Neste Dia do Escritor, celebrado em 25 de julho, costumamos lembrar das grandes mentes que moldaram a literatura brasileira, de Machado de Assis a Clarice Lispector. No entanto, há um capítulo fascinante da nossa história literária que muitas vezes permanece à sombra da política: a faceta de Dom Pedro II como escritor, jornalista e tradutor.
Para além da coroa e das obrigações de Estado, Pedro de Alcântara mantinha uma verdadeira paixão pelas letras. O monarca não era apenas um leitor voraz, mas um homem de intelecto inquieto, que encontrou na escrita uma forma de expressar seu pensamento, dialogar com o mundo e exercitar sua paixão pela linguagem.
Quando pensamos no dia 25 de julho, o Dia do Escritor, voltamos nossos olhares aos mestres das palavras. Mas a história do Brasil reserva uma curiosa homenagem a uma figura central do nosso país que viveu a literatura com a mesma dedicação com que governou: Dom Pedro II.
Muito se fala de sua erudição, da sua defesa da ciência e do patrocínio às artes. O que poucos recordam, porém, é que, por trás da aura solene de chefe de Estado, existia um escritor incansável. Pedro de Alcântara foi um intelectual refinado, fluente em mais de uma dezena de idiomas — incluindo hebraico, grego, árabe, sânscrito e tupi-guarani — e utilizava a palavra escrita como refúgio e ponte com o conhecimento do mundo.
O Jornalista de Pseudônimos e o Escritor Oculto
D. Pedro II sabia do peso de seu cargo e, talvez por isso, muitas vezes preferiu despir-se do título imperial para se fazer ouvir apenas como cidadão e pensador. No fervilhante cenário da imprensa do século XIX, era um colaborador frequente de jornais e periódicos.
Usando pseudônimos e publicações anônimas, o monarca enviava textos, reflexões e crônicas para a imprensa. Longe do rigor do trono, ele opinava sobre debates culturais, história e literatura sem que a sua figura política interferisse na recepção do texto. Para Pedro II, a palavra impressa no jornalismo era o termômetro do progresso de uma nação.
Um Tradutor de Clássicos Globais
Se a autoria de seus ensaios e artigos trazia a discrição dos pseudônimos, sua vocação como tradutor revelou um rigor técnico impressionante. Pedro II vertia para o português obras complexas e variadas da literatura universal:
- Ésquilo: Traduziu a tragédia Prometeu Acorrentado direto do grego.
- Contos do Oriente: Debruçou-se sobre os manuscritos em árabe das As Mil e Uma Noites e traduziu do sânscrito a obra clássica Hitopadesa.
- A Poesia Universal: Vertia passagens de Dante Alighieri, Victor Hugo e Longfellow com admirável apuro formal e métrico.
Durante o exílio, já sem coroa e fragilizado, foi na escrita e no trabalho de tradução que encontrou consolo até os seus últimos dias.
O Legado nas Letras
Dom Pedro II não escrevia por vaidade ou busca de fama literária; escrevia por amor ao saber, pela necessidade de compreender o ser humano e pelo desejo sincero de elevar a cultura brasileira ao nível do debate internacional. Ele trocava correspondências de alto nível intelectual com grandes nomes da literatura mundial, como Victor Hugo, sendo respeitado entre os sábios de sua época não como um monarca, mas como um par nas letras.
Neste 25 de julho, homenagear os escritores brasileiros é também reconhecer aqueles que usaram a pena para erguer pontes culturais. Pedro de Alcântara, o “Imperador das Letras“, provou que a maior nobreza de um homem não reside em seu cetro, mas na grandeza de seus pensamentos e na eternidade de suas palavras.
Feliz Dia do Escritor!
