Hoje, quando pensamos em Blumenau, logo vêm à memória suas construções de influência germânica, as margens do rio Itajaí-Açu, a Rua XV de Novembro e tantos outros lugares que ajudam a contar a história da cidade. Mas há uma lembrança curiosa que merece ser resgatada: em 1985, algumas das ruas de Blumenau serviram de cenário para um filme que reuniu Xuxa, Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Beto Carrero.
O filme era Os Trapalhões no Reino da Fantasia, dirigido por Dedé Santana e produzido por Renato Aragão em parceria com os Estúdios Maurício de Sousa. Lançada em 1985, a produção misturava cenas com atores e aproximadamente 20 minutos de animação, uma combinação bastante característica daquele período.
E, para quem conhece Blumenau, assistir ao filme hoje tem um atrativo especial: é possível reconhecer diversos lugares da cidade como eles eram há mais de quatro décadas.
Uma aventura que chegou a Blumenau
Na história, Xuxa interpreta Irmã Maria, responsável por um orfanato que enfrenta dificuldades financeiras. Para ajudar a instituição, Os Trapalhões realizam um espetáculo beneficente. Porém, o dinheiro arrecadado é roubado, dando início a uma grande perseguição.
Didi, Dedé e Irmã Maria partem atrás dos criminosos, numa aventura que passa por diferentes cenários de Santa Catarina.
Uma parte importante dessa perseguição foi filmada em Blumenau, além de outros locais do litoral catarinense e do antigo parque da Santur, em Balneário Camboriú, onde Beto Carrero mantinha uma vila temática inspirada no Velho Oeste.
Na época, aquele espaço da Santur era uma espécie de antecessor do que mais tarde se transformaria no famoso Beto Carrero World, em Penha.
Uma diligência pelas ruas de Blumenau
As cenas gravadas em Blumenau são hoje um verdadeiro documento visual da cidade.
A perseguição começa nas proximidades da ponte sobre o Ribeirão Garcia, no início da então Rua 15 de Novembro. De lá, a carruagem segue em direção à Beira-Rio, permitindo observar o cenário urbano da época e até o Barco Blumenau II, que aparece ancorado às margens do rio.
A aventura continua passando pela região da Prefeitura Municipal. Em determinado momento, a carruagem quase atropela a banda municipal, numa das situações típicas do humor dos Trapalhões.
A sequência ainda mostra a passagem pela ponte da Ponta Aguda, em direção ao centro da cidade. Nesse trecho aparece o conhecido Castelinho, que naquela época ainda pertencia à família Moellmann.
A perseguição prossegue pela Rua 15 de Novembro, passando diante das escadarias da igreja que hoje conhecemos como Catedral São Paulo Apóstolo.
Depois, a carruagem entra pela Rua Padre Jacobs e chega à Rua 7 de Setembro, enquanto Didi acompanha a perseguição a cavalo.
Tudo isso acontece em poucos minutos de filme, mas representa uma pequena cápsula do tempo da Blumenau de meados da década de 1980.
Blumenau depois das grandes enchentes
Existe ainda um contexto histórico interessante por trás dessas imagens.
As filmagens ocorreram no final de 1984 e início de 1985, período em que Blumenau e o Vale do Itajaí ainda estavam profundamente marcados pelas grandes enchentes de 1983 e 1984.
A cidade passava por um intenso processo de reconstrução. Nesse cenário, a presença de uma produção cinematográfica de grande alcance acabou trazendo também uma espécie de momento de descontração para os moradores.
Ver Didi, Dedé e Xuxa circulando pelas ruas da cidade, acompanhados por uma carruagem e toda aquela movimentação de uma produção cinematográfica, certamente não era uma cena comum para os blumenauenses.
Relatos publicados posteriormente por pesquisadores da história local registram justamente a lembrança de moradores que acompanharam as filmagens. Um deles recorda, por exemplo, que uma das cenas da carruagem foi filmada na Beira-Rio, em um domingo, quando a movimentação chamou a atenção de quem estava na região.
A presença de Beto Carrero
A ligação entre o filme e Santa Catarina não aconteceu por acaso.
Beto Carrero, personagem interpretado pelo empresário e artista João Batista Sérgio Murad, teve participação importante na articulação da produção. Naquele período, Murad mantinha uma forte ligação profissional com Blumenau e havia instalado na cidade a estrutura de sua agência de publicidade.
Além disso, mantinha na Santur, em Balneário Camboriú, a chamada vila do faroeste, que serviu como um dos cenários da aventura.
Beto Carrero também tinha amizade com Renato Aragão e os demais integrantes dos Trapalhões, o que ajudou a aproximar a produção dos cenários catarinenses.
O resultado foi uma curiosa mistura: o Velho Oeste de Beto Carrero, as praias catarinenses e o centro de Blumenau passaram a fazer parte da mesma aventura cinematográfica.
Um retrato de Blumenau que ficou no cinema
Mais do que uma simples curiosidade sobre um filme antigo, essas cenas possuem hoje um valor histórico.
Elas registraram ruas, pontes, prédios, veículos, paisagens e outros detalhes de uma Blumenau que já não existe exatamente da mesma maneira.
O cinema acabou fazendo aquilo que muitas vezes as fotografias familiares também fazem: congelou um instante do passado.
Quem assistir ao filme hoje poderá reconhecer lugares conhecidos e, ao mesmo tempo, perceber quanto a cidade mudou desde então.
A antiga paisagem da Beira-Rio, a ponte, o Castelinho, a Rua 15 de Novembro, as escadarias da Catedral e outros pontos aparecem envolvidos em uma aventura que, para as crianças da década de 1980, era apenas uma divertida perseguição de Didi, Dedé e Xuxa.
Para quem olha com os olhos da história, entretanto, aquelas imagens ganharam outro significado.
São registros de uma Blumenau de 1985, ainda se recuperando das grandes enchentes, mas que por alguns momentos se transformou em um grande cenário de cinema.
E talvez essa seja uma das partes mais interessantes da memória de uma cidade: às vezes, a história está escondida justamente onde menos esperamos — até mesmo atrás de uma carruagem perseguida por Didi pelas ruas de Blumenau.
Uma lembrança para rever
Hoje, rever Os Trapalhões no Reino da Fantasia permite não apenas recordar um dos filmes populares daquela geração, mas também fazer uma pequena viagem pela Blumenau de quatro décadas atrás.
Para quem viveu naquela época, pode ser uma viagem pela memória.
Para as novas gerações, uma oportunidade de descobrir como eram alguns dos lugares mais conhecidos da cidade antes das transformações que vieram com o tempo.
Blumenau foi cenário. O cinema registrou. E a memória tratou de guardar.