{"id":1384,"date":"2026-09-19T21:04:26","date_gmt":"2026-09-20T00:04:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/?p=1384"},"modified":"2026-09-19T21:04:26","modified_gmt":"2026-09-20T00:04:26","slug":"diario-imigrante-mathias-schmitz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/diario-imigrante-mathias-schmitz\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio do Imigrante Mathias Schmitz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Um texto extra\u00eddo do di\u00e1rio escrito por um imigrante, que nos ajuda a compreender um pouco mais sobre como foi dif\u00edcil deixar a p\u00e1tria para tr\u00e1s, atravessar o oceano e come\u00e7ar uma nova vida em uma terra distante.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"1385\" data-permalink=\"https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/diario-imigrante-mathias-schmitz\/diario_imigrante\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/diario_imigrante.jpg\" data-orig-size=\"1448,1086\" data-comments-opened=\"1\" data-image-title=\"diario_imigrante\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/diario_imigrante-1024x768.jpg\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1385\" src=\"https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/diario_imigrante.jpg\" alt=\"diario_imigrante\" width=\"1448\" height=\"1086\" srcset=\"https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/diario_imigrante.jpg 1448w, https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/diario_imigrante-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/diario_imigrante-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/diario_imigrante-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1448px) 100vw, 1448px\" \/><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cAp\u00f3s o sofrimento vem a alegria!\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Este ditado j\u00e1 tornou-se verdade para muitos. Tamb\u00e9m em minha vida revezam-se sofrimentos e alegrias.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Talvez seja interessante para mim ou outro, dar um olhar sobre o decorrer de minha vida. \u00c9 por esta raz\u00e3o que resolvi escrever o que aconteceu comigo. Antes de come\u00e7ar, quero por\u00e9m pedir que perdoem o meu escrever; desculpar meus erros gramaticais e sim concentrar-se mais no sentido da minha narrativa do que na ortografia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e1 como escolar e mais ainda como adolescente, eu tinha uma avers\u00e3o enorme pela emigra\u00e7\u00e3o e principalmente para o Brasil. Somente ao ouvir o nome j\u00e1 sentia arrepios, porque imaginava a terra bem diferente do que mais tarde conheci.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Eu imaginava uma terra totalmente selvagem, onde seus moradores eram seres humanos s\u00f3 na denomina\u00e7\u00e3o e que mais se pareciam com animais. Uma terra na qual, atr\u00e1s de cada arbusto corria-se o risco de ser mordido por uma cobra ou outro animal selvagem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Uma terra onde n\u00e3o se podia dar um passo em seguran\u00e7a, sem o perigo de ser preso, morto e assado pelos selvagens, que acompanhavam os moradores.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mas mesmo com todos estes perigos em mente: seja como Deus quiser! Aqui na Alemanha n\u00e3o h\u00e1 futuro para mim. Eu resolvi acompanhar, aos 20 anos, meus pais e mais outros emigrantes para o Brasil.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Onze fam\u00edlias, entre as quais estavam filhos e filhas j\u00e1 adultos. Partiram certo dia, cantando alegremente, do pequeno lugarejo de Loeffeischeidt no Hunsr\u00fcck, para um novo lar. Muitos dos emigrantes derramaram l\u00e1grimas amargas ao se despedir de parentes e amigos, pois era um adeus para sempre. Depois que paramos por alguns minutos numa eleva\u00e7\u00e3o, at\u00e9 onde quase todos os moradores do lugar nos acompanhavam, eu tamb\u00e9m com olhos marejados de l\u00e1grimas, olhei pela \u00faltima vez o lugar onde nasci. Por pouco n\u00e3o desistia da viagem, se meus amigos que tamb\u00e9m partiram n\u00e3o me tivessem encorajado, afirmando sempre que s\u00f3 no Brasil encontraria a felicidade. Logo me senti mais confiante e assobiando alegremente, subi nas caixas e cofres que estavam amontoados numa carro\u00e7a e l\u00e1 seguimos pela estrada at\u00e9 o Reno.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Numa pequena cidade de nome B., localizada l\u00e1 mesmo, pernoitamos. O cuidado com a bagagem ficou a cargo dos mais velhos e n\u00f3s mo\u00e7os, fomos \u00e0 pr\u00f3xima taberna, onde, com uma boa garrafa de vinho e alegres brincadeiras, permanecemos at\u00e9 o dia raiar.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Logo de manh\u00e3, caixas e malas foram levadas at\u00e9 o vapor que nos levou at\u00e9 Koeln.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ficamos um dia nesta bela cidade; admirava surpreso as bonitas vitrines. Visitei a igreja, onde numa prece pedi prote\u00e7\u00e3o a Deus para a viagem que ter\u00edamos que enfrentar. No outro dia, era 10 de outubro, seguimos de trem para Ostende, uma cidade na B\u00e9lgica e de l\u00e1 partir\u00edamos at\u00e9 a cidade de Dunquerque, na Fran\u00e7a, onde nos esperaria um veleiro que nos levaria ao Brasil.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Antes que eu continue na descri\u00e7\u00e3o de minha viagem, preciso mais uma vez retornar ao meu lugar de nascimento, para esclarecer melhor os leitores sobre a minha partida, e aos desagrad\u00e1veis acontecimentos que se seguiram.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No ano anterior, 1845, antes de emigrarmos, foi fundada no Brasil uma nova cidade de nome Petr\u00f3polis (resid\u00eancia de ver\u00e3o do imperador) e que diziam fora colonizada quase exclusivamente por alem\u00e3es. Por este motivo o governo brasileiro fez um contrato com um certo armador de nome D., da cidade portu\u00e1ria de Dunquerque, na Fran\u00e7a, e que por conta do governo brasileiro levaria certo n\u00famero de emigrantes at\u00e9 a cidade do Rio de Janeiro, para colonizar Petr\u00f3polis. Para reunir estes emigrantes, o citado senhor D. contratou v\u00e1rios agentes que angariavam pessoas interessadas em vir ao Brasil. Verdade \u00e9 que o n\u00famero de emigrantes aquele ano foi t\u00e3o grande que ultrapassou o n\u00famero estipulado. Apesar do governo brasileiro correr com todas as despesas dos emigrantes, estes ainda eram enganados e explorados pelos agentes.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Tinham muitas vezes que entregar at\u00e9 a \u00faltima moeda que possu\u00edam. No ano seguinte, ano em que eu emigrei, os agentes espalharam que mais um determinado n\u00famero de emigrantes podia partir para o Brasil, e somente as despesas at\u00e9 a cidade portu\u00e1ria seria por conta de cada um. Al\u00e9m de tudo, o Brasil era lembrado como para\u00edso na terra. As pessoas recebiam boa terra e uma bonita casa, tudo livre de qualquer despesa. N\u00e3o era de admirar portanto que tantas pessoas se punham a caminho do Brasil. Na maioria eram pessoas que na P\u00e1tria nada mais tinham a perder e que mal conseguiam reunir o dinheiro para chegar \u00e0 cidade portu\u00e1ria de Fran\u00e7a. Mas muitos pensavam: &#8220;voc\u00ea conseguir\u00e1 levar os teus, mesmo que tenhas que passar fome e sede, ser\u00e1s recompensado pelo governo; ele prometeu e dever\u00e1 cumprir a promessa&#8221;. Mas tudo foi bem diferente. Logo que os emigrantes chegaram a Dunquerque, o armador exigiu o pre\u00e7o da passagem na \u00edntegra, dos que queriam ir ao Brasil. Mesmo o argumento de que o governo se incumbiria do pagamento ele n\u00e3o aceitou. Sua resposta foi de que ele nada tinha com o governo brasileiro, e que cada um devia cuidar de si mesmo. Agora ent\u00e3o tivemos o conhecimento de que fomos enganados e alguns que ainda possu\u00edam um pouco de dinheiro pagaram o exigido. Alguns veleiros foram aprontados para receber os emigrantes. A maioria no entanto tinha que aceitar o destino. N\u00e3o podiam seguir para o Brasil e o que era pior, tamb\u00e9m n\u00e3o podiam voltar. Quem encontrava trabalho na cidade ficava e muitos foram mendigar. Diariamente o n\u00famero de enganados aumentava de tal maneira que a cidade sofreu uma enchente de alem\u00e3es, que por for\u00e7a maior tiveram que pedir seu p\u00e3o na porta de moradores. A mis\u00e9ria tornou-se por fim t\u00e3o grande que o governo franc\u00eas expediu v\u00e1rios navios com estes alem\u00e3es logrados para a \u00c1frica, s\u00f3 para livrar a cidade do excesso de pessoas. Por fim nenhum emigrante podia mais passar a fronteira da Fran\u00e7a sem apresentar antes um certificado de armador D., no qual constava que o frete da bagagem estava pago e D. se comprometia oferecer hospedagem e comida ao referido emigrante, e quando se apresentasse oportunidade, enviaria o mesmo ao Brasil.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Justamente nesta \u00e9poca, cerca de 40-50 fam\u00edlias, entre as quais eu tamb\u00e9m me encontrava, est\u00e1vamos prontos a viajar de Oeste para a cidade portu\u00e1ria Dunquerque.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Aconteceu um grande contratempo. Recebemos a not\u00edcia de que n\u00e3o nos era permitido atravessar a fronteira sem apresentarmos o exigido certificado. Se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos dinheiro suficiente para cobrir as despesas seria melhor voltar para casa. O \u00faltimo nada nos agradou. J\u00e1 n\u00e3o t\u00ednhamos mais casa nem propriedade. Por felicidade estava conosco o agente do armador D., por ordem do qual n\u00f3s empreendemos a viagem. Este se vira obrigado a nos acompanhar, porque eu estava de posse de algumas cartas do agente e se as mesmas ca\u00edssem em m\u00e3os da pol\u00edcia, ele seria preso e invariavelmente condenado por fraude. Somente o medo levou-o a interceder junto ao armador D. para que f\u00f4ssemos transportados, n\u00e3o de todo gratuitos, mas por um pre\u00e7o baixo. Este agente, como ele mesmo contara, tamb\u00e9m tinha sido enganado pelo armador, pois o mesmo lhe afirmara que as condi\u00e7\u00f5es da viagem eram as mesmas do ano anterior, isto \u00e9, por conta do governo brasileiro. (citado agente, mais tarde teve que abandonar a Europa clandestinamente, porque era perseguido pela pol\u00edcia). Veio ao Brasil, onde eu pessoalmente falei com ele, pois ficou v\u00e1rios dias na col\u00f4nia alem\u00e3. Logo desapareceu e foi encontrado mais tarde esfarrapado, morto de fome e sede, numa mata pr\u00f3xima.<\/em><\/p>\n<p><em>Teve um fim horr\u00edvel.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>N\u00f3s permanecemos alguns dias em Ostende e neste meio tempo, o agente foi procurara o armador para tratar de nossa viagem. Certo dia veio o armador pessoalmente e come\u00e7ou o debate e os acordos. Primeiro o mesmo n\u00e3o estava interessado em negociar, mas, por fim concordou em aceitar 40 Taler para pessoas acima de doze anos e 20 Taler para pessoas abaixo de 12 anos. Muitos n\u00e3o tinham nem esta soma e novos debates se iniciaram. Por \u00faltimo o armador deu-se por satisfeito com 2\/3 do pre\u00e7o. Come\u00e7ou ent\u00e3o nova negociata entre os passageiros emigrantes, quem tinha dinheiro emprestava ao que nada tinha, para pagar quando chegasse ao Brasil. Eu mesmo pedi emprestado 50 Taler para cobrir as despesas de meus pais e irm\u00e3os.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Sobraram assim mesmo 11 fam\u00edlias; 3 da minha regi\u00e3o, que n\u00e3o conseguiram dinheiro suficiente para a passagem. Estas fam\u00edlias mais tarde foram acompanhadas pela pol\u00edcia at\u00e9 a fronteira e enviados de volta \u00e0 cidade de onde vieram. Que estes tiveram um destino lament\u00e1vel \u00e9 compreens\u00edvel, pois tinham vendido tudo o que possu\u00edam.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Agora que a negociata com D. terminara, foram providenciadas carro\u00e7as que transportavam caixas, caixotes, malas e pessoas at\u00e9 a cidade portu\u00e1ria.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Chegamos diante das portas da cidade onde a pol\u00edcia n\u00e3o permitiu nossa entrada at\u00e9 a chegada do armador, para que esse assumisse a responsabilidade de todos n\u00f3s, no que se referisse a alimenta\u00e7\u00e3o. No porto estava ancorado um navio com destino ao Brasil e j\u00e1 algumas fam\u00edlias encontravam-se nele. A este foi logo transportada nossa bagagem e n\u00f3s tamb\u00e9m embarcamos, podendo pernoitar no navio.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No dia seguinte (era, se n\u00e3o me engano, 19 de outubro), o veleiro levantou \u00e2ncora e partimos. \u00c9ramos 220 pessoas a bordo; todos emigrantes e fomos logo atacados pelo enj\u00f4o. Todos procuravam um canto para deitar-se. N\u00e3o sent\u00edamos nem fome nem sede. Logo que esta fase terminou e n\u00f3s melhoramos, um mal bem pior nos surpreendeu. Era disenteria que uma fam\u00edlia trouxera a bordo. Esta terr\u00edvel doen\u00e7a atacou a quase todos, inclusive a tripula\u00e7\u00e3o! Que mis\u00e9ria reinava entre os doentes! Aqui algu\u00e9m gritava por \u00e1gua, acol\u00e1 outro pedia para morrer. Desta doen\u00e7a morreram durante nossa viagem (6 semanas), 27 pessoas, na maioria adultos, cujos corpos eram atirados ao mar. Numa noite, eu me lembro, 3 corpos de uma s\u00f3 vez foram atirados ao mar. De v\u00e1rias fam\u00edlias morreram o pai e a m\u00e3e deixando de 4 a 5 crian\u00e7as pequenas mas que logo foram acolhidas por outras fam\u00edlias caridosas. Comida tinha o suficiente, mas o capit\u00e3o n\u00e3o entregava. Mesmo para um doente n\u00e3o se obtinha nem um pouco de \u00e1gua para fazer uma sopa, imaginem outro alimento. Quando tent\u00e1vamos explicar a necessidade de um doente e que o mesmo implorava por comida, ele apenas respondia:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nada! Morre! Bom para os peixes! E viravam as costas. Uma \u00fanica vez, depois de implorar muito, ele me vendeu uma garrafa de vinho por 5 francos para meus pais. Mas em compensa\u00e7\u00e3o, numa outra ocasi\u00e3o quando pedi \u00e1gua, para um doente, a x\u00edcara me foi derrubada com um tapa na m\u00e3o e jogada no mar. A comida que receb\u00edamos era demais para morrer e muito pouco para viver. Consistia em &#8220;\u00e1gua com caf\u00e9&#8221;, batatas semi-apodrecidas, um pouco de carne salgada e p\u00e3o velho. Se n\u00f3s pelo menos tiv\u00e9ssemos recebido somente p\u00e3o e \u00e1gua, j\u00e1 ter\u00edamos ficado satisfeitos. Mas era \u00e1gua duvidosa que diziam ser caf\u00e9, \u00e0s 10 horas da manh\u00e3, e \u00e0s 4 horas um pratinho de \u00e1gua morna com peda\u00e7os min\u00fasculos de carne salgada ou cabe\u00e7as de peixes salgadas. Esta foi a alimenta\u00e7\u00e3o dia ap\u00f3s dia, durante todas as semanas de viagem. Como fic\u00e1vamos contentes quando chovia e pod\u00edamos recolher a \u00e1gua e guard\u00e1vamos at\u00e9 a \u00faltima gota.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos levado tanto tempo para a viagem como outros navios que chegaram ao Brasil, isto \u00e9, 5 a 8 meses, nenhum de n\u00f3s teria sobrevivido. Os que n\u00e3o morreram de disenteria teriam morrido de fome e de sede.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quando a viagem j\u00e1 estava chegando ao fim e a mis\u00e9ria da comida aumentava, todos os pais de fam\u00edlias e jovens, postaram-se armados diante da cabine do capit\u00e3o e exigiram comida e \u00e1gua ou se vingariam. Isto resultou em efeitos positivos. O comandante mandou buscar p\u00e3o e distribuiu boa quantia a todos. Tamb\u00e9m um barril com \u00e1gua pot\u00e1vel apareceu e todos puderam saciar sua sede. Igualmente a cozinha apresentou uma comida melhor, mas isto foi s\u00f3 um dia; depois tudo continuou como antes.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No que se refere ao tempo, a nossa viagem foi boa. Somente uma vez tivemos que enfrentar um temporal e todos tiveram que recolher-se nos camarotes. Neste temporal um mastro foi derrubado, mas n\u00e3o sofremos outros danos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Certo dia, ap\u00f3s 6 semanas em alto mar, quase mortos de fome, avistamos terra: era o Brasil. A alegria que todos sent\u00edamos era imensa, pois agora est\u00e1vamos livres da pris\u00e3o e s\u00f3 um grito percorria o navio: Terra! Todos que podiam, arrastavam-se at\u00e9 o conv\u00e9s do navio, para certificar-se de que era verdade mesmo. A terra crescia \u00e0 nossa frente e ancoramos perto da cidade. Agora est\u00e1vamos num continente estranho, cheios de esperan\u00e7a e ang\u00fastia, separados para sempre da p\u00e1tria. Aqui pretend\u00edamos encontrar a felicidade. Todos que podiam permanecer no conv\u00e9s admirando a grande cidade do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>N\u00e3o muito tempo o navio estava ancorado, quando recebemos, vindo em uma canoa, um alem\u00e3o, que serviria de int\u00e9rprete e um m\u00e9dico. Por estes senhores fomos interrogados sobre nossa viagem e nosso tratamento a bordo. Foi ent\u00e3o que podemos contar tudo o que nos acontecera. Logo o m\u00e9dico foi visitar os doentes, dos quais ainda tinham muitos. Receitou rem\u00e9dios que mandou buscar na cidade. O capit\u00e3o recebeu a ordem de cuidar com uma melhor alimenta\u00e7\u00e3o, principalmente para os doentes. Esta ordem foi cumprida. A partir de ent\u00e3o os doentes receberam, em vez de \u00e1gua morna, at\u00e9 uma canja com carne de galinha. Os outros tamb\u00e9m receberam comida melhor; repentinamente havia tudo o suficiente. Os tempos mudaram para n\u00f3s. O comandante andava mal humorado pelo navio e se pudesse teria atirado a comida ao mar. O m\u00e9dico vinha diariamente visitar os doentes e verificar a alimenta\u00e7\u00e3o. At\u00e9 na cozinha entrava para ver o que estava sendo preparado para n\u00f3s. Vinham tamb\u00e9m v\u00e1rias canoas at\u00e9 o navio levar frutas, principalmente bananas e laranjas, que para n\u00f3s era a comida preferida.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Foi aqui que eu vi pela primeira vez em minha vida negros. Em cada canoa vinham 2 ou 4 remadores. Eram bem pretos, dentes alvos, cabelos crespos, estrutura robusta, sem camisas ou camisetas, s\u00f3 vestidos com uma velha cal\u00e7a at\u00e9 os joelhos. O calor era muito grande e o suor corria-lhes pelo corpo fazendo-os brilhar como \u00e9bano.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ao v\u00ea-los pela primeira vez, senti um calafrio percorrer meu corpo. Perguntava a mim mesmo como era poss\u00edvel escravizar estas pessoas, pois eram seres humanos como n\u00f3s.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dez dias tivemos que permanecer a bordo, antes que pud\u00e9ssemos ir a terra.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Diziam que era por causa da doen\u00e7a, pois os brasileiros tinham medo que a mesma se espalhasse pela cidade tamb\u00e9m. Mas eu acreditava que o motivo era bem outro e pela seguinte raz\u00e3o: desde que t\u00ednhamos chegado, vinha um senhor, que parecia ser um funcion\u00e1rio no Rio. Este homem vinha em companhia de outros e um int\u00e9rprete alem\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Trazia uma grande folha de papel que estava escrito em portugu\u00eas e alem\u00e3o. O que queriam? Este senhor tinha grandes \u00e1reas de terra numa regi\u00e3o onde fazia bem mais calor, mas do nome n\u00e3o me lembro. Estas terras ele queria colonizar com alem\u00e3es. Eis o motivo porque trazia aquela folha de papel e que os alem\u00e3es teriam que assinar. De acordo com o escrito, cada alem\u00e3o receberia margem de terra para um certo pre\u00e7o. Os primeiros tr\u00eas anos nada precis\u00e1vamos pagar; s\u00f3 a partir dos tr\u00eas anos, tendo 6 anos para o pagamento. Quem n\u00e3o tivesse feito at\u00e9 ent\u00e3o o pagamento teria que pagar juros.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O propriet\u00e1rio tamb\u00e9m prometeu uma longa ajuda em alimentos e ferramentas, que poder\u00edamos pagar mais tarde. Ter\u00edamos que assinar o contrato e o mesmo navio nos levaria ao destino. Foi justamente a mim que escolheram para ler o papel; provavelmente acreditando que eu era o mais entendido em escrita. Depois de ter analisado tudo muito bem eu disse: &#8220;todos podem fazer o que acharem melhor, mas eu, meus pais, meus irm\u00e3os, queremos primeiro desembarcar, estar em terra firme. Ali quero informar-me e se achar conveniente, ent\u00e3o assinarei. Numa terra estranha n\u00e3o se pode assinar qualquer compromisso \u00e0 primeira vista&#8221;. Depois que eu falei isto os senhores voltaram a terra. Mas no dia seguinte voltaram e assim faziam diariamente.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por fim viram que tudo dependia de mim e prometeram-me uma gratifica\u00e7\u00e3o, mesmo terra sem pagamento, se eu convencesse os outros a assinar o contrato. Mas eu estava firme em meu prop\u00f3sito de primeiro desembarcar. Mais tarde soube por um alem\u00e3o fugitivo daquela regi\u00e3o, que devido ao p\u00e9ssimo clima quase todos morriam.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quando o comandante viu que n\u00e3o cheg\u00e1vamos a nenhum acordo, ele nos liberou depois de 10 dias da nossa chegada. Na cidadezinha, Praia Grande, que ficava defronte ao Rio, fomos liberados. No mesmo dia o capit\u00e3o mandou chamar todos ao conv\u00e9s e exigiu de n\u00f3s o restante do frete, pois D. s\u00f3 tinha pagado 2\/2 do mesmo. O comandante alegou que o armador lhe mandara cobrar o restante na chegada e se n\u00e3o fosse efetuado o pagamento ele podia embargar toda a bagagem. Agora o desespero era grande, ningu\u00e9m tinha mais dinheiro. Os homens pediram, as mulheres imploraram, mas nada adiantou; sem nossos haveres fomos desembarcados. O que fazer agora? Para onde ir? L\u00e1 est\u00e1vamos deitados todos na praia, at\u00e9 que alguns brasileiros acercaram-se de n\u00f3s, indicando por gestos um rancho abandonado que poder\u00edamos ocupar. L\u00e1 t\u00ednhamos que passar a noite sem comida, sem bagagem, sem cama, o que seria de nosso futuro? As mulheres come\u00e7aram a lamentar a sorte, as crian\u00e7as choravam, outros rezavam, outros discutiam. Algumas m\u00e3es vendo o desespero dos filhos, foram a uma padaria e por sinais indicavam que queriam p\u00e3o para seus filhos famintos, no que tamb\u00e9m foram atendidas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Tamb\u00e9m eu fiquei a noite toda analisando a situa\u00e7\u00e3o. Num pa\u00eds estranho, onde n\u00e3o se conhecia ningu\u00e9m, os 5 francos que me restaram tinham ficado a bordo numa caixa. O que fazer? Mas eu tinha que encontrar uma solu\u00e7\u00e3o! Resolvi ent\u00e3o seguir numa das canoas na manh\u00e3 seguinte at\u00e9 o Rio e procurar o c\u00f4nsul da Pr\u00fassia. O dinheiro para a canoa pediria emprestado de uma pessoa que ainda tivesse algum. Quando amanheceu fui at\u00e9 a cidadezinha \u00e0 procura de uma canoa que me levasse ao Rio. No caminho encontrei um senhor, que pela apar\u00eancia parecia alem\u00e3o e o interpelei.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Realmente era alem\u00e3o e vivia na cidade. A sua pergunta, confirmei que pertencia ao grupo de imigrantes rec\u00e9m-vindos e contei-lhe nosso drama. O mesmo achou por certo procurar o c\u00f4nsul e se disp\u00f4s a acompanhar-me. Antes convidou-me \u00e0 sua casa para um caf\u00e9, o que n\u00e3o aceitei, explicando-lhe que precisava primeiro solucionar o problema de meus companheiros; mas eu o esperaria mais tarde no galp\u00e3o. Contente regressei e contei aos meus amigos que tinha encontrado uma pessoa que nos ajudaria. Nem meia hora depois o meu conhecido chegou. Pegamos uma barca\u00e7a a vapor e fomos at\u00e9 o Rio.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>L\u00e1 procuramos primeiro o c\u00f4nsul da Pr\u00fassia, mas fomos muito mal recebidos por ele.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Disse-nos ele que tinha outras coisas a fazer do que cuidar de imigrantes, que deveriam ter ficado de onde vieram. Quando est\u00e1vamos novamente na rua, meu companheiro sugeriu procurar outro c\u00f4nsul, fosse ele de Hamburgo ou Bremen ou outro europeu.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fomos bem recebidos pelo c\u00f4nsul de Hamburgo. Tive que contar toda nossa viagem, o mau trato que recebemos, etc. Ent\u00e3o soube que o armador D. Estava desacreditado pelo governo brasileiro, porque no ano anterior tinha acontecido muitas irregularidades. O c\u00f4nsul pediu que n\u00f3s o acompanh\u00e1ssemos e o mesmo nos levou para um sal\u00e3o onde estavam reunidos alguns senhores, que logo mostraram-se interessados em minha hist\u00f3ria. Pediram o nome do comandante e do veleiro, prometendo tomar provid\u00eancias e que nossa bagagem ainda seria liberada naquele dia. Contentes nos despedimos, agradecendo todas as gentilezas. Era hora do almo\u00e7o e eu sentia uma fome terr\u00edvel, pois n\u00e3o comera durante todo o dia. Meu novo amigo sofria do mesmo mal e convidou-me para comer, o que tamb\u00e9m fizemos e ele pagou a despesa.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ao sair do restaurante, tivemos que esperar um bom tempo at\u00e9 a chegada da barca\u00e7a. Meu amigo mostrou-me um pouco a cidade. Vi bonitas vitrines; no mercado enorme quantidade de laranjas, das quais chupamos algumas. Meu companheiro n\u00e3o cabia em si de contente porque pudera ajudar-nos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O comandante, por ordem do Rio, entregou aos imigrantes seus objetos. Mas infelizmente muito ainda faltava; algumas espingardas, tachos, panelas de cobre, caixas foram arrombadas e o conte\u00fado roubado. Minha pr\u00f3pria mala, duplamente fechada fora arrombada. No dia seguinte eu pretendia procurar o c\u00f4nsul outra vez para explicar o que acontecera.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Um dos males estava solucionado, mas logo apresentou-se outro. Panela t\u00ednhamos, mas nada para por dentro e com o qual pud\u00e9ssemos acalmar nossa fome.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ainda viv\u00edamos na espera de que o governo cuidaria de n\u00f3s, mas est\u00e1vamos enganados. Nada aconteceu. Restava apenas uma solu\u00e7\u00e3o: mendigar, apelar para o bom sentimento dos moradores e assim fizemos. As mulheres se puseram a caminho e tamb\u00e9m foram bem recebidas; trouxeram provis\u00f5es e at\u00e9 dinheiro.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Eu mesmo estava sentado num monte de lenha em frente ao rancho, pensando numa solu\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Estava resolvido a escrever uma carta ao imperador pedindo aux\u00edlio e eu pessoalmente entregar-lhe esta carta.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Redigi a carta, contando o que nos havia acontecido na viagem e de nossa atual situa\u00e7\u00e3o. Depois eu queria mandar traduzir o escrito e possivelmente encontraria outra pessoa caridosa que nos ajudasse. Expliquei o plano aos meus companheiros de infort\u00fanio e pedi que, quem pudesse ajudasse com um pouco de dinheiro. Todos concordaram entusiasmados e conseguiram a soma de 8 mil r\u00e9is. Levei mais um jovem de nosso grupo, bastante vivo para acompanhar-me. Precis\u00e1vamos de aux\u00edlio para n\u00e3o morrer de fome. No dia seguinte partimos para o Rio, pedimos informa\u00e7\u00f5es a um dono de restaurante alem\u00e3o, sobre uma pessoa que pudesse traduzir nossa missiva e ele nos forneceu e endere\u00e7ou o nome de uma pessoa capacitada em faz\u00ea-lo. Fomos procur\u00e1-lo e ele fez o que ped\u00edramos. Pagamos 4 mil r\u00e9is pela tradu\u00e7\u00e3o e l\u00e1 partimos em dire\u00e7\u00e3o ao pal\u00e1cio imperial. Quando chegamos, soubemos que o imperador n\u00e3o encontrava-se no pal\u00e1cio, mas sim em sua resid\u00eancia em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, 2 horas distante do Rio. Para n\u00e3o perder muito tempo e chegar logo, tomamos um fiacre por 400Rs. E em uma hora chegamos ao nosso destino.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Na resid\u00eancia imperial, entramos primeiro num grande e lindo jardim e a primeira pessoa que encontramos foi o jardineiro, que era alem\u00e3o de nascimento.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cumprimentamo-nos alegremente, contamos nossas desditas e explicamos o que quer\u00edamos. Pedimos ao jardineiro que nos acompanhasse para servir de int\u00e9rprete. N\u00e3o demorou muito e este regressou com a not\u00edcia que o imperador n\u00e3o receberia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quando fomos anunciados ao imperador, ficamos nervosos e nosso cora\u00e7\u00e3o batia com for\u00e7a. O jardineiro, vendo nosso receio, encorajou-nos e disse que o imperador era um homem bom e compreensivo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mais confiantes subimos a escadaria e nos dirigimos ao sal\u00e3o onde estava o imperador. Logo que nos viu, veio ao nosso encontro sorrindo am\u00e1vel e n\u00f3s nos sentimos mais \u00e0 vontade. Entregamos a nossa carta que leu com aten\u00e7\u00e3o. Fez v\u00e1rias perguntas e nossas respostas foram interpeladas. O imperador prometeu ajudar-nos a tomar todas as provid\u00eancias necess\u00e1rias para resolver nossos problemas. Satisfeitos e alegres nos despedimos cerimoniosamente e sa\u00edmos. Conversamos mais um pouco com o jardineiro que nos convidara \u00e0 sua casa. O caminho de regresso tivemos que fazer a p\u00e9 pois como era tarde, j\u00e1 n\u00e3o havia mais nenhum fiacre.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Agora manifestava-se a fome. Compramos um peda\u00e7o de p\u00e3o, um peda\u00e7o de carne e tomamos um copo de aguardente. Quando chegamos ao poeto verificamos que n\u00e3o havia mais barca\u00e7a que nos transportasse ao outro lado. Soubemos que ap\u00f3s as 18 horas, o pre\u00e7o pelo transporte estava liberado. Podiam cobrar o pre\u00e7o mais elevado.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Como t\u00ednhamos apenas 1 mil r\u00e9is, est\u00e1vamos em apuros, mas nada adiantou conversar com os negros. Eles por sinais, nos faziam entender que queriam 4 mil r\u00e9is pela travessia, o que realmente n\u00e3o t\u00ednhamos. Perto um senhor escutou a nossa conversa sinalizada e condoendo-se, pagou 4 mil r\u00e9is e mandou que o negro nos levasse at\u00e9 o outro lado.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mais uma vez sentimos a gentileza dos moradores. Ao chegarmos, tivemos que contar todos os detalhes o nosso encontro com o imperador. A alegria foi total, mas cedo demais; novamente n\u00f3s nos sentimos enganados. Dia ap\u00f3s dia passava e nada acontecia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A necessidade de alimentos tornou-se t\u00e3o grande, que fomos obrigados outra vez a esmolar. Havia muitos moradores que ajudavam de bom cora\u00e7\u00e3o; outros batiam a porta quando nos viam e analisando as constantes visitas que nos fazia aquele homem, querendo que assin\u00e1ssemos o compromisso para ir \u00e0s suas terras, me fez pensar que talvez eles estivessem impedindo a ajuda prometida. Mais uma vez resolvi procurar o imperador. Novamente fiz uma carta e mandei traduzi-la e junto com o tradutor fui procurar o imperador, que desta vez encontrava-se no pal\u00e1cio. Pedimos que os guardas anunciassem e recebemos permiss\u00e3o para entrar. J\u00e1 n\u00e3o sentia mais receios e confiante subia as escadas. O imperador nos recebeu num grande sal\u00e3o, mas n\u00e3o estava sozinho.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>V\u00e1rios senhores estavam presentes. Entreguei outra vez a minha cartinha, quando o mesmo veio ao nosso encontro, e uma irrita\u00e7\u00e3o profunda espelhou-se em seu rosto, quando a leu. Chamou um dos presentes e comentaram sobre o que eu havia escrito. Em seguida se dirigiu a n\u00f3s e gentilmente falou-me, pediu desculpas de que t\u00ednhamos esperado tanto tempo em v\u00e3o, mas agora tudo seria resolvido; que eu fosse tranquilo para junto dos meus. Um pedido no entanto n\u00e3o podia conceder; ao Rio Grande do Sul n\u00e3o nos poderia enviar. No entanto havia tr\u00eas prov\u00edncias que poder\u00edamos escolher, Santa Catarina, S\u00e3o Paulo e Esp\u00edrito Santo. Pod\u00edamos pensar a respeito e mais tarde quando interrogados, dizer por qual nos decidir\u00edamos. Contentes deixamos a sala de audi\u00eancia e voltamos para casa, transmitindo a mensagem do imperador. A alegria n\u00e3o foi t\u00e3o estrondosa como a primeira, mas grande foi a satisfa\u00e7\u00e3o que sentimos quando \u00e0 tarde veio uma canoa carregada com alimento; carne, p\u00e3o, caf\u00e9, a\u00e7\u00facar, arroz, feij\u00e3o, trigo, sal, etc.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Agora terminara nossa mis\u00e9ria. Todo dia vinha uma canoa nos trazer o necess\u00e1rio durante um m\u00eas, tempo que est\u00e1vamos recolhidos \u00e0 Praia Grande. Durante este tempo pesquisamos qual das tr\u00eas Prov\u00edncias seria a melhor. Todos aconselharam a de Santa Catarina. Diziam que o clima era saud\u00e1vel e os alem\u00e3es ainda seriam estabelecidos pr\u00f3ximo da cidade. Por tanto nos decidimos por Santa Catarina.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Certo dia chegaram v\u00e1rios barcos e nossa bagagem assim como n\u00f3s, fomos transportados a um veleiro brasileiro. Levantando \u00e2ncoras, partimos em dire\u00e7\u00e3o a Prov\u00edncia de Santa Catarina. Fomos muito bem tratados; comida e \u00e1gua suficientes. O \u00fanico problema era o espa\u00e7o. O navio era pequeno para tanta gente, e a maioria permanecia no conv\u00e9s. Algumas vezes fomos surpreendidos por fortes chuvas e ficamos molhados at\u00e9 os ossos. Depois de uma viagem de seis dias, chegamos s\u00e3o e salvos ao porto de Santa Catarina. Ainda no mesmo dia fomos levados em barcos, com todos os pertences, at\u00e9 a cidade e l\u00e1 instalados num grande galp\u00e3o. Na cidade fomos bem recebidos, porque os alem\u00e3es tinham fama de bons trabalhadores e n\u00f3s \u00e9ramos os primeiros a chegar depois de 20 anos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nos primeiros dias receb\u00edamos diariamente mantimentos, assim como no Rio.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Apesar de que nada t\u00ednhamos a reclamar da comida, para n\u00f3s seria de maior valor um aux\u00edlio financeiro. Alguns dos companheiros foram procurar o presidente da Prov\u00edncia e explicar o caso. Este ficou satisfeito porque economizaria nas contas. Agora a di\u00e1ria por pessoa era de 160 Rs., que pagavam pontualmente cada m\u00eas. Era em verdade muito pouco, mas dava para viver, porque os alimentos eram baratos. Muitos conseguiram trabalho na cidade durante o dia e podiam economizar um pouco para o futuro. Este aux\u00edlio recebemos por 18 meses.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Algumas horas de viagem da cidade, na estrada imperial para Lages, cidadezinha no planalto, receber\u00edamos terra. Junto a uma estrada! Isto \u00e9 de grande vantagem para a col\u00f4nia, pensei quando soube da not\u00edcia. Est\u00e1vamos na cidade cerca de 2 meses, quando fomos noticiados de que ser\u00edamos transferidos para nossas terras.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E realmente, no mesmo dia ainda fomos transferidos com tudo o que possu\u00edamos no barco, para a outra margem e mais horas e horas rio acima. Ali fomos instalados primeiro em casas particulares brasileiras, at\u00e9 que uma fam\u00edlia ap\u00f3s outra fosse levada de carro de boi.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>N\u00e3o chegamos logo \u00e0 nossa terra porque as medi\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinham terminado.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Tr\u00eas horas de caminhada a partir do \u00faltimo morador e floresta adentro, fora constru\u00eddo um grande barco onde todas as fam\u00edlias foram alojadas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Eu me recordo da minha surpresa quando vi a estrada imperial. Na Europa eu nunca vira uma estrada t\u00e3o ruim. Coberta por mato onde rasgava-se a roupa, com cada passo atolado na lama at\u00e9 os joelhos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E esta era a estrada principal da Prov\u00edncia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Hoje em dia pode-se afirmar que parece com uma estrada.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Logo depois de minha chegada ao barraco, eu fui em companhia de meu melhor amigo, fazer uma visita a S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara, colonizada h\u00e1 20 anos passados (1826) por alem\u00e3es e que distava um dia de viagem da nossa. Enrolado em um pano algumas pe\u00e7as de roupas, nos pusemos a caminho, para chegar no dia da festa do Esp\u00edrito Santo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Depois de caminhar um trecho, fomos obrigados a tirar as pesadas botas, pois atol\u00e1vamos na lama a cada metro. Depois da chuva nos dias passados, os riachos estavam altos e pontes n\u00e3o existiam. Algumas vezes tivemos que atravessar riachos com \u00e1gua at\u00e9 o peito. Certo riacho meu amigo atravessara bem e eu valentemente o segui, mas num instante perdi o contato com o ch\u00e3o e fui arrastado pela \u00e1gua. Numa margem consegui alcan\u00e7ar um galho e segurar firme, depois de recuperado do susto e com o aux\u00edlio de um amigo alcancei a margem. Estava molhado at\u00e9 os ossos; troquei de roupa e seguimos caminho. A noite nos surpreendeu antes de chegarmos \u00e0 col\u00f4nia e n\u00e3o tivemos outra escolha a n\u00e3o ser procurar um abrigo. Ao longe vimos o brilho de uma fogueira e nos dirigimos para l\u00e1; encontramos dois negros junto a um fogo e por sinais lhe explicamos que quer\u00edamos abrigo, se o permitissem. Os dois concordaram e nos indicaram um lugar perto da fogueira. Cansado da viagem nos deitamos para descansar.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dormir foi imposs\u00edvel devido ao frio. Na Europa tamb\u00e9m senti frio, mas nada podia ser comparado com o que sentia agora. Nos sentamos junto ao fogo, aquecendo uma vez o lado direito outra o lado esquerdo, mas de nada adiantava. Os dentes batiam e quase n\u00e3o conseguiam pronunciar palavras. Com meu amigo acontecia o mesmo. Ficamos aliviados quando ouvimos um galo cantar. Logo que o dia clareou deixamos o rancho, pois pensar em caf\u00e9 ou outra comida n\u00e3o adiantava. Quando sa\u00edmos da porta, a terra sob nossos p\u00e9s se partia e olhando em volta vimos tudo branco; a regi\u00e3o estava coberta por uma grossa camada de gelo. Foi a primeira geada que vi no Brasil. Felizmente o caminho melhorava para n\u00f3s e n\u00e3o tivemos mais que tirar as botas. Se tiv\u00e9ssemos que faz\u00ea-lo, ou ainda cruzar um rio a nado, ter\u00edamos morrido de frio. Ficamos felizes quando ap\u00f3s meia hora de caminhada chegamos a uma casa cujo dono era alem\u00e3o. Tiritando de frio entramos e ele nos acolheu com uma x\u00edcara de caf\u00e9. Tamb\u00e9m nos serviram um bom almo\u00e7o e muito tivemos que falar sobre a Europa, da qual j\u00e1 h\u00e1 20 anos n\u00e3o haviam mais ouvido falar.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Acendemos nossos cachimbos e novamente continuamos nossa jornada. Ap\u00f3s uma hora alcan\u00e7amos nosso destino. Na pequena col\u00f4nia perguntamos por uma hospedaria, que n\u00e3o existia, mas os moradores contentes e hospitaleiros, chamaram nos e ofereceram suas casas, porque todos estavam ansiosos em ouvir algo de sua terra natal.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Com a instala\u00e7\u00e3o e a vida dos alem\u00e3es neste lugar fiquei muito satisfeito; parecia que tinha voltado para a Alemanha. No dia seguinte na festa, reuniram-se muitos alem\u00e3es, homens, mulheres e crian\u00e7as, todos vinham a cavalo dos lugares mais distantes para assistir os cultos nas igrejas. Tanto aqui como na Alemanha, notei que os moradores n\u00e3o desligavam-se dos divertimentos, pois logo que a missa terminou, o povo seguiu para o lugar de dan\u00e7a. Apesar da m\u00fasica s\u00f3 ser executada por uma clarineta e um violino, foi uma satisfa\u00e7\u00e3o enorme observar o colorido e a alegria do povo. Ao anoitecer, muitos retiraram-se para suas casas e outros ficaram at\u00e9 amanhecer. N\u00f3s que est\u00e1vamos cansados, deitamos cedo, agora numa boa cama e dormimos at\u00e9 que o sol nos despertou. Permanecemos alguns dias na col\u00f4nia visitando um e outro colono; sempre bem recebidos. Ficamos surpresos com a boa instala\u00e7\u00e3o de todos, grandes e verdes pastagens com gado bonito e saud\u00e1vel. Com o firme prop\u00f3sito de trabalhar com afinco, a fim de chegar tamb\u00e9m a possuir uma propriedade t\u00e3o pr\u00f3spera, regressamos ao nosso rancho.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Alguns dias depois desta viagem manifestei o desejo de visitar as medi\u00e7\u00f5es das terras destinadas para n\u00f3s. Parti em companhia de um jovem que j\u00e1 nascera aqui; quer\u00edamos chegar at\u00e9 onde trabalhavam os homens. Espingarda sobre o ombro, um grande fac\u00e3o na cintura, um saco com mantimentos, est\u00e1vamos prontos para partir.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Como ainda n\u00e3o existia uma estrada, mas sim somente uma picada, em alguns lugares tivemos que arrastar-nos no ch\u00e3o. T\u00ednhamos esperan\u00e7a de chegarmos antes do anoitecer ao local onde os homens trabalhavam, mas assim n\u00e3o aconteceu. A noite nos surpreendeu e nada de homens. Eu fiquei com medo da noite na floresta, onde j\u00e1 durante o dia n\u00e3o se via nem 5 passos \u00e0 frente. Tateamos ainda no escuro at\u00e9 que a escurid\u00e3o fosse completa e nos obrigasse a ficar no lugar. Acendemos uma fogueira e pudemos ver um pouco \u00e0 nossa volta. Com o clar\u00e3o das chamas, vimos que est\u00e1vamos pr\u00f3ximos a um riacho, o que foi muito bom, pois pudemos saciar nossa sede e preparar algo para comer. Depois de fortificados fomos deitar. Eu n\u00e3o conseguia dormir com todo o ru\u00eddo que o vento fazia nas folhagens. J\u00e1 pensava em \u00edndios e animais selvagens; fiquei feliz quando vi o dia clarear. Partimos para nossa jornada e ap\u00f3s uma caminhada de duas horas chegamos ao local de trabalho dos homens. Ficaram surpresos e contentes quando nos viram. Como recep\u00e7\u00e3o preparam uma boa x\u00edcara de caf\u00e9. Ficamos com eles o dia todo e tamb\u00e9m \u00e0 noite. Na manh\u00e3 seguinte empreendemos a caminhada de regresso bem cedo, para n\u00e3o sermos surpreendidos pela noite novamente.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quando a terra terminou de ser medida, recebemos nossa parte; quanto maior a fam\u00edlia maior a terra. Rapazes sem fam\u00edlia recebiam 100 bra\u00e7as de largura e 1.000 bra\u00e7as de comprimento (200 margem); pais de fam\u00edlias recebiam125-200 bra\u00e7as de largura e 1.000 de comprimento. Agora chegou a hora de trabalho. Enquanto os pais e filhos munidos de machado, facas, foices e fac\u00e3o come\u00e7avam a preparar a terra para construir um rancho, as mulheres e crian\u00e7as pequenas permaneciam no galp\u00e3o comum.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Semana ap\u00f3s semana o trabalho continuava e aos poucos o terreno ganhava forma. As casas improvisadas foram ocupadas e iniciou-se a constru\u00e7\u00e3o do mobili\u00e1rio e o trazer dos pertences at\u00e9 a col\u00f4nia. N\u00e3o era um trabalho f\u00e1cil, porque o caminho era apenas uma picada. Tudo que era trazido levaria pelo menos algumas horas de viagem. Por fim tudo estava no seu devido lugar e a fam\u00edlia pode come\u00e7ar a semear. Os primeiros anos foram cheios de dificuldades, mas depois tamb\u00e9m isto normalizou-se e as colheitas foram mais gordas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dia ap\u00f3s dia clareava a floresta e sempre mais crescia a colheita. Muitos anos passaram-se e a col\u00f4nia prosperou. Todos os colonos que vieram comigo ao Brasil prosperaram e chegaram a uma razo\u00e1vel estabilidade. A viagem a Desterro para a qual naquele tempo gastava-se dois dias, hoje se faz em um dia. O ditado: &#8220;ap\u00f3s o sofrimento segue a alegria&#8221;, concretizou-se nesta col\u00f4nia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>T\u00e3o pouco como eu, todos os outros sentem mais saudades da Europa. Aqui em Theres\u00f3polis, no Brasil, Santa Catarina, encontraram sua felicidade.<\/em><\/p>\n<p><em>Theres\u00f3polis, 1867.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Extra\u00eddo do Calend\u00e1rio para os alem\u00e3es no Brasil. S\u00e3o Leopoldo: Rotermund, 1899, pp. 79 &#8211; 107, sob o t\u00edtulo &#8220;Aus dem Leben eines Deutschen in Brasilien&#8221;, organizado por H. Schauffler &#8211; professor na escola de Teres\u00f3polis. Publicado sob o t\u00edtulo &#8220;A Vida de um Alem\u00e3o no Brasil&#8221; na revista Blumenau em Cadernos, Tomo XXVIII, N\u00ba 5, maio de 1987, pp. 153 &#8211; 163.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um texto extra\u00eddo do di\u00e1rio escrito por um imigrante, que nos ajuda a compreender um pouco mais sobre como foi dif\u00edcil deixar a p\u00e1tria para tr\u00e1s, atravessar o oceano e come\u00e7ar uma nova vida em uma terra distante.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[144],"tags":[62,5,26],"class_list":["post-1384","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-imigracao-alema","tag-documentos","tag-emigracao","tag-imigrante"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/paCYDp-mk","jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":568,"url":"https:\/\/www.kanenberg.com.br\/familia\/carl-voigt-e-caroline-nitz\/","url_meta":{"origin":1384,"position":0},"title":"Carl Voigt e Caroline Nitz","author":"admin","date":"6 de mar\u00e7o de 2019","format":false,"excerpt":"Eles decidiram vir ao Brasil. 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