A emigração da família Heinz: da Renânia às terras catarinenses

No início do século XIX, tempos difíceis impulsionaram muitos alemães a tomarem decisões drásticas sobre seu futuro. Entre essas famílias, encontrava-se a de Philipp Joseph Heinz, natural de Enkirch, na região de Bernkastel-Wittlich, no então Reino da Prússia (atual estado de Renânia-Palatinado, Alemanha).

Philipp Joseph Heinz era casado com Anna Margaretha Junker, também natural de Enkirch. Anna era viúva de Heinrich Horr e trazia consigo os filhos de seu primeiro casamento: Johann, Heinrich, Jacob e Margaretha Horr. Com Philipp, formou uma nova família, composta por Justus, Johann, Philipp e Heinrich Heinz. Decidiram juntos, como tantos outros conterrâneos, deixar sua terra natal em busca de uma nova vida no Brasil.

A jornada teve início em Enkirch, um pequeno município às margens do Rio Mosela, cercado por vinhedos e paisagens que pareciam eternas. Porém, a instabilidade econômica, os altos tributos e a escassez de oportunidades falaram mais alto. A família deixou a vila e seguiu em direção ao porto de Dunquerque, na França — uma viagem de cerca de 450 quilômetros, provavelmente feita por estradas irregulares, cruzando o território belga e talvez luxemburguês.

Dunquerque, cidade portuária banhada pelo Canal da Mancha, era então um dos principais pontos de embarque de emigrantes. No domingo, 18 de outubro de 1846, Philipp, Anna Margaretha e seus filhos embarcaram com outros 220 passageiros no brigue Sardo Erídano, um navio a vela com destino ao Brasil.

Emigração Família Heinz
Emigração Família Heinz – Diário do Rio de Janeiro, edição nº 7389 de quarta-feira 25 de dezembro de 1846. Observem ainda a publicação de aluguel de amas de leite e sobre escravos fugidos no mesmo jornal

A travessia foi dura e trágica. A bordo, o espaço era escasso, dividido entre pessoas, carga, animais vivos e mantimentos. A água potável e os alimentos eram racionados. A dieta consistia em biscoitos secos, embutidos e carnes salgadas. Mas nem mesmo isso chegou a todos: o capitão do navio se recusava a distribuir os mantimentos de forma justa. Em casos de doença, negava até mesmo um pouco de água quente para uma sopa. Seu desprezo pela vida humana foi resumido na frase cruel e repetida: “Nichts… kaputt, gut für die Fische” (“Nada… que se dane, será bom para os peixes”).

A disenteria logo se espalhou pelo navio. Vinte e sete passageiros morreram durante a viagem, incluindo crianças. Um episódio marcante de sofrimento e resistência, que refletia os desafios de um sonho transformado em provação.

Após cerca de dois meses no mar, o Sardo Erídano aportou no Rio de Janeiro, em 22 de dezembro de 1846. De lá, os imigrantes seguiram viagem a bordo da sumaca 14 de Novembro, embarcação com vela única e fundo chato, ideal para águas rasas e portos pequenos. No dia 5 de janeiro de 1847, chegaram ao seu destino final: Desterro, hoje Florianópolis, capital de Santa Catarina.

A família Heinz foi então encaminhada à Colônia Alemã de Santa Isabel, um núcleo de colonização recém-criado. Estabeleceram-se na localidade chamada Primeira Linha Velha, mais tarde conhecida como Loeffelscheidt, ou Rio dos Bugres, onde receberam o lote de número 34. Estavam entre os pioneiros da segunda leva de imigrantes da colônia.

Com o tempo, os Heinz se integraram à nova terra, cultivando sua fé, tradições e trabalho árduo. Os Horr e os Heinz eram luteranos, embora alguns descendentes tenham posteriormente aderido ao catolicismo. A família permaneceu por décadas na região de Loeffelscheidt e em áreas vizinhas, como a Picada de Quebradente, um local isolado que, na época, poderia ser descrito como “perto do fim do mundo”.

Curiosamente, mais tarde, em 1861, uma outra família Heinz — descendente de Maria Heinz e Heinrich Moosmann — também emigraria para o Brasil, ampliando ainda mais a presença desse sobrenome nas colônias germânicas catarinenses.

Essa saga de coragem e resistência marca o início da trajetória da família Heinz em solo brasileiro, entrelaçando-se com a própria história da imigração alemã em Santa Catarina. Um capítulo de superação, memória e raízes profundas que seguem florescendo nas gerações futuras.

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