
Em 26 de setembro de 2026, o município de Braço do Trombudo, em Santa Catarina, completa 35 anos de sua emancipação política.
Mais do que uma data no calendário, o aniversário de um município é uma oportunidade para olhar para trás, conhecer as origens, recordar aqueles que ajudaram a construir sua história e compreender como pequenas comunidades, ao longo do tempo, transformaram-se nas cidades que conhecemos hoje.
Para mim, porém, Braço do Trombudo representa algo ainda mais especial.
A história dessa cidade se encontra entrelaçada com a história da minha própria família. Foi naquele território, ainda muito antes de existir o município independente, que meu bisavô paterno, Rudolf Kannenberg, escolheu iniciar uma nova etapa de sua vida. E foi ali também que nasceu e cresceu meu avô paterno, Victor Kanenberg, deixando naquela terra parte importante das raízes da família.
Das primeiras famílias à formação da comunidade
A ocupação de Braço do Trombudo está ligada ao movimento de colonização que avançou pelo Alto Vale do Itajaí nas primeiras décadas do século XX.
Segundo o histórico oficial do município, entre 1920 e 1921 chegaram à região pioneiros procedentes principalmente de Blumenau e de outras áreas próximas, muitos deles descendentes de imigrantes vindos de diferentes regiões da Alemanha. Eram homens e mulheres que se aventuravam por caminhos precários, avançando pelas margens do Itajaí-Açu e abrindo espaço em meio à mata.
A região também ocupava uma posição interessante entre o litoral e o planalto serrano. Antigas trilhas e estradas ligavam essas áreas e, durante muito tempo, o transporte era realizado em lombo de animais e posteriormente por carroceiros. Mais tarde vieram os caminhões, que passaram a utilizar pontos estratégicos ao longo do caminho, entre eles os conhecidos quilômetros 10, 15 e 20 e a localidade de Serril.
O próprio nome Trombudo está relacionado às características naturais da região. A denominação acabou sendo utilizada em diferentes localidades e acidentes geográficos, originando nomes como Barra do Trombudo, Trombudo Central, Trombudo Alto — atual Agrolândia — e, naturalmente, Braço do Trombudo.
Foi nesse cenário de colonização, trabalho e formação de novas comunidades que a família Kannenberg passou a fazer parte da história local.
Rudolf Kannenberg e a escolha de Braço do Trombudo
A ligação da minha família com Braço do Trombudo começou muito antes da emancipação política.
Meu bisavô paterno, Rudolf Kannenberg, havia constituído família em Timbó. Recém-casado e já com sua própria família, tomou a decisão de seguir adiante em busca de novas possibilidades.
Foi por volta de 1924 que Rudolf iniciou essa nova jornada em direção à região de Braço do Trombudo.
Pouco depois, em 1925, Rudolf e sua esposa, Ida Brandt Kannenberg, já estavam estabelecidos na localidade que então era conhecida como Braço Novo.
Ali começava uma nova fase da família.
Não era uma vida fácil. Como tantos pioneiros daquela época, Rudolf e Ida precisaram começar praticamente do zero. A terra precisava ser aberta, a casa precisava ser construída e os recursos eram limitados. A subsistência dependia do próprio trabalho, da agricultura e das trocas que faziam parte da vida cotidiana daquela comunidade.
Entre as lembranças preservadas pela família está a história do improvisado forno que Rudolf e Ida fizeram, cavado no barranco, uma solução simples e engenhosa diante das dificuldades dos primeiros tempos.
São detalhes como esses que ajudam a transformar uma árvore genealógica em história.
Mais do que registrar que Rudolf Kannenberg viveu em determinado lugar, é importante imaginar o contexto: a mata, as trilhas, as dificuldades, o trabalho pesado e a esperança de construir ali uma vida para sua família.
Foi ali que nasceu meu avô
E é justamente nesse ponto que a história da família encontra de maneira ainda mais profunda a história de Braço do Trombudo.
Foi naquela terra que nasceu meu avô paterno, Victor Kanenberg.
Victor passou sua infância e juventude em Braço do Trombudo. Foi ali que cresceu, conheceu as paisagens, as pessoas e o cotidiano daquela comunidade que ainda estava construindo sua própria identidade.
Para ele, Braço do Trombudo não era simplesmente o lugar onde havia nascido.
Era sua terra natal.
Foi o lugar onde estavam suas primeiras lembranças, onde viveu parte importante de sua juventude e onde estavam as raízes da família.
Somente no início da década de 1950, já adulto, Victor deixou Braço do Trombudo e desceu para o Vale do Itajaí. Primeiro foi para Blumenau e, posteriormente, para Pomerode, onde começaria a seguir seu próprio caminho e constituiria sua família.
Décadas mais tarde, eu próprio nasceria em Pomerode, dando continuidade a uma história familiar que havia começado muito antes, em diferentes lugares de Santa Catarina.
É curioso perceber como os caminhos da família vão se deslocando pelo mapa: da Pomerânia, na Europa, para Santa Catarina; de Timbó para Braço do Trombudo; de Braço do Trombudo para Blumenau e Pomerode.
São deslocamentos geográficos, mas também são capítulos de uma mesma história.
De distrito a município
A história administrativa de Braço do Trombudo também passou por diferentes etapas.
Antes de se tornar município, a localidade esteve vinculada a outras administrações. O distrito de Braço do Trombudo foi criado em 1957 e, no ano seguinte, passou do município de Rio do Sul para o recém-formado município de Trombudo Central. A partir de então, permaneceu como distrito de Trombudo Central até conquistar sua emancipação.
Assim, durante muitos anos, quando os moradores de Braço do Trombudo falavam de sua comunidade, estavam falando de um lugar que ainda não possuía autonomia político-administrativa.
Foi somente décadas depois que esse cenário mudou.
Em 26 de setembro de 1991, o então governador de Santa Catarina, Vilson Pedro Kleinübing, sancionou a Lei Estadual nº 8.355, que criou oficialmente o Município de Braço do Trombudo, desmembrando-o de Trombudo Central. A antiga vila do distrito foi elevada à categoria de cidade e tornou-se a sede do novo município.
A própria legislação estabeleceu que o novo município permaneceria integrado à Comarca de Trombudo Central.
A emancipação, portanto, não aconteceu de um dia para o outro. Foi o resultado de uma trajetória construída ao longo de décadas por uma comunidade que havia crescido, se organizado e desenvolvido suas próprias atividades econômicas e sociais.
Registros históricos mencionam, entre outras atividades, pequenas agroindústrias ligadas à mandioca, cerâmicas e serrarias. A partir da década de 1970, também começaram a ganhar espaço atividades industriais, especialmente no setor metal-mecânico.
Há também registro de que as comunidades locais participaram do processo de emancipação e de consulta popular que antecedeu a criação do município.
26 de setembro de 1991: um novo capítulo
A data de 26 de setembro passou, então, a representar um novo capítulo na história da comunidade.
É importante fazer uma distinção: a lei que criou o município foi sancionada em 26 de setembro de 1991, mas a instalação oficial do Município de Braço do Trombudo ocorreu em 1º de janeiro de 1993.
Dessa forma, em setembro de 2026, celebram-se 35 anos da emancipação política, enquanto a trajetória administrativa efetiva do município teve início pouco mais de um ano depois.
Trinta e cinco anos podem parecer pouco diante de uma história de ocupação que remonta às primeiras décadas do século XX. Mas são três décadas e meia de uma história própria, construída por gerações de moradores.
E, olhando para essa história sob a perspectiva familiar, há uma coincidência que torna essa comemoração ainda mais significativa para mim.
Quando Braço do Trombudo conquistou sua emancipação em 1991, minha família já estava ligada àquela terra havia aproximadamente sete décadas.
Meu bisavô Rudolf chegou quando aquela região ainda era uma comunidade em formação.
Meu avô Victor nasceu e cresceu ali.
E quando o município finalmente conquistou sua autonomia, os descendentes daquela família ainda estavam presentes.
Uma história que continua
A relação entre Braço do Trombudo e a família Kannenberg não terminou quando Victor deixou a cidade no início dos anos 1950.
Pelo contrário.
Ela continuou através dos filhos, netos, parentes e descendentes.
Ainda hoje existem descendentes da família vivendo em Braço do Trombudo. Isso faz com que a ligação iniciada por Rudolf e Ida há mais de um século continue viva.
Quando penso nisso, percebo que a história de uma cidade e a história de uma família podem caminhar juntas de uma maneira muito especial.
A emancipação de 1991 criou um município.
Mas as raízes de Braço do Trombudo são muito mais antigas.
Estão nas famílias que chegaram, nas casas que construíram, nas roças que cultivaram, nas estradas abertas, nas sociedades que formaram, nas festas, nas igrejas, nas escolas, no comércio e nas histórias transmitidas de geração em geração.
E entre essas famílias está também a minha.
Braço do Trombudo nas memórias da família
Hoje, quando olho para Braço do Trombudo, não vejo apenas um município do Alto Vale do Itajaí.
Vejo uma parte da história da família.
Vejo o caminho percorrido por meu bisavô Rudolf Kannenberg, que em 1924 decidiu buscar naquele lugar uma nova oportunidade para sua família.
Vejo Ida Brandt Kannenberg, sua companheira nessa jornada.
Vejo meu avô Victor Kanenberg, nascido naquela terra e criado entre aquelas paisagens antes de partir para construir sua própria trajetória no Vale do Itajaí.
E vejo também todos aqueles descendentes que mantêm viva, ainda hoje, a presença da família Kannenberg em Braço do Trombudo.
Por isso, registrar os 35 anos de emancipação do município neste espaço dedicado às Memórias de Família é também registrar uma parte da nossa própria história.
A cidade mudou.
As estradas mudaram.
As antigas trilhas deram lugar a ruas e rodovias.
A pequena comunidade tornou-se município.
Mas algumas coisas permanecem: as lembranças, os lugares, os nomes das famílias e as histórias que passam de uma geração para outra.
Braço do Trombudo e a família Kannenberg começaram a construir sua história praticamente na mesma época.
Uma história que nasceu entre as matas e os primeiros caminhos do Alto Vale, atravessou gerações e chegou até os dias atuais.
Neste 26 de setembro de 2026, ao celebrar os 35 anos da emancipação política de Braço do Trombudo, presto também minha homenagem à terra que acolheu meu bisavô, viu nascer e crescer meu avô e que, de uma forma muito particular, também faz parte de quem somos.
Parabéns, Braço do Trombudo, pelos seus 35 anos de emancipação.
Que sua história continue sendo preservada, lembrada e contada — não apenas nos documentos oficiais, mas também nas fotografias, nas lembranças e nas histórias das famílias que ajudaram a construir essa cidade.
Porque preservar a memória de um lugar é, muitas vezes, preservar também um pedaço da nossa própria história.