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Quando o tempo deixa de ser uma certeza

Nas últimas semanas, muito provavelmente você já ouviu falar do piloto e influenciador Lito Sousa, do canal Aviões e Música, que recebeu a confirmação do diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurológica rara, degenerativa e, atualmente, sem cura conhecida.

“O jogo só acaba quando termina” – Lito Sousa

Eu não acompanhava seu trabalho regularmente, mas, talvez por gostar de aviação desde criança, algumas vezes assisti a seus vídeos. E foi justamente ao tomar conhecimento de sua situação que comecei a pensar em algo que vai muito além da aviação ou da própria doença.

Na vida, todos nós, em algum momento, acabamos enfrentando problemas, dificuldades e situações que fogem ao nosso controle. Talvez possamos compará-las às turbulências de um voo: algumas são leves e passageiras; outras nos assustam e nos fazem questionar se tudo ficará bem. Mas, depois da turbulência, o avião continua seu caminho.

Problemas e turbulências fazem parte da vida. E a morte também.

Todos sabemos, desde muito cedo, que um dia iremos morrer. O que não sabemos é quando. E talvez seja justamente essa incerteza que nos permita seguir vivendo normalmente. Esperamos que não seja em breve. Fazemos planos, projetamos o futuro, imaginamos os próximos anos e, de certa forma, agimos como se tivéssemos tempo de sobra.

Mas nunca temos essa garantia.

Em uma reportagem sobre sua situação, Lito afirmou que não tem medo da morte iminente. Para ele, talvez essa seja a parte mais fácil. O mais difícil seria pensar na esposa e, principalmente, no filho de apenas sete anos. Ele fala sobre não saber como preparar uma criança para algo tão difícil e sobre desejar ter mais tempo.

É uma situação que nos faz pensar.

Tempo.

A medida do tempo não é igual para todos. Para alguns, um ano pode parecer uma eternidade. Para outros, alguns meses podem passar como se fossem apenas alguns instantes.

E talvez o verdadeiro valor do tempo não esteja na quantidade, mas naquilo que conseguimos fazer com ele.

Passamos boa parte da vida preocupados com o amanhã. Trabalhamos pensando no futuro, economizamos para depois, adiamos encontros, viagens, conversas, abraços e tantos outros pequenos momentos porque acreditamos que haverá uma oportunidade mais adiante.

Na maioria das vezes, haverá mesmo.

Mas não podemos ter certeza.

Talvez essa seja uma das grandes lições que situações como a de Lito nos trazem. Não se trata de viver com medo da morte ou de abandonar os planos para o futuro. Trata-se apenas de lembrar que o presente também faz parte da vida que estamos construindo.

Não sabemos quantas páginas ainda teremos para escrever. Não sabemos quantos aniversários, encontros, viagens, conversas ou simples tardes ao lado das pessoas que amamos ainda teremos.

E é justamente por não sabermos que cada uma delas tem valor.

A aviação, que tantas vezes aparece nos vídeos de Lito, talvez ofereça uma metáfora interessante para tudo isso. Um voo pode encontrar céu aberto, nuvens, ventos fortes e turbulências. O piloto não controla tudo aquilo que acontece durante a viagem, mas continua conduzindo o avião, tomando decisões e seguindo em frente.

Na vida também é assim.

Não escolhemos todas as turbulências que encontramos pelo caminho. Podemos apenas decidir como enfrentá-las.

E talvez seja por isso que uma frase dita por Lito Sousa tenha ficado em minha mente:

“O jogo só acaba quando termina.”

Enquanto o jogo continua, ainda existe tempo.

Tempo para dizer o que precisa ser dito.
Tempo para estar perto de quem amamos.
Tempo para fazer aquilo que adiamos.
Tempo para simplesmente viver.

Não sabemos quanto tempo temos.

Mas, enquanto temos tempo, ainda estamos aqui.

E talvez isso, por si só, já seja um motivo suficiente para não desperdiçá-lo.

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