Uma publicação encontrada em uma antiga revista brasileira traz um registro bastante interessante sobre a história econômica de Braço do Trombudo.
Na edição nº 58 da revista O Observador Econômico e Financeiro, publicada no Rio de Janeiro em novembro de 1940, encontramos, na página 163, uma pequena notícia intitulada “Raspa de mandioca”:
“No município do Rio do Sul, Estado de Santa Catarina, foi instalada a primeira fábrica de raspa de mandioca. A nova fábrica acha-se situada no lugar Braço do Trombudo, distrito de Trombudo Central, e possue maquinário moderníssimo, movido a força hidráulica, com capacidade para produzir 8 toneladas diárias.”
Consultar a publicação original na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
O registro é especialmente interessante porque mostra que, há mais de 85 anos, Braço do Trombudo já possuía uma instalação industrial capaz de transformar a produção agrícola local em um produto beneficiado em escala significativa.
Mas quem era o proprietário?
A fábrica pertencia a Fritz Faller, conforme podemos encontrar no livro Willy Faller: Memórias.
A obra relata:
“Ainda vivo na época, Fritz vira na Lei uma ideia de como beneficiar sua própria safra. Ele montou uma fábrica de raspa de mandioca pouco antes de sua morte, aos fundos da serraria do km 15. Lá, a mandioca era cortada em pedacinhos, seca e então moída.”
O relato prossegue explicando que o mercado da raspa de mandioca acabou enfrentando dificuldades. Os moinhos de trigo teriam se recusado a cumprir as determinações governamentais, provocando o encalhe de sacas do produto no porto de Itajaí. Após a morte de Fritz, sua esposa, Lina, teria vendido o estoque restante a outros colonos, que utilizaram a raspa na alimentação de porcos.
A mandioca e o “pão de guerra”
Para compreender a importância desse empreendimento, precisamos voltar ao contexto econômico daquele período.
Em 1940, o mundo estava mergulhado na Segunda Guerra Mundial, e o Brasil enfrentava dificuldades relacionadas ao abastecimento e à importação de trigo.
A utilização da mandioca como substituta parcial do trigo não era uma novidade. Desde a década de 1930 já existiam medidas governamentais destinadas a estimular a utilização de produtos nacionais na fabricação do pão. Em 1937, por exemplo, foi determinada a obrigatoriedade do chamado pão misto, cuja composição incluía farinha de trigo e sucedâneos como a raspa de mandioca.
A raspa era produzida a partir da mandioca, que era limpa, cortada ou raspada e posteriormente seca. Depois de moída, podia transformar-se em farinha utilizada na panificação.
A importância desse produto chegou a ser bastante expressiva. Uma publicação de 1941 informava que, entre o início da utilização do pão misto e aquele período, haviam sido produzidas mais de 203 mil toneladas de farinha de raspa de mandioca, e que o Brasil já contava com cerca de 300 fábricas desse produto.
É nesse contexto que podemos compreender melhor a importância de uma fábrica instalada em Braço do Trombudo, capaz, segundo a publicação de 1940, de produzir 8 toneladas por dia.
Fritz Faller e a tecnologia
Fritz Faller era conhecido na região do Alto Vale do Itajaí por sua habilidade com máquinas, mecanismos e soluções de engenharia prática.
A própria descrição publicada em 1940 chama atenção para o fato de a fábrica possuir “maquinário moderníssimo, movido a força hidráulica”.
A utilização da força hidráulica revela outro aspecto interessante da história local: os rios e cursos d’água da região não serviam apenas para movimentar antigas serrarias e outras instalações. Eles também podiam fornecer a energia necessária para movimentar equipamentos industriais.
Assim, a fábrica de raspa de mandioca de Fritz Faller representa mais do que uma antiga tentativa de industrialização da mandioca. Ela é também um exemplo da capacidade de alguns moradores de Braço do Trombudo de utilizar os recursos disponíveis e adaptar tecnologias para desenvolver atividades econômicas em uma época em que a região ainda estava em processo de formação e crescimento.
Um registro que merece ser preservado
Hoje, quando pensamos na história de Braço do Trombudo, é fácil imaginar apenas as antigas plantações, serrarias, engenhos, casas e pequenas propriedades rurais.
Mas documentos como esse mostram que a história econômica da comunidade também passou por experiências de industrialização, mecanização e inovação.
Uma notícia publicada no Rio de Janeiro em novembro de 1940 registrou que, em um lugar chamado Braço do Trombudo, então pertencente ao distrito de Trombudo Central, existia uma fábrica com capacidade para produzir 8 toneladas de raspa de mandioca por dia.
Mais de oito décadas depois, esse pequeno registro de uma revista antiga nos permite recuperar um capítulo praticamente esquecido da história econômica de Braço do Trombudo.