Houve um tempo em que tirar uma fotografia era quase um acontecimento.
As gerações mais antigas, que viveram praticamente toda a sua vida na era da fotografia analógica, tinham pouco acesso às câmeras e, principalmente, aos filmes fotográficos. Cada fotografia tinha um custo: era preciso comprar o filme, fotografar, levá-lo para revelar e esperar alguns dias para finalmente descobrir como haviam ficado aquelas imagens.
Por isso, fotografava-se menos.
Mas, curiosamente, muitas dessas poucas fotografias receberam um cuidado que hoje nem sempre damos às milhares de imagens que produzimos.
As fotografias reveladas eram colocadas em álbuns, muitas vezes organizados por datas, acontecimentos ou pessoas. Eram guardadas em gavetas, armários e estantes. Algumas recebiam anotações no verso, com nomes, datas e lugares. Os álbuns passavam de geração em geração e, quando alguém queria recordar o passado, bastava abrir suas páginas.
Era possível tocar as lembranças.
Depois veio uma geração intermediária, que nasceu e cresceu em um mundo analógico, mas atravessou a grande transformação tecnológica. Conheceu as máquinas fotográficas com filmes, esperou pela revelação das fotos e, mais tarde, passou a utilizar câmeras digitais, computadores, cartões de memória e, finalmente, os telefones celulares.
É uma geração que vive entre dois mundos.
Ainda guarda fotografias impressas, mas também possui milhares de imagens armazenadas em computadores, discos externos, celulares e serviços de armazenamento na nuvem.
Então chegamos às gerações atuais.
Nunca na história da humanidade se fotografou tanto.
Um aniversário, uma refeição, uma viagem, um animal de estimação, uma paisagem, um encontro com amigos, uma criança brincando, um simples café… praticamente tudo pode ser registrado instantaneamente. Não existe mais o limite de 12, 24 ou 36 poses de um filme. Podemos fotografar centenas de vezes o mesmo momento e escolher depois a imagem que mais gostamos.
A fotografia tornou-se fácil, instantânea e praticamente gratuita.
Mas será que estamos realmente preservando nossas memórias?
Pense por alguns segundos: onde estão as fotografias dos últimos cinco anos da sua vida?
Talvez estejam na galeria do seu celular. Talvez em um computador antigo. Talvez em um cartão de memória, em um HD externo ou em algum serviço de armazenamento na nuvem.
Mas você sabe exatamente onde estão? Tem uma cópia delas? E se o celular quebrar, for perdido ou roubado? E se o computador apresentar defeito? E se aquele HD deixar de funcionar? E se você perder o acesso à conta que guarda suas fotografias?
Podemos descobrir, da pior maneira possível, que aquilo que imaginávamos estar guardado estava apenas disponível.
Essa talvez seja uma das grandes contradições da fotografia digital.
Nunca fotografamos tanto, mas talvez estejamos preservando menos.
Nossos pais e avós não tinham milhares de fotografias. Tinham dezenas, centenas, talvez algumas poucas centenas ao longo de muitos anos. Mas muitas delas foram cuidadosamente reveladas, organizadas e preservadas.
Construíram álbuns.
Álbuns que tinham peso, cheiro, textura. Álbuns que podiam ser colocados sobre uma mesa e compartilhados com outras pessoas. Um avô podia apontar para uma fotografia e dizer: “Este aqui sou eu quando era jovem”. Uma mãe podia mostrar aos filhos uma fotografia de quando eles eram pequenos. Um neto podia descobrir, através de uma imagem, como eram seus bisavós.
A fotografia impressa não dependia de bateria, de sistema operacional, de aplicativo, de conexão com a internet ou de uma senha.
Ela simplesmente estava ali.
Hoje, documentamos praticamente tudo. Fotografamos os primeiros passos dos nossos filhos, as viagens, as festas, os encontros familiares, os aniversários e tantos pequenos momentos que, no futuro, poderiam contar a história de uma vida.
Mas muitas vezes não fazemos a etapa seguinte: preservar essas fotografias.
Talvez as gerações atuais sejam as que mais fotografam na história da humanidade e, paradoxalmente, possam ser as primeiras a deixar para seus filhos e netos muito menos álbuns físicos do que as gerações anteriores.
Não porque tenham menos histórias para contar.
Pelo contrário.
Têm histórias demais.
O problema é que muitas delas estão armazenadas em dispositivos e serviços que podem desaparecer, ser esquecidos ou simplesmente deixar de funcionar.
Imagine uma criança daqui a algumas décadas tentando conhecer a própria infância através das fotografias.
Será que encontrará caixas de fotografias, álbuns e imagens cuidadosamente identificadas?
Ou encontrará apenas algumas poucas fotografias que sobreviveram entre arquivos digitais esquecidos?
Talvez o problema não esteja na tecnologia. A tecnologia nos trouxe possibilidades extraordinárias e tornou a fotografia acessível como nunca antes.
O problema está no nosso comportamento diante dela.
Precisamos aprender que fotografar não é o mesmo que preservar.
Uma fotografia guardada no celular é uma lembrança disponível. Uma fotografia organizada, identificada e mantida em mais de um lugar é uma memória preservada.
Talvez seja hora de resgatarmos um pouco do hábito das gerações anteriores.
Imprimir algumas fotografias. Criar álbuns. Identificar pessoas, datas e lugares. Organizar arquivos digitais. Fazer cópias de segurança. Guardar fotografias importantes em diferentes meios.
Não precisamos abandonar o mundo digital.
Podemos unir o melhor dos dois mundos.
Porque daqui a cinquenta, sessenta ou cem anos, nossos filhos e netos talvez não estejam interessados no modelo do celular que usamos, na capacidade do nosso armazenamento em nuvem ou no aplicativo que utilizávamos para guardar nossas fotografias.
Mas poderão se interessar profundamente por uma imagem nossa.
Uma fotografia simples.
Uma fotografia que mostre quem éramos, onde estávamos e quem estava ao nosso lado.
E talvez, naquele momento, uma fotografia impressa em um álbum antigo tenha um valor que nenhum arquivo digital jamais conseguirá substituir.
Fotografar registra o momento. Preservar permite que ele atravesse o tempo.
Não deixe que a história da sua família seja apenas uma coleção de arquivos esquecidos em algum dispositivo.
Guarde as fotografias.
Organize-as.
Identifique-as.
Imprima algumas.
Faça cópias.
Preserve as suas memórias.
Porque um dia, alguém da sua família poderá abrir aquele álbum e descobrir, através de uma fotografia, um pedaço da própria história.