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O número para voltar no tempo

Numero Voltar Tempo

Eu ainda lembro o número do telefone de casa, como se eu ainda tivesse para onde voltar…

É estranho perceber que um número que talvez nem exista mais continua guardado na memória. Você esquece senhas que criou ontem, mas ainda consegue recitar aquele telefone de seis ou sete dígitos que atendia numa casa onde, durante muitos anos, estava quase tudo o que importava.

Quem viveu os anos 1980 e 1990 talvez entenda imediatamente.

O telefone ficava num lugar da casa. Não no bolso de cada pessoa. Quando ele tocava, alguém gritava do outro cômodo:

— Atende aí!

E, se a ligação fosse para você, vinha aquela frase que hoje parece pertencer a outro planeta:

— Fulano! Telefone para você!

E lá ia você correndo.

Se fosse alguém especial, tentava esticar o fio até onde desse para conseguir um pouco de privacidade. Falava baixinho, enquanto sua mãe passava misteriosamente pela sala três vezes em cinco minutos.

Naquela época, ninguém mandava “cheguei”.

A gente combinava:

— Às quatro, na praça.

E, às quatro, estava lá.

Se atrasasse, o outro esperava. Não havia localização em tempo real, dois risquinhos azuis ou mapa mostrando alguém se aproximando.

Talvez por isso esperar tivesse outro significado.

As fotografias também não apareciam imediatamente numa tela. O filme tinha 12, 24 ou 36 poses, e cada clique parecia precioso demais para ser desperdiçado. Depois vinha a ansiedade de mandar revelar e descobrir, dias mais tarde, que alguém havia piscado justamente na melhor foto.

Mesmo assim, aquela foto ia para o álbum.

Não existia filtro para melhorar o céu, apagar uma espinha ou afinar o rosto.

E talvez por isso aquelas fotografias imperfeitas tenham envelhecido tão perfeitamente.

Tinha domingo com frango assando, macarronada, refrigerante dividido entre todo mundo e televisão ligada na sala. Criança brincava na rua até ouvir alguém chamar pelo nome no portão.

Tinha bicicleta jogada na calçada.

Joelho ralado.

Bola batendo no muro.

Álbum de figurinhas.

Videocassete rebobinando.

Fita cassete gravada do rádio, às vezes com a voz do locutor entrando bem no começo da música que você havia passado meia hora esperando.

Tinha carta.

Tinha bilhete dobrado.

Tinha cartão de aniversário escrito à mão.

E tinha uma coisa que hoje parece pequena, mas talvez fosse gigantesca: a gente desaparecia por algumas horas.

Ninguém sabia exatamente onde você estava a cada minuto.

E o mundo continuava girando.

Não significa que aquela época fosse perfeita. Não era. Existiam problemas, dificuldades e tristezas que a nostalgia gentilmente deixa fora da fotografia.

Mas havia coisas bonitas que ficaram para trás.

A campainha tocava e era alguém.

O telefone tocava e você não sabia quem era.

Uma viagem significava ficar algum tempo sem notícias.

E, quando alguém voltava, havia histórias para contar, porque ninguém tinha acompanhado tudo pelos stories.

Talvez a maior diferença nem esteja nos objetos.

Está nas pessoas que estavam ao redor deles.

Porque, quando lembramos do telefone bege em cima da mesinha, talvez não estejamos com saudade do telefone.

Estamos com saudade de quem atendia.

Quando lembramos da cozinha, talvez não seja do azulejo que sentimos falta.

É daquela voz perguntando:

— Já comeu?

Quando lembramos dos domingos, não é da televisão de tubo, da toalha de plástico ou do barulho do liquidificador.

É porque algumas pessoas ainda estavam sentadas à mesa.

E talvez seja por isso que certas lembranças doem de um jeito tão bonito.

A casa pode ter sido vendida.

O telefone pode ter sido desligado há décadas.

A rua pode estar completamente diferente.

A criança que brincava no portão pode hoje ter cabelos brancos.

Mas existe um lugar dentro da memória onde nada disso mudou.

A mãe ainda está na cozinha.

O pai ainda está sentado naquela cadeira.

Os irmãos ainda discutem pelo controle da televisão.

A avó ainda chama todo mundo para comer.

E você ainda é aquela pessoa que acreditava que aquilo duraria para sempre.

Talvez crescer seja justamente descobrir que não durou.

Mas foi real.

E, de alguma maneira, ainda existe dentro de você.

Por isso é tão estranho lembrar perfeitamente daquele antigo número de telefone.

Porque, no fundo, talvez você não esteja tentando lembrar como ligar para uma casa.

Talvez uma parte sua ainda esteja tentando descobrir o número que precisa discar para voltar no tempo.

Só mais uma vez.

Só para ouvir alguém atender do outro lado e dizer:

— Alô?

Observação: O texto acima é uma adaptação de um texto encontrado na internet. A imagem foi gerada por inteligência artificial a partir das ideias e referências presentes no texto, incorporando elementos da minha própria história: um aparelho de telefone semelhante ao que de fato existiu na casa da família, o aparelho de rádio que permanece como uma relíquia familiar, fotografias reais de momentos vividos em família nos porta-retratos e uma toalha de crochê, simbolizando tantas outras que minha mãe produziu ao longo da vida e que eram quase obrigatórias sobre as mesas e estantes da casa.

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