f4r por baixo das cabe\u00e7as seus coxins; e o da cabeleira esfor\u00e7ava-se por n\u00e3o a quebrar. E lan\u00e7aram-lhes um manto por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram.<\/p>\n<p class=\"texto\" align=\"justify\">Ao s\u00e1bado pela manh\u00e3 mandou o Capit\u00e3o fazer vela, e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis a sete bra\u00e7as. Entraram todas as naus dentro; e ancoraram em cinco ou seis bra\u00e7as &#8211; ancoragem dentro t\u00e3o grande, t\u00e3o formosa e t\u00e3o segura, que podem abrigar-se nela mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus quedaram ancoradas, todos os capit\u00e3es vieram a esta nau do Capit\u00e3o-mor. E daqui mandou o Capit\u00e3o a Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, e isto depois que fez dar a cada um sua camisa nova, sua carapu\u00e7a vermelha e um ros\u00e1rio de contas brancas de osso, que eles levaram nos bra\u00e7os, seus cascav\u00e9is e suas campainhas. E mandou com eles, para l\u00e1 ficar, um mancebo degredado, criado de D. Jo\u00e3o Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para l\u00e1 andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho.<\/p>\n<p>Fomos assim de frecha direitos \u00e0 praia. Ali acudiram logo obra de duzentos homens, todos nus, e com arcos e setas nas m\u00e3os. Aqueles que n\u00f3s lev\u00e1vamos acenaram-lhes que se afastassem e pousassem os arcos; e eles os pousaram, mas n\u00e3o se afastaram muito. E mal pousaram os arcos, logo sa\u00edram os que n\u00f3s lev\u00e1vamos, e o mancebo degredado com eles. E sa\u00eddos n\u00e3o pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais corria. E passaram um rio que por ali corre, de \u00e1gua doce, de muita \u00e1gua que lhes dava pela braga; e outros muitos com eles. E foram assim correndo, al\u00e9m do rio, entre umas moitas de palmas onde estavam outros. Ali pararam. Entretanto foi-se o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e o levou at\u00e9 l\u00e1. Mas logo tornaram a n\u00f3s; e com ele vieram os outros que n\u00f3s lev\u00e1ramos, os quais vinham j\u00e1 nus e sem carapu\u00e7as.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se come\u00e7aram de chegar muitos. Entravam pela beira do mar para os bat\u00e9is, at\u00e9 que mais n\u00e3o podiam; traziam caba\u00e7os de \u00e1gua, e tomavam alguns barris que n\u00f3s lev\u00e1vamos: enchiam-nos de \u00e1gua e traziam-nos aos bat\u00e9is. N\u00e3o que eles de todos chegassem \u00e0 borda do batel. Mas junto a ele, lan\u00e7avam os barris que n\u00f3s tom\u00e1vamos; e pediam que lhes dessem alguma coisa. Levava Nicolau Coelho cascav\u00e9is e manilhas. E a uns dava um cascavel, a outros uma manilha, de maneira que com aquele engodo quase nos queriam dar a m\u00e3o. Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e carapu\u00e7as de linho ou por qualquer coisa que homem lhes queria dar.<\/p>\n<p>Dali se partiram os outros dois mancebos, que os n\u00e3o vimos mais.<\/p>\n<p>Muitos deles ou quase a maior parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos bei\u00e7os. E alguns, que andavam sem eles, tinham os bei\u00e7os furados e nos buracos uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha; outros traziam tr\u00eas daqueles bicos, a saber, um no meio e os dois nos cabos. A\u00ed andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua pr\u00f3pria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada; e outros quartejados de escaques. Ali andavam entre eles tr\u00eas ou quatro mo\u00e7as, bem mo\u00e7as e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas esp\u00e1duas, e suas vergonhas t\u00e3o altas, t\u00e3o cerradinhas e t\u00e3o limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma vergonha.<\/p>\n<p>Ali por ent\u00e3o n\u00e3o houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha, que se n\u00e3o entendia nem ouvia ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Acenamos-lhes que se fossem; assim o fizeram e passaram-se al\u00e9m do rio. Sa\u00edram tr\u00eas ou quatro homens nossos dos bat\u00e9is, e encheram n\u00e3o sei quantos barris de \u00e1gua que n\u00f3s lev\u00e1vamos e tornamo-nos \u00e0s naus. Mas quando assim v\u00ednhamos, acenaram-nos que torn\u00e1ssemos. Tornamos e eles mandaram o degredado e n\u00e3o quiseram que ficasse l\u00e1 com eles. Este levava uma bacia pequena e duas ou tr\u00eas carapu\u00e7as vermelhas para l\u00e1 as dar ao senhor, se o l\u00e1 houvesse. N\u00e3o cuidaram de lhe tomar nada, antes o mandaram com tudo. Mas ent\u00e3o Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, ordenando que lhes desse aquilo. E ele tornou e o deu , \u00e0 vista de n\u00f3s, \u00e0quele que da primeira vez agasalhara. Logo voltou e n\u00f3s trouxemo-lo.<\/p>\n<p>Esse que o agasalhou era j\u00e1 de idade, e andava por lou\u00e7ainha todo cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia asseteado como S. Sebasti\u00e3o. Outros traziam carapu\u00e7as de penas amarelas; outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas mo\u00e7as era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era t\u00e3o bem-feita e t\u00e3o redonda, e sua vergonha (que ela n\u00e3o tinha) t\u00e3o graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais fei\u00e7\u00f5es, fizera vergonha, por n\u00e3o terem a sua como ela. Nenhum deles era fanado, mas, todos assim como n\u00f3s. E com isto nos tornamos e eles foram-se. \u00c0 tarde saiu o Capit\u00e3o-mor em seu batel com todos n\u00f3s outros e com os outros capit\u00e3es das naus em seus bat\u00e9is a folgar pela ba\u00eda, em frente da praia. Mas ningu\u00e9m saiu em terra, porque o Capit\u00e3o o n\u00e3o quis, sem embargo de ningu\u00e9m nela estar. Somente saiu &#8212; ele com todos n\u00f3s &#8212; em um ilh\u00e9u grande, que na ba\u00eda est\u00e1 e que na baixa-mar fica mui vazio. Por\u00e9m \u00e9 por toda a parte cercado de \u00e1gua, de sorte que ningu\u00e9m l\u00e1 pode ir, a n\u00e3o ser de barco ou a nado. Ali folgou ele e todos n\u00f3s outros, bem uma hora e meia. E alguns marinheiros, que ali andavam com um chinchorro, pescaram peixe mi\u00fado, n\u00e3o muito. Ent\u00e3o volvemo-nos \u00e0s naus, j\u00e1 bem de noite.<\/p>\n<p>Ao domingo de Pascoela pela manh\u00e3, determinou o Capit\u00e3o de ir ouvir missa e prega\u00e7\u00e3o naquele ilh\u00e9u. Mandou a todos os capit\u00e3es que se aprestassem nos bat\u00e9is e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilh\u00e9u armar um esperavel, e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali com todos n\u00f3s outros fez dizer missa, a qual foi dita pelo padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali era com o Capit\u00e3o a bandeira de Cristo, com que saiu de Bel\u00e9m, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho.<\/p>\n<p>Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e n\u00f3s todos lan\u00e7ados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa prega\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obedi\u00eancia viemos, o que foi muito a prop\u00f3sito e fez muita devo\u00e7\u00e3o. Enquanto estivemos \u00e0 missa e \u00e0 prega\u00e7\u00e3o, seria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como a de ontem, com seus arcos e setas, a qual andava folgando. E olhando-nos, sentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados n\u00f3s \u00e0 prega\u00e7\u00e3o, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina, e come\u00e7aram a saltar e dan\u00e7ar um peda\u00e7o. E alguns deles se metiam em almadias &#8212; duas ou tr\u00eas que a\u00ed tinham &#8212; as quais n\u00e3o s\u00e3o feitas como as que eu j\u00e1 vi; somente s\u00e3o tr\u00eas traves, atadas entre si. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam n\u00e3o se afastando quase nada da terra, sen\u00e3o enquanto podiam tomar p\u00e9.<\/p>\n<p>Acabada a prega\u00e7\u00e3o, voltou o Capit\u00e3o, com todos n\u00f3s, para os bat\u00e9is, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos todos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo, na dianteira, por ordem do Capit\u00e3o, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para lho dar; e n\u00f3s todos, obra de tiro de pedra, atr\u00e1s dele.<\/p>\n<p>Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos \u00e0 \u00e1gua, metendo-se nela at\u00e9 onde mais podiam.<\/p>\n<p>Acenaram-lhes que pousassem os arcos; e muitos deles os iam logo p\u00f4r em terra; e outros n\u00e3o.<\/p>\n<p>Andava a\u00ed um que falava muito aos outros que se afastassem, mas n\u00e3o que a mim me parecesse que lhe tinham acatamento ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas, e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos, esp\u00e1duas, quadris, coxas e pernas at\u00e9 baixo, mas os vazios com a barriga e est\u00f4mago eram de sua pr\u00f3pria cor. E a tintura era assim vermelha que a \u00e1gua a n\u00e3o comia nem desfazia, antes, quando sa\u00eda da \u00e1gua, parecia mais vermelha.<\/p>\n<p>Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava entre eles, sem implicarem nada com ele para fazer-lhe mal. Antes lhe davam caba\u00e7as de \u00e1gua, e acenavam aos do esquife que sa\u00edssem em terra.<\/p>\n<p>Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capit\u00e3o; e viemo-nos \u00e0s naus, a comer, tangendo gaitas e trombetas, sem lhes dar mais opress\u00e3o. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por ent\u00e3o ficaram.<\/p>\n<p>Neste ilh\u00e9u, onde fomos ouvir missa e prega\u00e7\u00e3o, a \u00e1gua espraia muito, deixando muita areia e muito cascalho a descoberto. Enquanto a\u00ed est\u00e1vamos, foram alguns buscar marisco e apenas acharam alguns camar\u00f5es grossos e curtos, entre os quais vinha um t\u00e3o grande e t\u00e3o grosso, como em nenhum tempo vi tamanho. Tamb\u00e9m acharam cascas de berbig\u00f5es e am\u00eaijoas, mas n\u00e3o toparam com nenhuma pe\u00e7a inteira.<\/p>\n<p>E tanto que comemos, vieram logo todos os capit\u00e3es a esta nau, por ordem do Capit\u00e3o-mor, com os quais ele se apartou, e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor a mandar descobrir e saber dela mais do que n\u00f3s agora pod\u00edamos saber, por irmos de nossa viagem.<\/p>\n<p>E entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem. E nisto conclu\u00edram. E tanto que a conclus\u00e3o foi tomada, perguntou mais se lhes parecia bem tomar aqui por for\u00e7a um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui por eles outros dois destes degredados.<\/p>\n<p>Sobre isto acordaram que n\u00e3o era necess\u00e1rio tomar por for\u00e7a homens, porque era geral costume dos que assim levavam por for\u00e7a para alguma parte dizerem que h\u00e1 ali de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informa\u00e7\u00e3o da terra dariam dois homens destes degredados que aqui deixassem, do que eles dariam se os levassem, por ser gente que ningu\u00e9m entende. Nem eles t\u00e3o cedo aprenderiam a falar para o saberem t\u00e3o bem dizer que muito melhor estoutros o n\u00e3o digam, quando Vossa Alteza c\u00e1 mandar. E que, portanto, n\u00e3o cuidassem de aqui tomar ningu\u00e9m por for\u00e7a nem de fazer esc\u00e2ndalo, para de todo mais os amansar e apacificar, sen\u00e3o somente deixar aqui os dois degredados, quando daqui part\u00edssemos.<\/p>\n<p>E assim, por melhor a todos parecer, ficou determinado. Acabado isto, disse o Capit\u00e3o que f\u00f4ssemos nos bat\u00e9is em terra e ver-se-ia bem como era o rio, e tamb\u00e9m para folgarmos.<\/p>\n<p>Fomos todos nos bat\u00e9is em terra, armados e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, \u00e0 boca do rio, para onde n\u00f3s \u00edamos; e, antes que cheg\u00e1ssemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenavam que sa\u00edssemos. Mas, tanto que os bat\u00e9is puseram as proas em terra, passaram-se logo todos al\u00e9m do rio, o qual n\u00e3o \u00e9 mais largo que um jogo de mancal. E mal desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. Alguns aguardavam; outros afastavam-se. Era, por\u00e9m, a coisa de maneira que todos andavam misturados. Eles ofereciam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapu\u00e7as de linho ou por qualquer coisa que lhes davam.<\/p>\n<p>Passaram al\u00e9m tantos dos nossos, e andavam assim misturados com eles, que eles se esquivavam e afastavam-se. E deles alguns iam-se para cima onde outros estavam.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Capit\u00e3o fez que dois homens o tomassem ao colo, passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava n\u00e3o seria mais que a costumada. E tanto que o Capit\u00e3o fez tornar a todos, vieram a ele alguns daqueles, n\u00e3o porque o conhecessem por Senhor, pois me parece que n\u00e3o entendem, nem tomavam disso conhecimento, mas porque a gente nossa passava j\u00e1 para aqu\u00e9m do rio.<\/p>\n<p>Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas daquelas j\u00e1 ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, em tal maneira que os nossos trouxeram dali para as naus muitos arcos e setas e contas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o tornou-se o Capit\u00e3o aqu\u00e9m do rio, e logo acudiram muitos \u00e0 beira dele. Ali ver\u00edeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim nos corpos, como nas pernas, que, certo, pareciam bem assim.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m andavam, entre eles, quatro ou cinco mulheres mo\u00e7as, nuas como eles, que n\u00e3o pareciam mal. Entre elas andava uma com uma coxa, do joelho at\u00e9 o quadril, e a n\u00e1dega, toda tinta daquela tintura preta; e o resto, tudo da sua pr\u00f3pria cor. Outra trazia ambos os joelhos, com as curvas assim tintas, e tamb\u00e9m os colos dos p\u00e9s; e suas vergonhas t\u00e3o nuas e com tanta inoc\u00eancia descobertas, que nisso n\u00e3o havia nenhuma vergonha.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m andava a\u00ed outra mulher mo\u00e7a com um menino ou menina ao colo, atado com um pano (n\u00e3o sei de qu\u00ea) aos peitos, de modo que apenas as perninhas lhe apareciam. Mas as pernas da m\u00e3e e o resto n\u00e3o traziam pano algum.<\/p>\n<p>Depois andou o Capit\u00e3o para cima ao longo do rio, que corre sempre chegado \u00e0 praia. Ali esperou um velho, que trazia na m\u00e3o uma p\u00e1 de almadia. Falava, enquanto o Capit\u00e3o esteve com ele, perante n\u00f3s todos, sem nunca ningu\u00e9m o entender, nem ele a n\u00f3s quantas coisas que lhe demand\u00e1vamos acerca de ouro, que n\u00f3s desej\u00e1vamos saber se na terra havia.<\/p>\n<p>Trazia este velho o bei\u00e7o t\u00e3o furado, que lhe caberia pelo furo um grande dedo polegar, e metida nele uma pedra verde, ruim, que cerrava por fora esse buraco. O Capit\u00e3o lha fez tirar. E ele n\u00e3o sei que diabo falava e ia com ela direito ao Capit\u00e3o, para lha meter na boca. Estivemos sobre isso rindo um pouco; e ent\u00e3o enfadou-se o Capit\u00e3o e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho, n\u00e3o por ela valer alguma coisa, mas por amostra. Depois houve-a o Capit\u00e3o, segundo creio, para, com as outras coisas, a mandar a Vossa Alteza.<\/p>\n<p>Andamos por a\u00ed vendo a ribeira, a qual \u00e9 de muita \u00e1gua e muito boa. Ao longo dela h\u00e1 muitas palmas, n\u00e3o muito altas, em que h\u00e1 muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles muitos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o tornou-se o Capit\u00e3o para baixo para a boca do rio, onde hav\u00edamos desembarcado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do rio, andavam muitos deles dan\u00e7ando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas m\u00e3os. E faziam-no bem. Passou-se ent\u00e3o al\u00e9m do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacav\u00e9m, que \u00e9 homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dan\u00e7ar, tomando-os pelas m\u00e3os; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dan\u00e7arem, fez-lhes ali, andando no ch\u00e3o, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o o Capit\u00e3o passou o rio com todos n\u00f3s outros, e fomos pela praia de longo, indo os bat\u00e9is, assim, rente da terra. Fomos at\u00e9 uma lagoa grande de \u00e1gua doce, que est\u00e1 junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar \u00e9 apaulada por cima e sai a \u00e1gua por muitos lugares.<\/p>\n<p>E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles andar entre os marinheiros que se recolhiam aos bat\u00e9is. E levaram dali um tubar\u00e3o, que Bartolomeu Dias matou, lhes levou e lan\u00e7ou na praia.<\/p>\n<p>Bastar\u00e1 dizer-vos que at\u00e9 aqui, como quer que eles um pouco se amansassem, logo duma m\u00e3o para outra se esquivavam, como pardais, do cevadoiro. Homem n\u00e3o lhes ousa falar de rijo para n\u00e3o se esquivarem mais; e tudo se passa como eles querem, para os bem amansar.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o ao velho, com quem falou, deu uma carapu\u00e7a vermelha. E com toda a fala que entre ambos se passou e com a carapu\u00e7a que lhe deu, tanto que se apartou e come\u00e7ou de passar o rio, foi-se logo recatando e n\u00e3o quis mais tornar de l\u00e1 para aqu\u00e9m.<\/p>\n<p>Os outros dois, que o Capit\u00e3o teve nas naus, a que deu o que j\u00e1 disse, nunca mais aqui apareceram &#8211; do que tiro ser gente bestial, de pouco saber e por isso t\u00e3o esquiva. Por\u00e9m e com tudo isso andam muito bem curados e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais que s\u00e3o como aves ou alim\u00e1rias monteses, \u00e0s quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que \u00e0s mansas, porque os corpos seus s\u00e3o t\u00e3o limpos, t\u00e3o gordos e t\u00e3o formosos, que n\u00e3o pode mais ser.<\/p>\n<p>Isto me faz presumir que n\u00e3o t\u00eam casas nem moradas a que se acolham, e o ar, a que se criam, os faz tais. Nem n\u00f3s ainda at\u00e9 agora vimos nenhuma casa ou maneira delas.<\/p>\n<p>Mandou o Capit\u00e3o aquele degredado Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. Ele foi e andou l\u00e1 um bom peda\u00e7o, mas \u00e0 tarde tornou-se, que o fizeram eles vir e n\u00e3o o quiseram l\u00e1 consentir. E deram-lhe arcos e setas; e n\u00e3o lhe tomaram nenhuma coisa do seu. Antes &#8211; disse ele &#8211; que um lhe tomara umas continhas amarelas, que levava, e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo ap\u00f3s, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e ent\u00e3o mandaram-no vir. Disse que n\u00e3o vira l\u00e1 entre eles sen\u00e3o umas choupaninhas de rama verde e de fetos muito grandes, como de Entre Douro e Minho. E assim nos tornamos \u00e0s naus, j\u00e1 quase noite, a dormir.<\/p>\n<p>\u00c0 segunda-feira, depois de comer, sa\u00edmos todos em terra a tomar \u00e1gua. Ali vieram ent\u00e3o muitos, mas n\u00e3o tantos como as outras vezes. J\u00e1 muito poucos traziam arcos. Estiveram assim um pouco afastados de n\u00f3s; e depois pouco a pouco misturaram-se conosco. Abra\u00e7avam-nos e folgavam. E alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha ou por qualquer coisa. Em tal maneira isto se passou, que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles, onde outros muitos estavam com mo\u00e7as e mulheres. E trouxeram de l\u00e1 muitos arcos e barretes de penas de aves, deles verdes e deles amarelos, dos quais, creio, o Capit\u00e3o h\u00e1 de mandar amostra a Vossa Alteza.<\/p>\n<p>E, segundo diziam esses que l\u00e1 foram, folgavam com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais \u00e0 nossa vontade, por andarmos quase todos misturados. Ali, alguns andavam daquelas tinturas quartejados; outros de metades; outros de tanta fei\u00e7\u00e3o, como em panos de armar, e todos com os bei\u00e7os furados, e muitos com os ossos neles, e outros sem ossos.<\/p>\n<p>Alguns traziam uns ouri\u00e7os verdes, de \u00e1rvores, que, na cor, queriam parecer de castanheiros, embora mais pequenos. E eram cheios duns gr\u00e3os vermelhos pequenos, que, esmagando-os entre os dedos, faziam tintura muito vermelha, de que eles andavam tintos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.<\/p>\n<p>Todos andam rapados at\u00e9 cima das orelhas; e assim as sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas da tintura preta, que parece uma fita preta, da largura de dois dedos.<\/p>\n<p>E o Capit\u00e3o mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados, que fossem l\u00e1 andar entre eles; e assim a Diogo Dias, por ser homem ledo, com que eles folgavam. Aos degredados mandou que ficassem l\u00e1 esta noite. Foram-se l\u00e1 todos, e andaram entre eles. E, segundo eles diziam, foram bem uma l\u00e9gua e meia a uma povoa\u00e7\u00e3o, em que haveria nove ou dez casas, as quais eram t\u00e3o compridas, cada uma, como esta nau capit\u00e2nia. Eram de madeira, e das ilhargas de t\u00e1buas, e cobertas de palha, de razoada altura; todas duma s\u00f3 pe\u00e7a, sem nenhum repartimento, tinham dentro muitos esteios; e, de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num cabo, e outra no outro.<\/p>\n<p>Diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os achavam; e que lhes davam de comer daquela vianda, que eles tinham, a saber, muito inhame e outras sementes, que na terra h\u00e1 e eles comem. Mas, quando se fez tarde fizeram-nos logo tornar a todos e n\u00e3o quiseram que l\u00e1 ficasse nenhum. Ainda, segundo diziam, queriam vir com eles.<\/p>\n<p>Resgataram l\u00e1 por cascav\u00e9is e por outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos e carapu\u00e7as de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, maneira de tecido assaz formoso, segundo Vossa Alteza todas estas coisas ver\u00e1, porque o Capit\u00e3o vo-las h\u00e1 de mandar, segundo ele disse.<\/p>\n<p>E com isto vieram; e n\u00f3s torn\u00e1mo-nos \u00e0s naus.<\/p>\n<p>\u00c0 ter\u00e7a-feira, depois de comer, fomos em terra dar guarda de lenha e lavar roupa.<\/p>\n<p>Estavam na praia, quando chegamos, obra de sessenta ou setenta sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para n\u00f3s, sem se esquivarem. Depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos; e misturaram-se todos tanto conosco que alguns nos ajudavam a acarretar lenha e a meter nos bat\u00e9is. E lutavam com os nossos e tomavam muito prazer.<\/p>\n<p>Enquanto cort\u00e1vamos a lenha, faziam dois carpinteiros uma grande Cruz, dum pau, que ontem para isso se cortou.<\/p>\n<p>Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais por verem a ferramenta de ferro com que a faziam, do que por verem a Cruz, porque eles n\u00e3o tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, segundo diziam os homens, que ontem a suas casas foram, porque lhas viram l\u00e1.<\/p>\n<p>Era j\u00e1 a conversa\u00e7\u00e3o deles conosco tanta, que quase nos estorvavam no que hav\u00edamos de fazer.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem l\u00e1 \u00e0 aldeia (e aoutras, se houvessem novas delas) e que, em toda a maneira, n\u00e3o viessem dormir \u00e0s naus, ainda que eles os mandassem. E assim se foram.<\/p>\n<p>Enquanto and\u00e1vamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas \u00e1rvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que haver\u00e1 muitos nesta terra. Por\u00e9m eu n\u00e3o veria mais que at\u00e9 nove ou dez. Outras aves ent\u00e3o n\u00e3o vimos, somente algumas pombas-seixas, e pareceram-me bastante maiores que as de Portugal. Alguns diziam que viram rolas; eu n\u00e3o as vi. Mas, segundo os arvoredos s\u00e3o mui muitos e grandes, e de infindas maneiras, n\u00e3o duvido que por esse sert\u00e3o haja muitas aves!<\/p>\n<p>Cerca da noite nos volvemos para as naus com nossa lenha.<\/p>\n<p>Eu creio, Senhor, que ainda n\u00e3o dei conta aqui a Vossa Alteza da fei\u00e7\u00e3o de seus arcos e setas. Os arcos s\u00e3o pretos e compridos, as setas tamb\u00e9m compridas e os ferros delas de canas aparadas, segundo Vossa Alteza ver\u00e1 por alguns que &#8211; eu creio &#8212; o Capit\u00e3o a Ela h\u00e1 de enviar.<\/p>\n<p>\u00c0 quarta-feira n\u00e3o fomos em terra, porque o Capit\u00e3o andou todo o dia no navio dos mantimentos a despej\u00e1-lo e fazer levar \u00e0s naus isso que cada uma podia levar. Eles acudiram \u00e0 praia; muitos, segundo das naus vimos. No dizer de Sancho de Tovar, que l\u00e1 foi, seriam obra de trezentos.<\/p>\n<p>Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capit\u00e3o ontem mandou que em toda maneira l\u00e1 dormissem, volveram-se, j\u00e1 de noite, por eles n\u00e3o quererem que l\u00e1 ficassem. Trouxeram papagaios verdes e outras aves pretas, quase como pegas, a n\u00e3o ser que tinham o bico branco e os rabos curtos.<\/p>\n<p>Quando Sancho de Tovar se recolheu \u00e0 nau, queriam vir com ele alguns, mas ele n\u00e3o quis sen\u00e3o dois mancebos dispostos e homens de prol. Mandou-os essa noite mui bem pensar e curar. Comeram toda a vianda que lhes deram; e mandou fazer-lhes cama de len\u00e7\u00f3is, segundo ele disse. Dormiram e folgaram aquela noite.<\/p>\n<p>E assim n\u00e3o houve mais este dia que para escrever seja.<\/p>\n<p>\u00c0 quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manh\u00e3, e fomos em terra por mais lenha e \u00e1gua. E, em querendo o Capit\u00e3o sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois h\u00f3spedes. E por ele ainda n\u00e3o ter comido, puseram-lhe toalhas. Trouxeram-lhe vianda e comeu. Aos h\u00f3spedes, sentaram cada um em sua cadeira. E de tudo o que lhes deram comeram mui bem, especialmente lac\u00e3o cozido, frio, e arroz.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhes deram vinho, por Sancho de Tovar dizer que o n\u00e3o bebiam bem.<\/p>\n<p>Acabado o comer, metemo-nos todos no batel e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco mont\u00eas, bem revolta. Tanto que a tomou, meteu-a logo no bei\u00e7o, e, porque se lhe n\u00e3o queria segurar, deram-lhe uma pequena de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adere\u00e7o detr\u00e1s para ficar segura, e meteu-a no bei\u00e7o, assim revolta para cima. E vinha t\u00e3o contente com ela, como se tivesse uma grande j\u00f3ia. E tanto que sa\u00edmos em terra, foi-se logo com ela, e n\u00e3o apareceu mais a\u00ed.<\/p>\n<p>Andariam na praia, quando sa\u00edmos, oito ou dez deles; e de a\u00ed a pouco come\u00e7aram a vir mais. E parece-me que viriam, este dia, \u00e0 praia quatrocentos ou quatrocentos e cinq\u00fcenta.<\/p>\n<p>Traziam alguns deles arcos e setas, que todos trocaram por carapu\u00e7as ou por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes d\u00e1vamos. Bebiam alguns deles vinho; outros o n\u00e3o podiam beber. Mas parece-me, que se lho avezarem, o beber\u00e3o de boa vontade.<\/p>\n<p>Andavam todos t\u00e3o dispostos, t\u00e3o bem-feitos e galantes com suas tinturas, que pareciam bem. Acarretavam dessa lenha, quanta podiam, com mui boa vontade, e levavam-na aos bat\u00e9is. Andavam j\u00e1 mais mansos e seguros entre n\u00f3s, do que n\u00f3s and\u00e1vamos entre eles.<\/p>\n<p>Foi o Capit\u00e3o com alguns de n\u00f3s um peda\u00e7o por este arvoredo at\u00e9 uma ribeira grande e de muita \u00e1gua que, a nosso parecer, era esta mesma, que vem ter \u00e0 praia, e em que n\u00f3s tomamos \u00e1gua.<\/p>\n<p>Ali ficamos um peda\u00e7o, bebendo e folgando, ao longo dela, entre esse arvoredo, que \u00e9 tanto, tamanho, t\u00e3o basto e de tantas prumagens, que homens as n\u00e3o podem contar. H\u00e1 entre ele muitas palmas, de que colhemos muitos e bons palmitos.<\/p>\n<p>Quando sa\u00edmos do batel, disse o Capit\u00e3o que seria bom irmos direitos \u00e0 Cruz, que estava encostada a uma \u00e1rvore, junto com o rio, para se erguer amanh\u00e3, que \u00e9 sexta-feira, e que nos pus\u00e9ssemos todos de joelhos e a beij\u00e1ssemos para eles verem o acatamento que lhe t\u00ednhamos. E assim fizemos. A esses dez ou doze que a\u00ed estavam, acenaram-lhe que fizessem assim, e foram logo todos beij\u00e1-la.<\/p>\n<p>Parece-me gente de tal inoc\u00eancia que, se homem os entendesse e eles a n\u00f3s, seriam logo crist\u00e3os, porque eles, segundo parece, n\u00e3o t\u00eam, nem entendem em nenhuma cren\u00e7a.<\/p>\n<p>E portanto, se os degredados, que aqui h\u00e3o de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, n\u00e3o duvido que eles, segundo a santa inten\u00e7\u00e3o de Vossa Alteza, se h\u00e3o de fazer crist\u00e3os e crer em nossa santa f\u00e9, \u00e0 qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente \u00e9 boa e de boa simplicidade. E imprimir-se-\u00e1 ligeiramente neles qualquer cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que n\u00e3o foi sem causa.<\/p>\n<p>Portanto Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar a santa f\u00e9 cat\u00f3lica, deve cuidar da sua salva\u00e7\u00e3o. E prazer\u00e1 a Deus que com pouco trabalho seja assim.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o lavram, nem criam. N\u00e3o h\u00e1 aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alim\u00e1ria, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem sen\u00e3o desse inhame, que aqui h\u00e1 muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as \u00e1rvores de si lan\u00e7am. E com isto andam tais e t\u00e3o rijos e t\u00e3o n\u00e9dios, que o n\u00e3o somos n\u00f3s tanto, com quanto trigo e legumes comemos.<\/p>\n<p>Neste dia, enquanto ali andaram, dan\u00e7aram e bailaram sempre com os nossos, ao som dum tamboril dos nossos, em maneira que s\u00e3o muito mais nossos amigos que n\u00f3s seus.<\/p>\n<p>Se lhes homem acenava se queriam vir \u00e0s naus, faziam-se logo prestes para isso, em tal maneira que, se a gente todos quisera convidar, todos vieram. Por\u00e9m n\u00e3o trouxemos esta noite \u00e0s naus, sen\u00e3o quatro ou cinco, a saber: o Capit\u00e3o-mor, dois; e Sim\u00e3o de Miranda, um, que trazia j\u00e1 por pajem; e Aires Gomes, outro, tamb\u00e9m por pajem.<\/p>\n<p>Um dos que o Capit\u00e3o trouxe era um dos h\u00f3spedes, que lhe trouxeram da primeira vez, quando aqui chegamos, o qual veio hoje aqui, vestido na sua camisa, e com ele um seu irm\u00e3o; e foram esta noite mui bem agasalhados, assim de vianda, como de cama, de colch\u00f5es e len\u00e7\u00f3is, para os mais amansar.<\/p>\n<p>E hoje, que \u00e9 sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manh\u00e3, sa\u00edmos em terra, com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar a Cruz, para melhor ser vista. Ali assinalou o Capit\u00e3o o lugar, onde fizessem a cova para a chantar.<\/p>\n<p>Enquanto a ficaram fazendo, ele com todos n\u00f3s outros fomos pela Cruz abaixo do rio, onde ela estava. Dali a trouxemos com esses religiosos e sacerdotes diante cantando, em maneira de prociss\u00e3o.<\/p>\n<p>Eram j\u00e1 a\u00ed alguns deles, obra de setenta ou oitenta; e, quando nos viram assim vir, alguns se foram meter debaixo dela, para nos ajudar. Passamos o rio, ao longo da praia e fomo-la p\u00f4r onde havia de ficar, que ser\u00e1 do rio obra de dois tiros de besta. Andando-se ali nisto, vieram bem cento e cinq\u00fcenta ou mais.<\/p>\n<p>Chantada a Cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiramente lhe pregaram, armaram altar ao p\u00e9 dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses j\u00e1 ditos. Ali estiveram conosco a ela obra de cinq\u00fcenta ou sessenta deles, assentados todos de joelhos, assim como n\u00f3s.<\/p>\n<p>E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em p\u00e9, com as m\u00e3os levantadas, eles se levantaram conosco e al\u00e7aram as m\u00e3os, ficando assim, at\u00e9 ser acabado; e ent\u00e3o tornaram-se a assentar como n\u00f3s. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como n\u00f3s est\u00e1vamos com as m\u00e3os levantadas, e em tal maneira sossegados, que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estiveram assim conosco at\u00e9 acabada a comunh\u00e3o, depois da qual comungaram esses religiosos e sacerdotes e o Capit\u00e3o com alguns de n\u00f3s outros.<\/p>\n<p>Alguns deles, por o sol ser grande, quando est\u00e1vamos comungando, levantaram-se, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinq\u00fcenta ou cinq\u00fcenta e cinco anos, continuou ali com aqueles que ficaram. Esse, estando n\u00f3s assim, ajuntava estes, que ali ficaram, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles falando, lhes acenou com o dedo para o altar e depois apontou o dedo para o C\u00e9u, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e n\u00f3s assim o tomamos.<\/p>\n<p>Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima e ficou em alva; e assim se subiu junto com altar, em uma cadeira. Ali nos pregou do Evangelho e dos Ap\u00f3stolos, cujo dia hoje \u00e9, tratando, ao fim da prega\u00e7\u00e3o, deste vosso prosseguimento t\u00e3o santo e virtuoso, o que nos aumentou a devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses, que \u00e0 prega\u00e7\u00e3o sempre estiveram, quedaram-se como n\u00f3s olhando para ele. E aquele, que digo, chamava alguns que viessem para ali. Alguns vinham e outros iam-se. E, acabada a prega\u00e7\u00e3o, como Nicolau Coelho trouxesse muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda, houveram por bem que se lan\u00e7asse a cada um a sua ao pesco\u00e7o. Pelo que o padre frei Henrique se assentou ao p\u00e9 da Cruz e ali, a um por um, lan\u00e7ava a sua atada em um fio ao pesco\u00e7o, fazendo-lha primeiro beijar e alevantar as m\u00e3os. Vinham a isso muitos; e lan\u00e7aram-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinq\u00fcenta.<\/p>\n<p>Isto acabado &#8211; era j\u00e1 bem uma hora depois do meio-dia &#8211; viemos \u00e0s naus a comer, trazendo o Capit\u00e3o consigo aquele mesmo que fez aos outros aquela mostran\u00e7a para o altar e para o C\u00e9u e um seu irm\u00e3o com ele. Fez-lhe muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca e ao outro uma camisa destoutras.<\/p>\n<p>E, segundo que a mim e a todos pareceu, esta gente n\u00e3o lhes falece outra coisa para ser toda crist\u00e3, sen\u00e3o entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer, como n\u00f3s mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma idolatria, nem adora\u00e7\u00e3o t\u00eam. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos ser\u00e3o tornados ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se algu\u00e9m vier, n\u00e3o deixe logo de vir cl\u00e9rigo para os batizar, porque j\u00e1 ent\u00e3o ter\u00e3o mais conhecimento de nossa f\u00e9, pelos dois degredados, que aqui entre eles ficam, os quais, ambos, hoje tamb\u00e9m comungaram.<\/p>\n<p>Entre todos estes que hoje vieram, n\u00e3o veio mais que uma mulher mo\u00e7a, a qual esteve sempre \u00e0 missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho a redor de si. Por\u00e9m, ao assentar, n\u00e3o fazia grande mem\u00f3ria de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inoc\u00eancia desta gente \u00e9 tal, que a de Ad\u00e3o n\u00e3o seria maior, quanto a vergonha.<\/p>\n<p>Ora veja Vossa Alteza se quem em tal inoc\u00eancia vive se converter\u00e1 ou n\u00e3o, ensinando-lhes o que pertence \u00e0 sua salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acabado isto, fomos assim perante eles beijar a Cruz, despedimo-nos e viemos comer.<\/p>\n<p>Creio, Senhor, que com estes dois degredados ficam mais dois grumetes, que esta noite se sa\u00edram desta nau no esquife, fugidos para terra. N\u00e3o vieram mais. E cremos que ficar\u00e3o aqui, porque de manh\u00e3, prazendo a Deus, fazemos daqui nossa partida.<\/p>\n<p>Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos at\u00e9 \u00e0 outra ponta que contra o norte vem, de que n\u00f3s deste porto houvemos vista, ser\u00e1 tamanha que haver\u00e1 nela bem vinte ou vinte e cinco l\u00e9guas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda ch\u00e3 e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, \u00e9 toda praia parma, muito ch\u00e3 e muito formosa.<\/p>\n<p>Pelo sert\u00e3o nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, n\u00e3o pod\u00edamos ver sen\u00e3o terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.<\/p>\n<p>Nela, at\u00e9 agora, n\u00e3o pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Por\u00e9m a terra em si \u00e9 de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os ach\u00e1vamos como os de l\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c1guas s\u00e3o muitas; infindas. E em tal maneira \u00e9 graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-\u00e1 nela tudo, por bem das \u00e1guas que tem.<\/p>\n<p>Por\u00e9m o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que ser\u00e1 salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lan\u00e7ar.<\/p>\n<p>E que a\u00ed n\u00e3o houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navega\u00e7\u00e3o de Calecute, bastaria. Quando mais disposi\u00e7\u00e3o para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa f\u00e9.<\/p>\n<p>E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza do que nesta vossa terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha, de Vos tudo dizer, mo fez assim p\u00f4r pelo mi\u00fado.<\/p>\n<p>E pois que, Senhor, \u00e9 certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso servi\u00e7o for, Vossa Alteza h\u00e1 de ser de mim muito bem servida, a Ela pe\u00e7o que, por me fazer singular merc\u00ea, mande vir da ilha de S\u00e3o Tom\u00e9 a Jorge de Os\u00f3rio, meu genro &#8211; o que d&#8217;Ela receberei em muita merc\u00ea.<\/p>\n<p>Beijo as m\u00e3os de Vossa Alteza.<\/p>\n<p>Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.<\/p>\n<p><b>Pero Vaz de Caminha<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"texto\" align=\"justify\">Nota INFORMATIVA:<\/p>\n<p>A carta que o escriv\u00e3o Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei d. Manuel \u00e9 considerada o primeiro documento da nossa hist\u00f3ria, e tamb\u00e9m como o primeiro texto liter\u00e1rio do Brasil.<\/p>\n<p>Esta cr\u00f4nica do nascimento do Brasil, redigida em forma de di\u00e1rio, vem motivando um volumoso n\u00famero de estudos e edi\u00e7\u00f5es, desde quando o padre Manuel Aires de Casal a publicou pela primeira vez na Corografia braz\u00edlica. O original desse precioso documento, em sete folhas de papel manuscritas, cada uma em quatro p\u00e1ginas, num total de 27 p\u00e1ginas de texto e mais uma de endere\u00e7o, encontra-se guardado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, (gaveta 8, ma\u00e7o 2, n.2).<\/p>\n<p>A carta de Caminha caracteriza-se pela descri\u00e7\u00e3o da tipicidade humana do ind\u00edgena. Observou Carlos Malheiro Dias que &#8220;Caminha n\u00e3o era um cosm\u00f3grafo. O que ele redigiu para recreio e esclarecimento do rei foi uma narrativa impressionista em que revela aquela cultura liter\u00e1ria t\u00e3o pr\u00f3pria dos portugueses da sua grande \u00e9poca, e aquela capacidade de observa\u00e7\u00e3o, e aquela capacidade de compreender e descrever judiciosamente, que constituem o mais espl\u00eandido encanto dos cronistas&#8221;. A preocupa\u00e7\u00e3o em traduzir gestos, a caracteriza\u00e7\u00e3o corporal, a sua alimenta\u00e7\u00e3o e abrigo, enfim, o seu modo de existir, demonstra o valor dessa carta narrativa como documento e obra liter\u00e1ria. Refer\u00eancias: . Corografia braz\u00edlica, ou rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-geogr\u00e1fica do reino do Brazil. Composta e dedicada a sua Magestade Fidel\u00edssima pelo presb\u00edtero Manuel Aires de Casal. Rio de Janeiro: Impress\u00e3o R\u00e9gia, 1817, volume 1, p\u00e1g. 12-34. . Cortes\u00e3o, Jaime. A Carta de Pero Vaz de Caminha. 3 ed., Lisboa: Imprensa Nacional\/Casa da Moeda, 1994, p. 191. . Seguro, Visconde de Porto (Francisco Adolfo de Varnhagen). Nota acerca de como n\u00e3o foi na Coroa Vermelha, na enseada de Santa Cruz, que Cabral primeiro desembarcou e em que fez dizer a primeira missa. In: Revista Trimensal do Instituto Hist\u00f3rico, Geogr\u00e1fico e Etnogr\u00e1fico do Brasil. Rio de Janeiro: Garnier, 1877. Vol. XL, Parte 2, p.12. . Abreu, Jo\u00e3o Capistrano de. O descobrimento do Brasil. Nota liminar de Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues. 2 ed, Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira; Bras\u00edlia: INL, 1976, p.167. . Dias, Carlos Malheiro. A semana de Vera Cruz. In: Hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa do Brasil. Porto: Litografia Nacional, 1923. Vol. 2, p. 77. . Pereira, Paulo Roberto. Os tr\u00eas \u00fanicos testemunhos do descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999. O texto da carta, assim como a nota informativa e as refer\u00eancias, basearam-se no livro &#8211; Os tr\u00eas \u00fanicos testemunhos do descobrimento do Brasil, de Paulo Roberto Pereira. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999. ( MCG)<\/p>\n<p>MINIST\u00c9RIO DA CULTURA<br \/>\nFunda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional<br \/>\nDepartamento Nacional do Livro<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A carta que o escriv\u00e3o Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei d. 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